segunda-feira, 12 de outubro de 2015

#BarbaUmAno: Também Somos Família




Uma das coisas mais legais dessas comemorações de um ano de Barba Feita é relembrar. Reler textos dos nosso amigos colunistas e se encantar com as pequenas obras-primas que eles escreveram durante esse curto, mas intenso, pedaço de tempo. 

Hoje responsável por homenagear meu amigo Paulo Henrique Brazão (ou PH, pros íntimos, beijos), tive uma tarefa agradável e complexa. Porque, vou falar para vocês, como escreve bem o PH, viu? E era tanto material maravilhoso que escolher apenas um entre seus tantos textos foi muito difícil.

Mas, com o retorno desse indigesto assunto à baila com a aprovação (pelo menos na Câmara dos Deputados) do famigerado Estatuto da Família, nada mais atual do que revisitar esse texto postado pelo PH em 04 de março desse ano. Porque sabemos que família é bem mais do que gritam esses abomináveis ~~~religiosos~~~ que envergonham a qualquer cristão verdadeiro. E o PH, assim como muitos de nós, tem uma família sim, com muito orgulho, com muito amor!
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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Sim, Eu Tenho Uma Família

Eu tenho uma família. E isso ninguém me tira. Estou há dez anos com o meu companheiro. Temos uma história tão legítima quanto à de qualquer outro casal. Temos nossos dois cachorros, dois gatos e ainda planejamos ter nossos filhos. Temos a bênção dos nossos pais e dos nossos amigos. Temos sobrinhos de ambos os lados que nos tratam como tios. Nossa família existe.

Infelizmente, o Legislativo de nosso país está querendo regular o que seria família. E eu paro e penso: é sério isso? É sério que no século XXI alguém se ache no direito de definir o que é família, ainda mais indo de encontro à inclusão que toda e qualquer sociedade evoluída prega? Isso me soa tão medieval!

Família sequer é algo que passa por laço sanguíneo. Embora em sua grande maioria existam vínculos biológicos, o que tem de parentes que têm vínculos apenas e totalmente pautados no sentimento é uma enormidade. E não falo apenas de filhos adotivos, mas também de amigos que se agregam a famílias, gente que cuida do rebento dos outros e acaba ficando muito mais responsável por ela do que os próprios progenitores, o tio do primo do amigo que acaba ficando muito mais próximo que o próprio primo ou amigo... A vida dessas pessoas pertence a quem mesmo? A elas ou ao Legislativo?

Se a tal bancada evangélica é a responsável pelo projeto, porque não acreditam então que os tais pecadores, sob sua ótica, devem prestar contas ao seu Deus quando forem dessa pra melhor (ou pior)?

Sabemos que vivemos uma sociedade machista (aliás, mesmo aqui no Barba Feita, já tratei da Falocracia, tema que também envolveu o Congresso Nacional). Nossas instituições são reflexos de anos de pensamentos retrógrados e de busca de um Estado paternalista e regulador ao extremo. Infelizmente, em nosso país, um militar pode ganhar uma condecoração por matar um homem, mas ser expulso de sua corporação por amar um. Infelizmente, não se compreende que se um casal, independentemente de sua orientação sexual, resolve adotar uma criança, é porque essa foi abandonada por dois heterossexuais que não tiveram a responsabilidade de serem pais. Infelizmente...

Tenho diversos amigos com inúmeras formações familiares. Pai, mãe, filho, filha, cachorro e papagaio. Pais e mães solteiros. Dois pais e dois filhos. Dois pais e um filho com guarda compartilhada com uma mãe e outro pai. Filhos adotivos. Filhos biológicos. Filhos afetivos. Casais que optaram por não ter filho. É no mínimo cego o fato de os propositores de uma regulação do que é família não perceberem a realidade à sua volta. Mesmo ainda afundado em muitos conceitos antigos e conservadores, o Brasil mudou. Estão mesmo esses legisladores representando o país? Ou puramente seus ideais pessoas e mesquinhos, sob sua ótima umbiguista e egocêntrica (porque nem teocêntrica eu posso considerar)?

Lembro até hoje de pequenas conquistas que me trouxeram imensa alegria no passado: minha operadora de celular reconhece que somos uma família há oito anos; a minha academia reconhece isso desde que nela ingressamos, há quatro anos. O próprio censo brasileiro, em sua última edição, me ouviu nesse sentido. São coisas banais, mas tão significativas para quem passou anos de sua vida reprimindo ou ao menos omitindo algo – e que vive em uma sociedade na qual teme dar um beijo ou até mesmo andar de mãos dadas em público com seu amado para não ser agredido, seja física ou verbalmente.

Há pouco mais de três anos realizei meu casamento. Dentro de uma instituição religiosa, com a presença de um representante do cartório que fez as vezes de Juiz de Paz, com direito a festa animada depois, com centenas de convidados. Assinei um documento que, embora não alterasse o meu Estado Civil (àquela época, União Estável não poderia ser convertida em casamento), me trazia uma série de garantias junto à pessoa que amo. Mesmo hoje em dia, quando a união pode ser convertida, ainda opto por esperar do Legislativo uma decisão definitiva sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo para realizar o processo pelas vias convencionais. Contudo, lamentavelmente, sinto cada vez mais que se esperar isso do Congresso é capaz de mofar até a morte. E o Judiciário, tantas vezes à frente do Legislativo, acaba permitindo essas pequenas garantias aos brasileiros, mesmo sendo acusado de legislar.

Sim, eu tenho uma família. Ela não é melhor ou pior que a de ninguém. A diferença apenas é que ela é minha. E, mais uma vez, isso ninguém vai tirar. Enquanto o Legislativo (ainda) não se meter no que seria ou não o amor, sigo amando. E construindo a minha família em cima disso.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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