domingo, 15 de novembro de 2015

Criaçao




Fui criado com formação católica apóstólica romana mais, creio, pelo desejo de meus pais de não criarem um filho gentio, perpetuando uma tradição social por simples osmose, do que pela crença em si. Nunca fomos uma família religiosa, lembro vagamente das esparsas vezes em que fomos, como núcleo familiar, à missa ou festas da igreja (salvo quermesse que de religioso não tem é nada).

Até mesmo em casa a presença da religião se dava mais através dos filmes bíblicos que minha mãe amava, do que por livros sagrados em locais estratégicos da casa acompanhados das quinquilharias e aparatos crentes, nem um ou outro tinha presença em casa. Havia sim um ar de reverência discreta, o divino era algo mais a ser respeitado do que temido, venerado ou idolatrado e não me recordo, sinceramente, de ameaças paternas ou maternas embutidas do fogo do inferno ou castigo divino, antes, o oposto, as ameaças eram endoladas por castigos bem mais reais que a ira de cima ou a danação eterna.

Isso não impediu que certo temor fervoroso de mim se apossasse quando comecei a entender o que se passava comigo diferente dos demais garotos. Lembro mesmo de ter gasto aí alguns rosários rogando ao divino que me tirasse aquilo que eu não sabia o que era. De certa forma, eu me punha em contato com um conceito de fé no qual o pedido não partia de mim em direção ao senhor ou seus subalternos e assistentes diretos mas, a um etéreo que meu rude entendimento à época considerava ser capaz de me responder ou mesmo atender criando, eu mesmo, uma série de pequenos rituais os quais cria me trariam boa sorte.

Não era instado a fazer minhas preces antes do sono, não era levado a confessar meus erros, salvo por medo de uma coça, não era subjugado por um medo cego de que algum tipo de maná cairia de cima para iluminar meus caminhos. Antes, tive a praticidade e veracidade do conhecimento dado por meus pais fomentado desde cedo e uma certa ausência de clima de conto de fadas sobre as questões da vida (até onde eles entendiam ser possível), que foram, inclusive, subvertidas com o advento de minha homossexualidade.

Aliás, agradeço a esse esclarecimento liberto da religião, o fato de meus pais terem, na medida do possível e com o passar do tempo, entendido e assimilado minha orientação sexual (não digo aceitado, porque o termo em si me soa complacente e lotado de comiseração). Sempre primaram pela educação, pela bagagem, pela formação intelectual, deixando, como disse acima, as questões de fé apenas com um alicerce rudimentar ao qual poderia usar para seguir o caminho que minha alma ditasse.

E cheguei a seguir alguns.

Adolescente, creio que buscando aceitação e não iluminação, cheguei a experimentar algumas vertentes, ora por minha iniciativa, outras levado pelo afeto dedicado a alguém que me interessava, motivo esse bem menos altruísta, eu sei. Feliz ou infelizmente, nenhum deles vingou e, conforme a idade adulta foi se acercando, cada vez menos havia em mim uma necessidade de apego a qualquer crença que fosse e fui, aos poucos, largando hábitos enraigados, como persignar-me ante templos, orar, respeitar dias santos e coisas do tipo como, por exemplo, a carne permanecer em meu cardápio sem qualquer resquício de culpa durante o período da Semana Santa, até mesmo porque, para que a culpa exista, é preciso que haja a crença no conjunto de regras, símbolismos e costumes da religião, o que inexiste.

Não confundir, fique claro, com falta de respeito com quem segue tais ritos e costumes, assim como não me considero uma pessoa sem fé. Fé e religião são coisas distintas e que, hoje em dia, perderam seus sentidos específicos e correlatos e arriscaria dizer que nem todos que tem fé possuem, via de regra, religião, enquanto muitos que tem esta segunda minguam e muito em sua fé. Fé dispensa símbolos e templos, dispensa regras e mandamentos, dispensa castigos e recompensas; é algo mais íntimo e direto. Eu tenho a minha, concebi meus rituais e crenças que me põe em contato com minha concepção de divino ou chame como desejar. Talvez, a melhor definição seja filosofia de vida. 

A religião é um veneno, deveria ser controlada ou banida, pois é ditada pelos homens e estes são acima de tudo, falhos. Gostaria que todos pudessem ter gozado da criação que tive, deixando abertos horizontes e incitando a busca de conhecimento e não o temor em tê-lo, como se algumas partes do universo fossem lacradas apenas aos iniciados e bentos, que balela! Temo pelos fracos de mente e alma, esses que não tem senso ou direção e que caem feito moscas nas teias dos religiosos de plantão, sedentos em sugar os bolsos e almas desses coitados, acenando a superação conseguida por méritos próprios como bênçãos pela conversão.

São esses que depredam as imagens e sacam as igrejas, terreiros e outros templos das religiões que não seguem os preceitos das suas. Ensandecidos pela recuperação que o divino fez em suas vidas, tomam como guerra santa levar a ferro e fogo a palavra que entendem ser sagrada a quem deseja ou não ouví-la, não há opção e a não conversão é tratada com o absolutismo dos fanáticos, ou seja, se não está comigo, é contra mim e meu senhor.

Não eximo as igrejas oportunista de culpas, esse vampiros de almas sempre à espreita mas, acima de tudo, as famílias que cada vez mais desaprendem o que é criar um ser humano dotado de bom senso, inteligência, caráter e respeito, qualidade que parecem estar em lista de extinção. O educar, esse trabalho filho da puta, de merda, que é chato e demanda tempo, dedicação e atenção, foi delegado às escolas e às igrejas, posto que os pais não sabem mais como fazê-lo.

As escolas também perderam a mão e a alternativa que resta é, sinto dizer, simplesmente sinistra.

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Leandro Faria  
Alexandre Melo, nosso colunista convidado de hoje, é da capital de São Paulo, amante do centro velho decadente e dos seus botecos. Leitor compulsivo,viciado nos clássicos dos anos dourados do cinema e música 'das boas'. Pensa que escrever é muitas vezes melhor que falar e adora mostrar velharia a quem não as conhece.
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