sexta-feira, 9 de outubro de 2015

#BarbaUmAno: Sobre o Amor Que Ainda Não Veio







Todos fazemos planos. De uma forma ou de outra criamos algum tipo de expectativa com relação à nossa vida. Faz parte. Assim como faz parte desistir ou se decepcionar com o que nos deixa de acontecer. E dessa maneira moldamos nossa personalidade muito de acordo com o que projetamos acreditando que será o suficiente para o restante do mundo. Às vezes sim, às vezes não.

Esdras Bailone, há mais ou menos um ano, trouxe uma belíssima carta endereçada a um amor que ainda não veio, mas que poderá vir em algum momento e, como ele mesmo sugere, que venha sem pressa, ele está pronto. E meu amigo merece.
Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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Ao Amor Que Ainda Não Veio

Caro amor que ainda não veio, 

Hoje é dia 27 de dezembro. Mais um ano vai chegando ao fim e você não apareceu. Me vesti de ilusões e esperanças aguardando por você, fiz planos, mas você não veio. 

Já faz tempo, sabe, que espero, procuro, planejo, sonho, me iludo e... nada! Acho que você seria feliz comigo. Podia aparecer assim, como quem não quer nada, meio sem compromisso, só pra ver como é, tirar a dúvida, experimentar. 

Sou uma ótima companhia, lhe garanto que teríamos momentos incríveis. Tenho pensado em coisas muito românticas pra nós dois esse tempo todo que você está sumido, sem dar sinal de vida. Fico idealizando momentos mágicos, únicos, inesquecíveis, que passam como um filme na minha cabeça, sempre acompanhados de uma trilha sonora especial. Coisa de gente romântica boba, apaixonada pelo amor. Olha que loucura, sou apaixonado por você sem ao menos lhe conhecer! Apaixonado pela ideia do amor. 

Se ao menos você aparecesse uma vez, poderia desfazer essas ideias romantizadas que tenho sobre você. Poderia me livrar dessa tortura de só imaginá-lo. Poderia ser uma droga. Mas enquanto você não vir, vou imaginá-lo da forma mais clichê e adorável possível. Num jantar à luz de velas, as mãos entrelaçadas segurando cada um sua taça de vinho tinto, olhos nos olhos e um beijo quente com gosto de álcool e uva. De conchinha numa cama macia, envolvidos por um edredom de algodão, numa manhã fria e chuvosa. De mãos dadas na beira do mar. Cabeça no ombro naquela comédia romântica da sessão das oito. Flores, surpresas, bombons, bilhetes apaixonados em datas especiais. Ter aquela música só nossa. Parece tudo tão bobinho, né? Mas são esses pequenos acontecimentos, aparentemente bobos, que escondem as coisas profundas do amor, e eu quero viver todas elas. 

Quero perder o fôlego de tanta emoção. Quero morrer de prazer e renascer muitas e muitas vezes. Quero chorar de alegria. Quero sentir que alguém se importa de verdade comigo, só comigo, que seja alucinado por mim. Quero espalhar pedacinhos por toda a parte desse amor que em mim transborda. Dar e receber na mesma medida, ainda que isso pareça utopia. Um sempre ama mais que o outro, mas eu quero. Quero escrever poesia, me sentir leve todo dia. Buscar nosso café bem cedo na padaria. 

Mas não precisa se assustar, eu quero que você venha, mas sem pressa, sem desespero, já passei dessa fase do desespero. Houve um tempo em que tive medo que você não viesse, achava estupidamente, que tinha um prazo delimitado pra sua chegada, que se não viesse depois daquela data, adeus amor, você nunca mais daria as caras. Que bobagem! Hoje, mais maduro, sei que você pode vir a qualquer momento, em qualquer idade. Então, estou calmo. Não tenho mais aquela ansiedade sôfrega de outrora; sei esperar. Mas sinto sua falta. 

Tenho um livro cujo título é O Amor Esquece de Começar. Será verdade? Será que você esqueceu de mim. Já tenho mais de 30, procuro ser uma pessoa boa, honesta, agradável, sou carinhoso, gentil, educado, trabalhador, estudioso, falo baixo, sou tranquilo, divertido, gosto de bons livros, bons filmes, peças teatrais, gastronomia, boa música, conhecer novas culturas, viajar, não tenho vícios. Tenho mil defeitos, mas inúmeras qualidades. Mas, uma vez li um poema de Vinícius de Moraes, que dizia que pro amor nada disso importa. O amor se interessa por aquilo que nele provoca a paixão, não interessa o quão certinha, educada e honesta a pessoa seja. Posto isso não tenho mais muito a dizer. 

Apenas, como dizia Cássia Eller naquela canção: 
"Ando por aí querendo te encontrar. Em cada esquina paro. Em cada olhar, deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar."
Ou Pitty, naquela outra: 
"Eu estava aqui o tempo todo, só você não viu."
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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