quarta-feira, 11 de novembro de 2015

As Primeiras Aventuras Pelo Peru: Lima, Nasca, Arequipa e Puno





Nossa ida ao Peru e à Bolívia começou com uma boa surpresa ainda no aeroporto do Galeão. Na hora do check-in, a funcionária da Avianca pegou os nossos passaportes, pediu um momento, entrou e sumiu das nossas vistas por alguns minutos. Depois de muita apreensão, ela retornou, dizendo que tinha visto que estávamos em lugares separados no mesmo voo e que ela pediu autorização do superior dela pra trocar uma pessoa de lugar e nos colocar juntos. Fofa. Prometemos que não esqueceríamos o nome dela. Mas esquecemos...

Bola pra frente. O voo foi tranquilo. E pousamos em Lima em torno das 9h30 da manhã. Às 14h iríamos direto para Nasca, pois nossa programação já seria de passar os últimos dois dias da viagem na capital peruana, onde pegaríamos o voo de volta para o Rio. Depois de aterrissar, fomos direto ao Larcomar, misto de shopping e centro de entretenimento e lazer encravado em uma falésia, no badalado bairro de Miraflores. A experiência é bem bacana, pois a integração do edifício à paisagem é perfeita. Lá, almoçamos e demos umas voltas antes de pegar o ônibus.

O caminho para Nasca, na empresa Cruz del Sur, foi ótimo. Ônibus em excelente estado, bancos semi-leitos, entretenimento a bordo, refeição. Chegamos a Nasca por volta das 21h30, após atravessar longas e lindas paisagens áridas, uma continuação do Deserto do Atacama. Na rodoviária da cidade, conhecemos o primeiro personagem de nossa viagem: Raul. Típico estereótipo de peruano jovem, Raul era taxista e guia turístico, segundo ele, presta serviços à CVC. Foi ele que nos levou até o nosso hostal, B&B El Jardín, e de cara nos ofereceu passeios para o dia seguinte, os quais já tínhamos programado de fazer, mas não contratado ainda. Admito que fiquei com medo, pois Raul parecia um típico malandrinho: tentava falar português, nos chamava de “meu irmão” o tempo todo. Disse que se a gente consultasse o nosso hostal, que eles não iriam recomendar o seu serviço. Pegamos seu WhatsApp e resolvemos perguntar na hospedagem de qualquer forma.

O proprietário, um holandês chamado Remi, nos recebeu muito bem. E, surpreendentemente, nos disse que não havia problema algum no pacote oferecido por Raul, que estava com preço justo e soava confiável. Logo confirmamos o serviço por mensagem.

Foi nessa noite que veio o nosso primeiro perrengue da viagem. Tomamos um banho e nos arrumamos para sair para jantar. Mas Remi havia ido dormir com a esposa e nos deixou trancados dentro do hostal. Estávamos sem comer nada desde 15h. Já passava das 22h30. E no dia seguinte teríamos um sobrevoo a fazer às 7h, cuja recomendação era ir em jejum. Não tínhamos comprado nenhum biscoito ou similar (depois disso, a viagem toda foi acompanhada a Pringles e Oreo). O jeito foi tomar um chá (coisa que eu odeio) que tinha disponível na cozinha, com muito açúcar, e seguir a orientação da tia Dira Paes em 2 Filhos de Francisco: dorme que a fome passa.

Antes de dormir, ainda conhecemos o outro casal que estava hospedado no B&B, dois italianos em Lua de Mel: Michele (diferente do nosso costume para nomes, um homem) e Silvia. Apenas nos cruzamos na área comum do hostal, mas acabamos nos vendo nos próximos dias por algumas vezes.

Trocamos o horário do nosso sobrevoo para vermos as famosas Linhas de Nasca, tomamos café da manhã cedo e meio Dramin para cada um. Às 8h, Raul nos buscou e nos levou ao aeroporto. O desafio seria andar num avião de pequeno porte pela primeira vez na vida. Cristiano tem medo de altura nível 10. Eu tenho nível 5... 

Antes de voar, tivemos que esperar no lobby por mais de 1h30, assistindo a um vídeo da National Geographic ad nauseum sobre as Linhas. Isso tirou muito da graça do nosso voo: no ar, tivemos muita dificuldade para visualizar os imensos desenhos que os nascas fizeram na terra e ainda permanecem por lá, mais de um milênio atrás. E no documentário, tudo era em HD e realçado ao limite. Admito que acabou sendo um pouco frustrante (e foi o passeio mais caro de toda a viagem), mas valeu a pena. Além do mais, o voo foi tenso como imaginávamos: muita turbulência, muita gravidade a cada manobra. Uma turista vomitou. Mas a tripulação estava na maior calma...



À tarde, sim, fizemos um novo passeio com Raul que foi um dos pontos altos da nossa jornada: conhecer Cahuachi. Um complexo de pirâmides que era o centro cerimonial da cultura Nasca, principalmente entre nos anos 1 e 500 d.C., para onde apontavam boa parte das Linhas que vimos mais cedo. As construções eram imponentes e belas. E ainda passam por escavação, o que limita muito o acesso ao local. Segundo Raul, lá era o Vaticano deles e também um grande centro de desenvolvimento musical dos nascas.


Depois de muito vento e muita areia de deserto, retornamos ao B&B, onde nos encontramos novamente com Michele e Silvia. Por lá, é permitido que você use todas as dependências comuns das hospedagens mesmo após o fim da sua diária, incluindo banheiro e chuveiro. Tomamos nosso banho porque, às 22h15, pegaríamos nosso ônibus para Arequipa, numa viagem de 10 horas que nos serviria para dormir e poupar uma diária. Jantamos em Nasca (aliás, observação aqui: tudo o que se falava sobre a boa comida peruana é verdade; mesmo nas menores cidades e estabelecimentos há toda uma preocupação com o sabor a apresentação do prato. Comemos muito bem durante toda a nossa estadia no Peru) e seguimos para a rodoviária com Raul, que nos ofereceu a corrida de graça (eu tentei pagar mesmo algo simbólico e ele não aceitou, o que demoveu de vez a minha sensação de que ele era um malandrinho). Lá encontramos Michele e Silvia novamente. Eles pegariam o mesmo ônibus que a gente.

Com atraso do ônibus (da mesma Cruz del Sur que nos levou a Nasca), saímos rumo à segunda maior cidade do Peru, onde realizaríamos a nossa ambientação para a altitude, já a 2.300 metros acima do nível do mar. Arequipa se revelou na manhã do nosso terceiro dia como uma cidade de trânsito caótico e, aparentemente, restrita ao seu Centro Histórico, bem próxima aos Andes e seus vulcões inativos cobertos de gelo. O hostal, Solar de Arequipa, foi um dos melhores da viagem. O problema apenas é que ficava numa ladeira e no nosso primeiro dia para acostumar com a altitude, penamos um pouco com a falta de ar, sob um sol inclemente do deserto. Lá experimentamos o famoso chá de coca (já falei que eu não gosto de chá antes...), mas pouco utilizamos durante a viagem, por não sentirmos o tal soroche.

Arequipa foi a única cidade na qual cheguei a usar bermuda na viagem, mas somente de dia; à noite, o frio chegava forte. Descobrimos que a região é atingida por altíssima radiação UV, devido a um problema local na camada de ozônio - motivo pelo qual todos evitam andar de umas 11h até umas 14h na rua. Fomos ao Mosteiro de Santa Catalina, que é uma cidade dentro da cidade, com ruas, casas, pátios e tudo o mais. Era um monastério voltado para a classe alta espanhola que morava na cidade durante a colonização. Lá encontramos novamente Michele e Silvia e, finalmente, trocamos contato. A partir dali eles seguiriam um roteiro diferente de viagem, até as ilhas Galápagos, no Equador.


Em Arequipa, conhecemos mais um personagem que acabou ficando amigo: Beto, um morador local que nos fez conhecer a cidade além do Centro Histórico. Chegamos a ir até a sua casa com outras duas amigas e sua mãe para jantar e ver o jogo do Peru contra o Chile pelas Eliminatórias da Copa do Mundo (o Peru perdeu, infelizmente, por 4x3) – e Cristiano, em retribuição, fez caipirinhas. Beto era da classe alta da cidade: morava em um apartamentão na área nobre, tinha um Mazda branco (que destoava da maior parte das latas velhas que circulavam na área turística), dono de uma rede de lojas de roupa, vivia entre o Peru e Nova York, trabalhando com moda. Ele ainda nos fez o favor de nos levar até uma área onde se vendia casacos térmicos bem baratos (pois o meu estava se autodestruindo de forma enigmática e o joguei fora em Arequipa mesmo). Outro fofo.

Seguimos para Puno, que fica a 3.800 metros de altitude, às margens do lago Titicaca, o mais alto navegável do mundo, entre Peru e Bolívia. Nossa viagem na empresa 4M foi bem bacana: uma companhia de ônibus pequena, com foco turístico nessa área, que faz algumas paradas em pontos estratégicos para fotos no caminho e vai explicando o que a gente vê em espanhol e inglês. Fizemos paradas em áreas de pequenas lagoas, onde era possível observar flamingos, e passamos entre montes a mais de 4.500 metros acima do nível do mar. Não sentimos nenhum tipo de mal estar, apenas a falta de ar natural da altitude.



Por ser uma cidade muito alta, optamos por um hotel localizado na Plaza de Armas, o principal centro local. O Hotel Hacienda Plaza de Armas era bem cafoninha na decoração chique antiga, mas foi o melhor hotel de toda a viagem – super recomendamos. Puno foi basicamente parada para seguir para as Ilhas de Uros, um complexo de 87 ilhas flutuantes feitas com totora, uma planta que nasce dentro do Titicaca e que serve para tudo para a população local, desde a construção até alimentação (nós provamos e não tem gosto de nada...) e remédios. Tivemos uma aula sobre o lago e sobre a população de Uros, descendentes dos Incas, que ainda se comunicam em Quechua ou Aymara. Descobrimos que as mulheres solteiras se vestiam com cores mais vivas, enquanto as casadas em roupas mais escuras. A poligamia masculina é permitida. Cada ilha tem o seu presidente e a ilha que conhecemos tinha um bem simpático e sorridente. Sabemos que muito da tradição hoje em dia só se mantém para turista ver, mas ainda assim valeu muito a visita. Fomos apresentados a uma cultura completamente diferente daquela a qual estamos acostumados.



Finalizado o nosso passeio, tivemos que correr para a rodoviária, pois era chegada a vez de irmos à Bolívia. E descobrimos que os ônibus saíam bem mais cedo do que imaginávamos. O jeito foi almoçar um sanduíche muito do estranho com uma Coca-Cola. Fomos apresentados à empresa boliviana Titicaca, que prometia excelentes ônibus semi-leitos de dois andares. Mas fomos em um linear bem estranho, cuja porta da cabine do motorista para o restante do veículo era segura por uma chave-de-fenda enfiada no assoalho. E lá fomos nós para mais 4 horas de viagem, cruzar a fronteira e encarar uma das partes mais desafiantes (para sermos simpáticos) da nossa viagem: a terra de Evo Morales, o que conto na próxima semana.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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