domingo, 25 de outubro de 2015

De Repente 26








Oi, Fernanda! Eu sei que a gente não acredita nessas coisas, mas aqui quem fala é sua... EU DO FUTURO *gestos teatrais com as mãos*. Mais especificamente, sua maravilhosa eu (ou seria você?) de 26 anos.  Se restavam dúvidas de que era eu mesma (nós?), esta forma constrangedora de iniciar a conversa certamente cuidou do problema. Nunca fomos muito boas em começos, não é mesmo? Claramente, não melhoramos. Mas também nunca fomos boas em rodeios, então vamos direto ao ponto… Acho que o próximo passo lógico seria perguntar se está tudo bem, mas acho que nós duas sabemos a resposta pra essa pergunta, né? E é por isso que estou escrevendo pra você. Eu sei que não está tudo bem, e que nem você nem as pessoas que te amam conseguem entender muito o porquê. Mas depois de alguns anos a gente pensa muito sobre isso e começa a entender mais ou menos. E por isso decidi escrever. Essa carta tem alguns spoilers (a gente já sabe o que é essa palavra?), mas eu sei que a gente não se importa com isso... Sei que a gente lê o final dos livros antes, porque não aguenta o suspense. E aviso que vai ficar pior, quando a gente começa a assistir série pela internet e pode ver o último episódio antes do resto. Mas tergiverso... Vou falar o que eu posso sem que a gente cause algum tipo de perturbação irreversível no espaço-tempo contínuo. 

Vamos começar pelas notícias boas? Estamos empregadas e diplomadas (sim, sua esnobe, foi na gigantesca decepção que é a federal). Eu sei que parecia impossível, mas aparentemente possuímos habilidades reais que podem ser trocadas por dinheiro! E sim, isso significa que finalmente podemos comprar as roupas e sapatos que sempre quisemos! Talvez não as mesmas, pois felizmente superamos a fase das saias jeans até o pé. E talvez nem todas, afinal somos jornalistas, não investidoras da bolsa de valores. O que me lembra que ainda não sabemos como a bolsa de valores funciona... De repente, vale você aproveitar agora, que ainda temos algum tempo livre, pra aprender o mínimo sobre finanças e, quem sabe, outras coisas adultas tipo fazer arroz. Falando em vida adulta, se é que não ficou claro, a gente não é muito boa nela ainda. Mas tamo aí nessa batalha. Ainda moramos com a nossa mãe, o que é chato por um lado, mas ajuda na economia pra viajar. E comprar coisas das quais não realmente precisamos, tipo maquiagem. A gente aprende a brincar disso em algum momento, com grande ajuda do Youtube. Você já sabe o que é Youtube? Não lembro! Se não souber, prepare-se: o sanduíche-iche vai mudar sua vida. Ah, outra coisa boa... A nossa relação com a nossa mãe melhora muito com o tempo. E com a Giulia também. A gente ainda briga, mas conversamos sobre muitas coisas, de blush a feminismo, e somos a família mais legal do Facebook. Você ainda não tem Facebook, mas é tipo um Orkut no qual as pessoas não te mandam depoimentos bonitos falando que você é +qd+ e julgam BEM mais o seu comportamento. Mas é legal. Você se acostuma e, na verdade, acaba passando mais tempo lá do que no mundo físico. Essa frase pareceu menos patética na minha cabeça, mas você vai se preocupar menos com isso de parecer patética logo mais, eu juro.

A outra notícia boa é que nós não vamos morrer virgens. Passamos dessa fase há certo tempo, e, ehm, com certo entusiasmo. Mas você é muito nova pra ouvir sobre isso, então contente-se com a alegria de saber que em determinado momento paramos de parecer totalmente repugnantes para o sexo oposto. Isso vai ser um processo meio complicado, mas já falaremos sobre isso. Você vai ter alguns namorados e viver todas as coisas que, por enquanto, te assustam, mas que são bem legais. Você vai se apaixonar, conhecer famílias que vão te abraçar como se fossem suas, vai fazer planos e vai postar fotos bregas com pedacinhos de músicas (hábito tosco, mas é mais forte que você). Tem também todas as coisas ruins que vêm com isso, ex: términos,  mas pelo menos com a gente os corações partidos não são tão horríveis quanto parecem nos filmes. Somos bastante de boa com esse aspecto da vida. Curtimos carinho e companheirismo, mas curtimos leveza e lances casuais também. Continuamos muito fãs de passar tempo sozinhas. Nossa carência, felizmente, nunca migrou para o campo amoroso. Há quem diga que somos frias, mas eu gosto de dizer que somos pragmáticas. Como eu disse, é boa notícia. A gente aprende cedo que a relação mais importante da nossa vida é aquela com a gente mesma. Bonita essa frase, né. Não é nossa. É de Sex and the City. De acordo com meus cálculos, você no momento não gosta. Mas vai gostar. E depois vai odiar. E depois vai gostar, mas vai fingir que não, porque é meio moralmente reprovável. Eu poderia ter assumido a autoria da frase, veja você, mas permanecemos com essa incapacidade quase patológica de mentir. É um atraso de vida.

Agora, às más notícias... Nossa relação com os homens (ih, mas essa dava um livro inteiro) passa muito por nossa relação com o nosso corpo. E ela tem fases melhores e piores, mas não ficou 100% ainda. Estamos trabalhando pra isso, eu prometo, mas... É foda. Lá pelos 20 anos, vamos perder muito peso e nos sentir quase bonitas de vez em quando.  Eu sei, parece inconcebível, mas em determinados dias você se olha no espelho sem querer chorar. Algumas calças jeans vão caber simultaneamente na coxa e no cós, e os homens vão prestar atenção na gente. Tipo, DE VERDADE, não só como a amiga engraçada que ajuda a pegar a outra amiga mais magra e bonita. Eu sei que você está morrendo de vontade de saber mas está com vergonha de perguntar, então: sobre nossos peitos, tenho uma notícia boa e uma ruim. A ruim é que eles nunca crescem - nem aos 16, como mamãe falou que foi com ela. Eu sei, deprimente, mas a boa é que a gente compra peitos novos! Eles são show, somam 820 mL de muita lindeza. Você vira feminista panfletária, mas uma coisa não anula a outra. Com o tempo, aprende a minimizar as crises de consciência. Antes que você se empolgue muito sobre essa sua ideia quase utópica de magreza... Esses quilos que a gente perde encontram a gente de novo. Mas a essa altura a gente já entendeu, ao menos num nível consciente, que existem coisas piores que gordura. Que a nossa viagem de autodepreciação e inadequação não é culpa nossa, e não é única à gente, e faz parte de ideias tortas colocadas na nossa cabeça desde cedo. Não que isso nos imunize em relação à crises, mas agora conseguimos lidar de forma menos apocalíptica. O que importa é que aprendemos a comer direito, a gostar de exercício e estamos 100% saudáveis. Acho que ninguém entende o quanto você realmente sofre com a sua aparência, o quanto você detesta se olhar no espelho ou esse sentimento de total desolação toda vez que você descobre um defeito novo na sua cara, nas suas coxas, na sua barriga. O quanto você pensa que nunca ninguém vai gostar de você. Não posso dizer com assertividade que passa, mas... Melhora. Até porque, convenhamos, não tinha muito como piorar, né? Eu sei. Ninguém mais sabe, mas eu sei. Queria poder sair dessa carta e te dar uma abraço, mas sei que não dá. Qualquer coisa, liga pra Amanda. Ela sempre te faz se sentir melhor - e sim, ela continua pesando tipo 30 quilos. 

Outra má notícia é que a gente aprende do jeito difícil o que é a perda e a saudade. Eu não quero dar muitos detalhes porque acho que isso pode te impedir de viver uma das experiências mais bonitas da sua vida até agora. Mas você forma uma conexão quase sobrenatural (ainda não acreditamos nisso, felizmente, é apenas uma força de expressão) com uma pessoa e ela é cortada cedo demais. Passaram-se alguns anos e a  gente ainda não conseguiu absorver o que aconteceu, mas hoje conseguimos entender como uma experiência que, de certa forma, tivemos o privilégio de experimentar, ainda que por pouco tempo. A gente, apesar de desapegada, tem uns surtos silenciosos e altamente introspectivos de romantismo. E se tem algo capaz de mexer com a gente de um jeito muito profundo, é essa história. Vamos contá-la algumas vezes, vamos chorar em todas elas, e vamos saber que nunca ninguém vai entender. Só a gente. Aliás: continuamos choronas. A gente descobre até os melhores banheiros para chorar em nossos locais de emprego! É uma arte.  

E, já que falamos em emprego, outra notícia meio chata que sou obrigada a dar: não viramos escritoras. Não que a gente pare de escrever, mas acabamos dando ouvidos a algo que dizem muito, um negócio de que "não dá pra viver" disso ou daquilo. Infelizmente, levamos esses “conselhos” dos outros muito a sério, e só agora estamos aprendendo a filtrá-los. A verdade é que viver de escrever exige certos sacrifícios que ainda não estivemos dispostas a fazer. Uso o "ainda", porque estou trabalhando nessa nossa insegurança, eu juro. Temos apenas 26 anos, afinal, e posso afirmar que temos menos certezas na minha idade do que tínhamos na sua. Parece terrível, mas não é. É diferente. Dá trabalho. Mas a gente cresce o tempo todo. Não vou mentir, é difícil lidar com essa aura de potencial desperdiçado. No “mundo real”, não tem a sensação de recompensa que você tem agora, com as notas boas na escola, com os parabéns dos professores, com os constantes comentários sobre como você ainda vai fazer algo grande na vida. Você, aliás, ainda não fez algo grande na vida. Talvez não faça nunca. O feedback profissional, no nosso caso, é discreto e abstrato, mas as nossas prioridades vão mudar também. Outra coisa que a gente percebe é que a palavra “ambição” muitas vezes esconde  comportamentos horríveis. A gente está numas de compaixão, de empatia, de não machucar os outros. Não dá dinheiro, mas acho que a gente não consegue mesmo ser de outro jeito.

Eu sei o que você quer saber mais que tudo - depois dos peitos, claro. Você quer saber se a gente é feliz. Olha... Difícil responder isso. "Feliz" é uma palavra complicada e cheia de peso. Não sei se a gente é feliz. Pra falar a verdade, não sei se a gente é capaz disso, com essa maldita nuvem negra que parece ter nos acompanhado desde que nascemos. Mas a gente é muito mais leve. A gente aprende a se curtir mais, a se ver com olhos mais gentis, a se dar um desconto quando faz merda. Algumas coisas não mudam - ou ainda não mudaram, vai saber. Continuamos mais sensíveis do que o ideal. Ainda nos magoamos demais com as pessoas e nos deixamos muito vulneráveis. Nossa auto-estima ainda deixa a desejar, e tem vezes que o mundo parece estar botando um gigantesco travesseiro na nossa cara. Tem dias que respirar é ruim, e que sair da cama parece a pior coisa do mundo. E olha que nem temos mais que levantar às 6h todos os dias! Mas são dias. Outros dias são ótimos. Às vezes a gente faz algo incrível no trabalho, ou viaja para longe para rever uma amiga, ou do nada somos invadidas por alguma memória gostosa, quando alguém passa com um perfume familiar ou uma música começa a tocar no aeroporto. Alguns dias são bons, bons de verdade, e eu sei o quão inacreditável isso soa pra você.

Eu poderia te falar pra “aproveitar a adolescência” ou curtir esses anos de pouca responsabilidade. Mas eu sei como essa ideia de adolescência dourada que algumas pessoas têm definitivamente não se aplica à gente. Eu sei o quanto você deixa tudo pesar. A verdade é que você ainda tem alguns anos bem ruins pela frente. Você está rodeada de pessoas que te fazem se sentir uma alienígena, sofrendo todo tipo de agressão verbal e emocional na escola, cheia de perguntas dolorosas que ninguém consegue ou quer responder, e, no fim do dia, odiando absolutamente tudo a respeito de si mesma. Você acha que nada vai melhorar, da maldade gratuita das pessoas à sua pele oleosa. Eu também sei que você não quer ouvir que vai melhorar, porque é isso que te falam o tempo todo. A verdade é que sua pele vai continuar oleosa. As pessoas vão continuar gratuitamente malvadas. Então não vou falar isso. Vou só te falar que eu entendo. Que eu sei que não parece, que não deveria ser, mas que apesar da sua vida privilegiada, existir nesse momento é horrível. Mas posso te dizer, de coração, que você é corajosa por tentar. Por levantar todo dia se sentindo a pessoa mais sozinha do mundo. Por fazer o melhor com o que você tem. Hoje, doze anos depois, você ainda está aqui. Ainda não perfeita, ainda não necessariamente feliz, mas definitivamente melhor que ontem. E, se tudo correr como o esperado, pior que amanhã. Fecha o olho, respira fundo e vamos nessa. Até porque, cá entre nós? Tenho um palpite de que seremos fabulosas aos 40.


Leia Também:
Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso, escrevendo sempre no último domingo do mês como convidada aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: