sexta-feira, 30 de outubro de 2015

#BarbaUmAno: Sobre Inocência, Apuros e Afinidades (ou Encontros e Despedidas)





Conheci o Silvestre Mendes num dia de semana, em frente ao lindo mar azul da praia de Boa Viagem, em Recife. Ele viera junto com o Leandro Faria e o moço de jeito simples e tímido com um olhar doce trazia consigo a vontade de estudar cinema. Não ficamos muito tempo e decidimos ir ao shopping ali perto. Achei simpático que na praça da alimentação, depois de fazer um pedido, ele ficou surpreso com um Sunday sobre a mesa que não estivera ali minutos antes e mais surpreso que o seu pedido, um sanduíche, demorava muito. Naquele momento pude perceber que Silvestre ainda carregava uma inocência, algo que eu já não possuía há muito tempo e admirava o fato dele ainda a ter em seus olhos.

Com o passar do tempo descobri que aquela mesma inocência persistia. Não apenas em seus olhos, mas em seus textos, na forma como ele encarava o mundo ao seu redor. Mesmo perdendo a inspiração e pedindo férias (o que me deixou profundamente chateado) mesmo com algumas escolhas que eu mesmo me surpreendia, ele nunca perdeu essa maneira de fazer com que o mundo pudesse ser mais agradável ao seu redor. Apenas com um olhar.

Entre tantos textos escolhi um que me é caro por diversos motivos mas entre encontros e despedidas, ter conhecido o Sil, como é chamado nas altas rodas, foi um desses raros momentos que a gente sabe que quando voltar a ver ou rever será sempre encantador. Mesmo ele fazendo bolos de bacia e chamando por outro nome, mesmo ele tendo amigos insuportáveis, acima de tudo a maneira inocente está ali, ele sabe que o mundo é cruel, mas ele não precisa ser.

(e dizem que o moço tem um talento imenso, cala-te boca, quem disse foi o PH, falo mesmo que não sou baú, há hay)
Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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Encontros e Despedidas

Não sei lidar com o adeus. Uma coisa é quando brigamos com alguém e não desejamos ver essa pessoa nunca mais na nossa frente. Mas outra é quando alguém tem que ir embora. Não é escolha sua nunca mais ver aquela pessoa. Não houve briga, muito menos um desentendimento. O que acaba acontecendo é a vida que arma alguns encontros e nos surpreende com despedidas não programadas.

Meu pai morreu quando tinha dois anos. Quando pequeno, chorei inúmeras vezes. Na grande maioria, em datas especiais, como dia dos pais e o Natal, por exemplo. Meu choro, na época, era por sentir falta de alguém que nem lembrava mais como era. Existiam fotos, os momentos narrados por minha mãe e amigos do meu pai, mas nada em minha memória. Sem dúvida, esse foi o meu primeiro contato com a morte e o legado que ela sempre deixa: ausência.

Vocês já repararam que a pior coisa que fica quando alguém vai embora é o espaço vazio? Ou estávamos acostumados com a presença de alguém sempre ali, ou estávamos acostumados com a ideia reconfortante em saber que alguém estaria sempre ali, quando a gente precisasse, ou não. No fim, é aquele velho ditado: Não sabemos a falta que sentiremos de alguém, até esse alguém ir embora. Não sei se foi após perder o meu pai que desenvolvi meu receio com adeus e despedidas. Muito provavelmente foi. É na infância que muitos traumas nascem. Ao menos é o que os psicólogos e terapeutas dizem.

Meu problema está na hora de dizer adeus. Não sou bom com últimas palavras (não quero nem imaginar qual seria a minha). Me dói, por exemplo, quando vou ao aeroporto ou rodoviária levar algum amigo. Ao passo que amo quando faço o movimento contrário. Pegar amigos na rodoviária ou aeroporto é o máximo. Ter eles por perto, abraçar e poder conversar sem usar teclados ou mensagem de voz faz toda a diferença.

Mas, voltando ao assunto do post da semana. O adeus. Ele é complicado. Pode ser um até logo breve ou mesmo grande, quando é uma mudança de cidade ou país. Mais uma vez, não sei como lidar. Desejo coisas boas, óbvio, mas queria poder fazer mais. Demonstrar mais o quanto sentirei falta. O quanto essa pessoa ir embora é triste pra mim. Mas acabo me isolando em meu mundo e dizendo o meu adeus simples mesmo.

Já quando alguém morre, prefiro ficar com os momentos vividos a o último adeus. Por ironia do destino, a última pessoa que vi sem vida foi minha avó. Foi tudo muito de repente. Do nada ela estava bem e, algumas horas depois já não estava mais. Foi triste sua partida, mas foi uma tristeza diferente do que senti das outras vezes em que chorei por meu pai. Cada lágrima que derramei daquele dia até hoje, tem uma saudade específica. Seja dos nossos momentos juntos, por incentivar minha vontade em ser roteirista, ou pelas broncas que me dava. É aquela ausência que falei lá em cima. É a falta de ter ao meu lado nos momentos em que foi e continua sendo necessária.

Quando alguém entra na sua vida, não tem como medir o tamanho da importância que essa pessoa terá. E nem como e quando existirá um adeus.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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