quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Bolívia: de Paisagens Para Não Sair da Memória a Experiências Para Esquecer





No meio da nossa viagem, havíamos programado três a quatro dias dedicados à Bolívia, por recomendação de alguns amigos. Não daria para fazer o famoso Salar de Uyuni, mas ficaríamos entre três localidades: Copacabana, Ilha do Sol (essas duas, ainda à beira do Lago Titicaca) e a capital La Paz.

Tivemos em Puno, ainda no Peru, a descoberta de que dificilmente acessaríamos a Ilha do Sol dentro do horário programado (iríamos dormir na ilha para assistir ao seu famoso raiar do dia). Mesmo assim, tentamos. Ao chegarmos à Copacabana, cidade homônima da Princesinha do Mar carioca, berço de Nossa Senhora de Copacabana, buscamos o serviço particular de lancha para nos levar até a ilha. E o que sairia ao preço de $ 60 bolivianos para os dois (o que equivaleria a menos de R$ 40), simplesmente nos cobraram $ 600 bolivianos, baixando no máximo para $ 450 bolivianos (isso nos deixando no lado sul da Ilha, que não era a localidade da pousada onde tínhamos reserva). Não topamos e resolvemos procurar um hotel em Copacabana mesmo. O primeiro lugar que surgiu foi no Hotel Mirador, parada final do nosso ônibus e localidade estratégica na cidade, ao preço de US$ 6 por pessoa.

O hotel era um horror. Parecia saído de um filme: luzes queimadas, sujo, velho, cheiro de mofo, tábuas rangendo, equipe despreparada. Cristiano ainda insistiu para ficarmos, chegou a pagar a diária, mas eu não me conformei... Buscamos no Booking pelo menos duas outras hospedagens, mas uma também era bem ruim – mais limpa, mas bem caída e fedorenta. Até que chegamos ao Hostal Solar del Inca. Lá fomos recebidos de cara pelo filhote de Cocker Spaniel Goldie, que era uma fofura de sapeca e me fez lembrar muito a minha Drica (o que, naquele momento em que as coisas começaram a parecer que não estavam dando tão certo, até me arrancou algumas lágrimas). O hostal era como uma pousada e cada quarto era como uma casinha separada. Uma graça, super bem cuidado, ótimo café da manhã. Mas era o mais caro da cidade disponível. Fomos nele mesmo, para mantermos o mínimo de dignidade àquela altura do campeonato.

Logo cedo, rumamos para a Ilha do Sol. E lá tivemos mais um momento áureo da viagem. Diz a lenda que o povo Inca surgiu na Ilha do Sol, após ordem do Deus do Sol para que se montassem uma civilização que o venerasse. A Ilha é um misto de lindíssimas paisagens, ruínas e caminho sagrado. Fizemos uma caminhada de quase 4 horas seguidas pelas montanhas da Ilha (que ficavam acima de 4 mil metros de altitude) entre o Norte e o Sul, sob um sol fortíssimo, mas impossível de sentir devido ao vento frio. Teve um breve momento em que o soroche deu as caras, em forma de uma forte dor de cabeça, e tivemos que recorrer às pílulas para melhorar.


Foi nas ruínas que eu tenho certeza que selamos todas as agruras que passamos a enfrentar na viagem: Cristiano quis tirar uma foto deitado sobre a mesa de sacrifício dos Incas. Eu avisei que a maldição iria decair sobre nós, mas ele ignorou. Pobres de nós...


Já perto do fim do passeio, almoçamos em um restaurante ótimo e barato na Ilha, com direito a entrada (uma sopa local de quinoa, que eles chamam de quinua), o prato principal (uma truta grelhada deliciosa do lago com legumes, batata frita e arroz) e sobremesa (banana com chocolate). Foi o único local onde comemos REALMENTE BEM na Bolívia, diferentemente do Peru, onde isso era corriqueiro. Pegamos a lancha de volta com um grupo de estudantes bolivianos de Cochabamba, que nos ofereceu umas favas (habas, em espanhol) torradas como cortesia. Tirando que quase quebraram o meu aparelho dental, estavam ótimas e eles foram muito simpáticos. Ainda mais quando souberam que éramos do Brasil.

A navegação de volta pelo Titicaca, na parte alta da lancha, foi um espetáculo à parte. Voltamos à Copacabana, pegamos nossas malas e fomos à praça buscar um ônibus para La Paz. Ali apareceu novamente uma face da população local que me desagradou muito: a mentira para se dar bem em cima do seu desconhecimento. O pessoal da companhia Titicaca, que fazia o trajeto em ônibus turístico, sairia somente às 18h30. Eram 17h30. Eles alegaram que se pegássemos qualquer outra empresa, que elas não nos deixariam no Terminal de La Paz, mas, sim, no Cemitério (sim, o cemitério de La Paz é um dos pontos principais da cidade). Foi só atravessar a rua pra descobrir que não era verdade e que a empresa que sairia às 17h30 também nos levaria até o Terminal. E num preço mais barato.

Pegamos o ônibus (que rangia um pouco a direção quando passava em curvas, mas tudo bem) e a paisagem era belíssima, entre o Lago Titicaca e os montes gelados dos Andes. Até que descobrimos que teríamos que descer e atravessar o lago em uma lanchinha, enquanto o ônibus seguia em uma balsa. A remo. A lancha parecia lotada, mas eles juravam que não. Éramos 22 pessoas, mais um cachorro pastor alemão. Sem coletes salva-vidas. Foram menos de 10 minutos de travessia entre as cidades de San Pedro de Tiquina e San Pablo de Tiquina (ou vice-versa). Mas foram minutos tensos. Pude tocar as águas do Lago e confirmar que eram muito geladas. Chegamos a salvo na outra margem e tivemos que esperar nosso ônibus ainda uns 15 minutos. Lá, embarcaram mais pessoas. Inclusive o pastor alemão entrou com seu dono.

Chegando à periferia de La Paz, já de noite, tudo nos causava assombro. Parecia uma imensa favela (e era) com um trânsito ainda mais caótico que o do Peru, filas triplas de vans, gente andando por toda a parte em meio aos carros; lixo, muito lixo. Parecia estereótipo da Índia. Entramos em La Paz por El Alto, cidade vizinha pobre e começamos a descer. Comprovamos o que muitos amigos nos disseram: La Paz parece uma panela; é um buraco encravado no meio de montanhas e chapadas recheadas de favelas. Ao chegar ao terminal, para a nossa surpresa, nenhum taxista conhecia o endereço do nosso hotel. Contamos com a ajuda do centro de informações turísticas para descobrir que ficava em um bom bairro residencial, chamado Sopocachi. E nem era tão longe do centro da cidade.

O hotel, Casa Fusión, tinha o seu charme: era uma antiga casa, totalmente reformada e adaptada a uma hospedagem. Lá, ao tomar banho, descobri que tinha sofrido grandes queimaduras no couro cabeludo, pela alta exposição ao sol depois de cortar o cabelo bem curto (motivo pelo qual eu basicamente apareço de boné ou gorro em todas as fotos futuras da viagem). Saímos para jantar por perto e conseguimos no máximo uma pizzaria com funcionários bem mal-encarados (e a pizza não nos fez bem...). Fomos dormir para começar o sábado bem, porque seria nosso único dia inteiro em La Paz.


O tempo abriu lindamente e parecia o prenúncio de um belo dia na capital boliviana. Até que fomos checar nossas passagens aéreas de Cusco para Lima, que seriam na semana seguinte, e descobrimos que havíamos emitido os boletos para os dias errados (foram para o dia 22 de setembro, que já tinha passado, e não para 22 de outubro, data correta). Após longo tempo com o atendimento do Submarino Viagens, descobrimos que o dinheiro havia sido perdido e nada mais poderia ser feito. Isso já frustrou muito o dia e nos fez gastar boa parte da nossa manhã. Superada essa etapa, fomos conhecer um pouco da cidade. O Mercado das Bruxas foi um bom centro de artesanatos, que leva esse nome porque é possível encontrar coisas como ervas, incensos e também fetos de lhamas empalhados. O Mosteiro de São Francisco também valeu a visita. Vimos coisas bem estranhas aos nossos olhos brasileiros no centro da cidade: as cholas (como se chamam aquelas típicas personagens brejeiras com zilhões de saias coloridas e tranças) vendendo uma água suja com pêssego em calda num grande balde, que eram colocados em copos de vidro lavados na hora em um outro balde com água e sabão, no meio da rua. Os engraxates que eram encapuzados e apenas mostravam os olhos. Ambulantes que nos ofereciam coisas estranhas em forma de caveira.

Andamos de teleférico para ir a um mirante, o que fez o medo de altura do Cristiano aflorar novamente. Na sequência, conhecemos um boliviano, que já havia morado no Peru e tinha família no Brasil, chamado René (curioso que ele era de Santa Cruz de la Sierra e tinha o mesmo sotaque “roceiro” do nosso interior). Ele nos deu a dica para irmos a dois lugares: o restaurante Gustu, considerado um dos melhores do mundo, na Zona Sul de La Paz, e o bar La Costilla de Adam (literalmente, a Costela de Adão), bem próximo ao nosso hotel. Conseguimos reservas no Gustu, que foi aberto por um famoso chef holandês (como eu não entendo nada de alta gastronomia, não gravei o nome dele) casado com uma boliviana. No caminho, pudemos ver que realmente a Zona Sul de La Paz era a área mais rica da cidade. A paisagem e a cara das pessoas mudavam claramente. O restaurante foi o mais sofisticado no qual estive na minha vida e fomos informados de que estava rolando um menu degustação com comida típica boliviana e sul-americana. Desculpa perfeita para irmos embora, mas acabamos, não sei até agora por que, ficando. Consegui comer pouco mais da metade dos pratos, porque tem coisas que simplesmente não descem. E paguei a conta mais cara da minha vida. Mais cara do que vários hotéis da viagem somados. Daquelas contas que você quase chora ao digitar a senha do cartão. E nem valeu a pena.

De lá, fomos até o Costilla de Adam, que foi difícil encontrar porque era um bar “secreto”, mesmo sendo hetero (lá, a noite gay simplesmente não prestava, segundo informações). Descobrimos que lá isso é relativamente comum: não há placas, sons, nada indicando que lá existe um bar. Você só chega se alguém te contar. O ambiente era o máximo em relação à decoração (com coisas retrô/vintage inusitadas por toda a parte), havia gente fina, elegante e sincera. Mas já estávamos sem ânimo nenhum de um dia totalmente frustrado e, além do mais, a lei do fumo não existia por lá; estava insuportável o ambiente com a fumaça de cigarro. Aguentamos ficar um pouco mais e fomos para o nosso hotel, pois no dia seguinte pegaríamos o ônibus às 8h rumo a Cusco, no trecho mais longo da viagem (a princípio, 11 horas seguidas).

Estávamos na rodoviária às 7h30, pois era o que a empresa de venda da internet nos pediu. Mas descobrimos que o ônibus da Litoral só sairia às 8h30. Até aí, tudo bem. Ficamos aguardando na fria rodoviária de La Paz. Porém, após sucessivos atrasos, que só chatearam a todos (e todos eram turistas), saímos somente às 10h30. Ao entrar no ônibus, um cheiro horrível de mofo e de peixe, que na hora ativou a minha alergia (ainda bem que tinha levado a minha loratadina pra viagem). Os bancos eram sujos e descobrimos que o do Cristiano ainda estava quebrado e molhado. Sim, molhado. Uma goteira do teto encharcou o assento. E o ônibus estava lotado. O comissário colocou um cobertor por cima, como se fosse solução. Um argentino também estava com o assento quebrado. O banheiro não tinha água e começou a feder a urina em pouquíssimo tempo. As janelas não abriam e um grupo de italianos começou a pedir ar, porque estava ficando realmente quente. E fomos solenemente ignorados pelos funcionários. 

Chegamos à imigração, próximo à cidade de Desaguadero, e o local era imundo, coberto de terra e poeira por todos os lados. Funcionários de completa má vontade. Terrível. Cruzamos a ponte sobre o Rio Desaguadero a pé até o Peru, onde a imigração já era muito mais bem organizada, equipada e limpa. Lá, comunicamos ao comissário do ônibus que não iríamos até Cusco, devido às péssimas condições: resolvemos descer em Puno e pegar outro ônibus por lá. Mas isso é papo pra semana que vem.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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