domingo, 18 de outubro de 2015

O Trem




Para ir ao trabalho, pego diariamente o metrô em sua Linha 4 Amarela de São Paulo, a única privatizada do metropolitano da cidade e, sem estranheza, a mais moderna e que funciona. Em termos gerais, melhor que suas irmãs sob o jugo da coisa (adjetivo e não substantivo) pública. 

A linha é famosa por algumas 'atrações': seguranças que foram escolhidos a dedo e, certamente, por alguém que sabia (e muito bem) o que estava fazendo (sei não, alguns parecem ter outras carreiras que não apenas a de segurança, não desmerecendo de qualquer forma uma ou outra, ambas asseguram aos frequentadores assíduos e que apreciam a beleza masculina sua dose de fetiche, seja pela aura que lhes empresta o uniforme ou sonhando com essa outra fonte de renda, enfim); estações com escadas rolantes infindáveis, já que leva-se mais tempo para entrar e sair delas que dentro dos trens propriamente ditos; e, o grande ato, os trens que não possuem condutores (são monitorados e operados à distância) ou separações entre os vagões, fazendo deles um único e extenso 'verme' pantagruélico de gente vagando pelos subterrâneos da cidade. 

Quem frequenta a Linha 4 sabe que um dos carros mais disputados é o primeiro, já que, na ausência do referido condutor, pode-se ver pelas janelas frontais o caminho que o trem percorre no solo, como que puxado por alguma força mágica invisível, com alguma divindade superior (melhor a alguns) ou inferior (pior a outros) a lhe puxar por um fio inexistente aos olhos humanos. Não é raro ver-se adultos deslumbrados com os trilhos que vão sumindo como por encanto sob a besta de aço faminta, canibalizando o mesmo material de que é feita. 

Somos predadores, está em nosso DNA e alma. Prova cabal disto é que temos nossos olhos localizados estrategicamente na frente de nossos rostos. Basta olhar a natureza para comprovar que os caçadores mais eficazes possuem essa característica, que lhes permite manter o foco na presa, não lhe perder de vista. A evolução encarregou-se de nos elevar ao topo da cadeia alimentar e, uma vez lá, passamos a predar não mais alimento, já que aprendemos a cultivá-lo, mas sonhos, ambições, desejos, sejam eles nossos ou dos outros e aí, chamamos inveja. Essa, por si, está diretamente relacionada ao olhar (do latim 'IN' + 'VEDERE') expressando a sensação de desdém e desgosto sobre as conquistas e feitos de outros. 

O trem representou durante muito tempo um meio de transporte ímpar e fator decisivo na expansão e conquistas territoriais e coloniais novamente movidas não apenas pela infindável curiosidade humana mas pela ganância e, novamente, inveja, esse motor da humanidade. Porém, agora, ao invés de expandir territórios, esses trilhos sem condutor jogam nossos olhos predadores à frente, ao futuro incerto que cada dia traz para conviver conosco. 

Os olhos no primeiro vagão não predam mais nada que não seja um desejo imenso de saber onde estão indo; que outras coisas além de mais um dia cheio de tarefas, compromissos, tempo escasso e decepções teremos para contabilizar ao final do dia. Viramos predadores de coisas irreais e impossiveis de serem capturadas, escravizamos nossos instintos predatórios em infindáveis horas de trabalho repetitivo e pouco gratificante e ali, naqueles trilhos, tentamos achar aquela famigerada luz no fim do túnel e estamos sós. Quando havia um condutor, ainda podíamos atribuir a ele a responsabilidade de levar-nos a algum lugar mas, sem eles, apenas no resta olhar os trilhos mudos e a voz mecânica avisar a próxima estação apenas para tomarmos ciência de que aonde deveríamos ter descido passou há tempos. 

Os olhos vagam hoje cheios de sonhos pouco realizados, desejosos de que algo desça, suba ou mude mas, dia após dia, seguem passando pelas mesmas estações, na mesma linha indo e voltando apenas para ver os trilhos sem dono seguindo sem fim em direção a um futuro que jamais chega e que, se chegar, pode apenas revelar que a presa que predávamos éramos nós mesmos.

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Leandro Faria  
Alexandre Melo, nosso colunista convidado de hoje, é da capital de São Paulo, amante do centro velho decadente e dos seus botecos. Leitor compulsivo,viciado nos clássicos dos anos dourados do cinema e música 'das boas'. Pensa que escrever é muitas vezes melhor que falar e adora mostrar velharia a quem não as conhece.
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