domingo, 22 de novembro de 2015

Mulheres Negras





Eu não sou muito política. Falo isso sem orgulho nenhum. Porém, tenho de reconhecer que não sou engajada, que não sou militante de causa alguma. Eu me envergonho dessa passividade porque eu deveria ser. Nasci negra e mulher. Além disso, não sou uma mulher bonita ou magra, então as coisas complicam muito pro meu lado. Ah, nasci numa família pobre também, que continua pobre e não tem perspectiva de mudar isso. Só que consegui dar uns saltos para fora dessa curva. Consegui me educar minimamente. consegui um emprego razoável que me permite acessos que minha família não tem. Não me identifico com os valores da classe média brasileira, porque minha origem não é essa, mas o fato é que hoje minha renda per capita me enquadra exatamente aí no meio desse povo que tem uma cultura e um pensamento bem diferentes do meu sobre vários assuntos que me são caros.

Eu leio muita coisa por aí. Leio bastante sobre feminismo e leio ainda mais sobre a condição das pessoas negras, especialmente as mulheres. É muito foda ser negra e pobre no Brasil e, quando eu digo isso, não estou falando sobre a minha vida, mas sobre a vida da maioria das mulheres negras. Vidas que estão próximas de mim, pois não preciso ir muito longe para ter exemplos que se encaixam com perfeição nas estatísticas que nos evidenciam o quão mais complicado é ser um cidadão se você faz parte de determinado grupo social. Eu tenho mulheres na minha família dentro dessas estatísticas todas que pululam por aí. A educação de baixa qualidade. O salário baixo. O subemprego. O trabalho doméstico. Os acessos restritos. A gravidez na adolescência. Todos os fatores nos quais o grande contingente é feito de mulheres negras.

Eu não sei como articular de forma clara o meu pensamento, mas estou tentando porque tenho um grupo de amigos e outro dia eles discutiam algumas características do movimento feminista feito por e para mulheres negras, particularmente a agressividade e o que alguns consideram como equívocos de posicionamento. Meus amigos não entendem e como explicar? Eu não sei. São questões muito complexas, que não permitem respostas simples.

A questão é que muitas mulheres feministas negras não se veem representadas no movimento feminista empreendido por mulheres brancas. Isso, dito assim, de forma direta e objetiva, dá um nó na cabeça de muita gente. Por quê? Como assim? Não é tudo mulher no final das contas? Infelizmente, não. Para fins práticos, não é tudo mulher no final das contas. Há uma hierarquia segundo a qual mulheres brancas valem mais. Há uma série de artigos e lamentos internet afora que tratam especificamente da solidão da mulher negra (se você é uma mulher negra é menos provável que você obtenha parceria amorosa. Se o homem puder escolher, o mais provável é que ele vá escolher a mulher branca para estabelecer uma parceria amorosa. Mesmo que esse homem seja também negro.). Mulheres negras morrem absurdamente mais que mulheres brancas. A mulher recebe menos que o homem. a mulher negra recebe menos que a mulher branca. Basicamente, mulheres negras estão na última posição do que quer que seja bom e na primeira do que quer que seja ruim (simplifico de monte, eu sei, mas esse não é um resumo equivocado.).

Diante desse contexto, é muito fácil compreender porque dentro de grupos feministas negros, muitas vezes, há alguma agressividade contra todos, inclusive contra mulheres brancas. Elas se posicionam contra todos porque se sentem agredidas por todos. Há uma incompreensão da parte de quem é branco do que seja ser negro. E isso não é uma ofensa ou motivo de vergonha. Não há mesmo como saber se a sua pele não é escura. É difícil para uma pessoa branca entender como algumas coisas podem ser ofensivas.

A irmã de uma amiga é branca. Ela tem o cabelo cacheado e com base nessa única característica, ela ensaiou um posicionamento de mulher negra. Tipo, meu cabelo é cacheado e eu o aliso para ser aceita pela sociedade. Pronto, sou como as mulheres negras. sou negra também. É uma menina de 20 anos apenas e ela não entende como isso pode ser ofensivo para uma mulher negra. Como uma mulher branca se colocar no mesmo patamar de exclusão sem de fato a sofrer é ofensivo para quem a encara de fato porque não tem a menor possibilidade de escolha. Não é uma escolha e esse é o ponto. A mim ofende porque está implícito nesse desejo de ser reconhecido como uma coisa que você não é, a intenção de obter alguma vantagem. Quem é que quer ser reconhecido como negro quando há um PM na sua frente te parando para uma revista? Ninguém, né. Se você tem especial interesse em se declarar negro sem o ser efetivamente, sem ser reconhecido como um, sem sofrer as consequências dessa condição, é porque alguma vantagem há (oi, cotas). E talvez esteja aí a chave para entender o incômodo que Clarices e Jout-Jouts provocam em algumas mulheres negras, como exposto nesse texto aqui.

A lógica é mais ou menos a seguinte: o feminismo está na moda. Isso é um fato concreto. Dá até capa de revista semanal com circulação nacional. Há uma Jout Jout da vida falando sobre feminismo, embora ela não levante essa bandeira diretamente. Quando uma revista semanal de circulação nacional vai abordar o assunto ou um talk show famoso convida alguém para uma entrevista, é com uma mulher branca que esse veículo quer falar e não comigo, feminista que fala da condição de vida das mulheres negras nas favelas, nas periferias, sobre os filhos dessas mulheres sendo assassinados a torto e a direito, por exemplo. Porque para tudo nessa sociedade altamente desigual há uma hierarquia a ser seguida e o feminismo que é ouvido, ainda que minimamente, pela grande mídia e que viraliza nas redes sociais, é o feminismo feito por mulheres brancas.

Onde está Wally?
O vídeo feito pela Clarice foi outro motivo de incômodo. É uma canção para empoderamento de mulheres. Ponto. E a autora do texto leu os versos da canção de forma literal. O incômodo foi porque o buraco é tão mais embaixo para mulheres negras que ainda não chegamos nem no patamar que nos permita nos identificar com uma canção que tem em seu refrão a afirmação de que estamos sobrevivendo. Não estamos. Estamos morrendo nas periferias das grandes cidades. A solidão disso é tão absurda e sólida que sim, gente, provoca raiva ver a mídia e as redes sociais e tudo que é de fato ouvido pelas pessoas batendo palmas para isso. Dá vontade de gritar: Não, tá errado. Não estamos sobrevivendo, olha aqui, estamos morrendo e muito e o tempo todo e ninguém faz nada, acordem.

Sempre vai haver alguém para contrapor: mas a Clarice disse que está fazendo apenas arte, que não está militando por nada nem ninguém (não sei se ela disse de fato isso, ouvi falar apenas). Ao que eu respondo: tá sim. No vídeo original do Destinys Child há a pegada do empoderamento, mas não há uma pegada política. O vídeo da Clarice, mais do que a versão da canção desprovida de imagens seria capaz de dizer, está falando de mulheres e da sua condição na nossa sociedade e na necessidade de sermos fortes porque o rojão é avassalador. É um posicionamento político. É arte também. A pessoa que lê a fala dela sobre arte e separa isso de um posicionamento político é porque não deve saber o que é arte ou desconhece sua tradição de contestação do status quo. E por que isso, logo isso, consegue incomodar alguém? Lembrem do dito popular: se a farinha é pouca, meu pirão primeiro. A farinha do espaço que o feminismo ocupa nas discussões nacionais é pouca. O pirão que primeiro fica pronto é o da mulher branca e essa realidade provoca contestação. A forma como a contestação é articulada são outros quinhentos, mas o texto da menina é, essencialmente, questionador.


Eu não endosso a leitura que a menina fez da canção ou do vídeo e, inclusive, gostei muito do resultado. Eu leio os versos dessa canção como uma oração, algo pelo qual você anseia e, por isso, pede, mas que não é necessariamente a realidade de todas. Como quando a gente diz para uma pessoa querida que está enfrentando um problema grave: vai ficar tudo bem. Vai mesmo? Não sabemos. E muitas vezes as probabilidades apontam justamente em direção contrária. Ainda assim, dizemos: vai ficar tudo bem. I’m a survivor. A canção tem muitos versos e eu não vejo como adequada a adoção da literalidade, porque dentre os tantos versos há um no qual se afirma que ela vendeu nove milhões de discos e, gente, só a Beyoncé, né. Não endosso. Mas muito entendo o sentimento por trás da questão.

Desqualificar o posicionamento e a contribuição que algumas mulheres famosas voluntariamente dão ao movimento feminista pode não ser a melhor tática de fortalecimento para obtenção de conquistas reais para todas. Contudo, afirmar que “você, mulher branca, não fala em meu nome, você não me representa, as questões que te afligem me afligem também, mas as que eu enfrento sendo negra você nem faz ideia”, é absolutamente legítimo. Se há ira é porque há muita agressão. Se a mulher que é ouvida é apenas a mulher branca, isso não fortalece a mulher negra. Eu não sofro essas agressões na mesma intensidade que a maioria, mas eu consigo me identificar e acho que eu carregaria muita revolta comigo se eu sofresse as merdas que a maioria das mulheres negras sofrem. Sem sofrer diretamente algumas coisas eu já fico puta da vida quando vejo a vida como ela é. Eu sou mais adepta da porrada também porque é de fato uma guerra e as mulheres negras estão do lado mais fraco. 

Então, assim, deixem as mulheres negras se incomodarem com o que elas quiserem. E se posicionarem. E escreverem na internet. Mesmo que aquela fala te pareça equivocada. Mesmo que não seja compreensível. Especialmente se você não concordar. Não é sobre você. É sobre nós.

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Leandro Faria  
Suzana. 35 anos. Mulher. Negra.
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