domingo, 29 de novembro de 2015

O Ano Em Que Me Apaixonei Pelo Não




2015 começou meio engraçado. Vou poupá-los dos detalhes sórdidos (até porque eu não lembro deles), mas minha virada envolveu muito glitter, areia, vômito roxo, nudez em suas formas acidental e proposital. Ou seja. Não acredito em presságios, mas, caso acreditasse, diria que esse foi um. GRANDÃO. Tive um ano bagunçado, difícil, confuso. Cheio de descobertas tão dolorosas quanto necessárias, de rupturas externas e conflitos internos, de muito desgaste emocional. Foi o ano em que abracei minha personalidade introspectiva, em que dei tchau pra gente que eu achava que nunca iria embora, em que gastei mais horas do que poderia contar escrevendo textão no Facebook, desconstruindo discursos e perdendo amigos no processo. Foi um ano bastante solitário em alguns sentidos, o primeiro desde os 17 que passei sem nenhum envolvimento amoroso, com poucas noites de sábado vomitando vodca com Red Bull nos canteiros do meu condomínio e muitas maratonas de documentários tristes e fantasias sujas com o John Oliver. Foi um ano em que reavaliei muitas verdades que acreditava conhecer sobre mim mesma. Foi um ano em que comprei muita briga. Mas a descoberta mais importante de todas foi a que talvez a que tenha motivado as outras. 2015, esse safadinho cheio de surpresas, foi o ano em que descobri o poder transformador do NÃO.

É engraçado como aprendemos a demonizar essa palavra. O quanto condenamos a "negatividade" das pessoas, o quanto glorificamos pessoas que ~topam desafios e ~se abrem para as experiências, o número de mensagens motivacionais no Instagram que nos encorajam a viver o momento, a expandir os horizontes, CARPE DIEM tatuado em nucas ao redor do mundo. No trabalho, ser uma YES PERSON é praticamente pré-requisito. Não importa se você é inteligente, competente, empenhado. Impor limites é mau negócio. Sim, eu posso ficar até mais tarde! Sim, eu aceito essas suas ordens que vão completamente contra os meus princípios! Mais um comando arbitrário sem nenhum motivo de ser de uma pessoa marginalmente qualificada? SIM, POR FAVOR, ME VÊ DOIS! Nos relacionamentos, o SIM ganha ares de inevitabilidade - afinal, é a palavra que define o tal do "compromisso". Tá ruim? Tá doendo? Tá incomodando? Ah, faz parte! Relacionamento TEM QUE ser assim! CLARO que eu adoraria passar um dia com seus amigos que eu detesto! ÓBVIO que eu estou super de boa com fazer todas essas coisas que eu não gosto no meu dia de folga! E por favor, não consigo pensar em nada melhor para fazer nessa quarta do que assistir a um filme conceitual que eu pra falar a verdade nem entendo! A existência social é um poço de SIM compulsório. SIM, eu vou pra esse almoço chato com a família que mal conheço para ouvir piadas sobre a Dilma! CLARO que eu topo gastar muito dinheiro num vestido para ir num casamento de gente que mal conheço e beber whisky barato! Por favor, sim, pode embrulhar um pouco dessa torta de climão para levar pra viagem? O quanto da nossa vida a gente passa dizendo sim pelo simples medo de parecermos rudes, chatos, rabugentos ou, pior ainda, NEGATIVOS. Quem quer estar perto de uma pessoa ~pra baixo, não é mesmo?

Isso é um problema universal, mas acho que podemos concordar que a experiência feminina é particularmente assombrada pela expectativa do SIM. Eu, por exemplo, aprendi desde cedo que, sempre que quiser algo de um homem, seja bom atendimento no restaurante ou uma corrida de táxi mais agradável, o melhor a fazer é sorrir - afinal, é a manifestação física do sim. Aprendi que se estou numa festa com umas amigas e um cara vem falar perto demais e insistir em me dar um beijo, mesmo após duas ou três recusas, eu tenho que sorrir e dar uma desculpa. Afinal, é rude dizer NÃO, NÃO QUERO FICAR COM VOCÊ. Tem que ter um motivo, afinal é realmente muito estranho que você simplesmente não queira interagir com qualquer pessoa que te dê atenção. A gente pede desculpa antes, durante e depois de qualquer interação social. A gente faz coisas que não quer, frequenta lugares que não gosta e convive com gente que não acrescenta para "não ofender". Seguir suas vontades é comportamento digno do mais abominável dos primatas. Imagine um mundo no qual você declina um convite simplesmente porque não está a fim de ir? Oh, a desordem! O caos! O pânico! Que desanimador pensar no tempo que a gente perde entediado, incomodado ou francamente infeliz por conta de etiqueta. É claro que educação é uma coisa, não custa nada ser agradável com pessoas que não estão te fazendo mal algum; também é sempre bom esclarecer que quando eu falo em "vontades" me refiro a experiências internas, e não impulsos que possam machucar os outros. Mas parece que impor limites não está no nosso currículo. Se eu juntasse toda a energia que gastei nessa vida engolindo sapo para evitar climão, provavelmente conseguiria iluminar um pequeno vilarejo durante o Natal. 

Mas aí eu cansei. Já vinha cansando, é verdade, mas foi neste ano que a minha birra com a obediência institucionalizada começou a ganhar a forma. Graças a uma pá de coisas. Graças ao período de solidão compulsória iniciado, como tantas coisas bonitas que a gente vê por aí, por um coração partido. Graças a mulheres como Roxane, Amy, Tina, Lena, Mindy e Maya, que me ajudaram a visualizar meus sentimentos em palavras. Graças a uma virada feminista que as redes sociais estão FELIZMENTE ajudando a organizar e expandir. Graças a uma recém-descoberta identificação com tantas mulheres que, há alguns anos eu veria como competição, eu aprendi a dizer não. A dizer não pra amizades tóxicas, para comportamento abusivo, para ordem de chefe, para piada ruim, para pedido mala, para convite desagradável, pra comentários não-requisitados sobre minha aparência ou hábitos. Assim como abracei minha introvertida interior, e os vários sábados de Netflix que vieram com ela, abracei minha bitch interior. E ela aparentemente gosta muito de passar fins de semana deitada na cama vendo tutoriais de maquiagem e dando corridas na Lagoa. Aos poucos, fui perdendo o medo de soar escrota. Vi meu círculo social diminuindo exponencialmente, um possível amigo a menos a cada "não pedi sua opinião" (e foram vários). Vi minha vida sexual, outrora razoavelmente movimentada, atingindo níveis borderline Cantareira, resultado de dar ouvidos aos NÃOs que meu cérebro sempre me falou mas que minha vagina (Liv para os íntimos) se recusava a escutar. Vi caras que antes admirava e respeitava ficarem pequenos e covardes, perplexos com os meus antes invisíveis NÃOs. 

Em 2015 eu saí menos, fiz menos amigos, bebi menos, dancei menos, não tive aumento, não me apaixonei e, para a infelicidade geral da nação, transei (muito) menos. Mas vi muitos filmes, li muitos livros, pensei muito, treinei muito, corri muito. Voltei a escrever. Fortaleci as poucas amizades que me restaram, e criei outras que me fazem pensar duas vezes antes de reclamar da vida. Tenho gente com quem eu verdadeiramente amo estar, que me aceita da minha forma mais pura e me faz gostar de ser como eu sou. Gastei menos dinheiro em boates chatas e mais com compras online maravilhosamente impulsivas, gastei cerca de 70% menos de energia nutrindo conversas vazias em situações sociais constrangedoras e, graças a minha recém-conquistada fama de "patrulheira do politicamente correto", reduzi drasticamente o número de piadas preconceituosas ouvidas num dia regular. Virei a chata que por anos tive absoluto pânico de me tornar. E nunca me senti mais eu. Quem diria que NÃO, essa palavra tão feia, viria tão cheia de liberdade? Gostaria de ter aprendido ela antes.

Em 2016 eu pretendo impor mais limites. Ser mais chata. Comprar mais briga. Ser uma expressão cada vez mais verdadeira de mim mesma. Respeitar as minhas vontades, desde que elas não machuquem os outros. Pedir menos desculpas, ou pelo menos as automáticas. Me permitir menos simpatia com quem não a merece. Nas palavras da maravilhosa Amy Poehler: 
"Uma mulher leva anos para desaprender as coisas pelas quais ela acha que tem de se desculpar."
Eu, particularmente, já desaprendi muito em 2015. E, se tudo correr como o esperado, aguardo um 2016 riquíssimo em desaprendizados. 
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Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso, escrevendo sempre no último domingo do mês como convidada aqui no Barba Feita.
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