domingo, 8 de novembro de 2015

Os Direitos das Minorias





Outro dia entrei num suave embate com um colega de colégio. Estudamos juntos desde o maternal até o segundo ano do ensino médio. Num colégio católico. Tenho certeza que em alguns anos ele foi meu par nas festinhas juninas, e minha memória garante que ele foi também meu par na primeira comunhão. Marchamos juntos na comemoração de 7 de setembro, rezamos juntos para agradecer a merenda no fim do recreio e presenciamos diversas vezes as freiras distribuindo sopa aos moradores de rua do entorno. Crescemos na mesma escola sob a ótica religiosa que nos deu – ou deveria ter dado – um pouco mais de sensibilidade nas questões do ser humano. No entanto, fico assustada de ver que ele e alguns outros amigos da mesma época parecem discordar um pouco sobre o que são direitos e o que é realidade. 

Ele, fervoroso defensor de qualquer coisa que incite a morte/prisão/extinção da presidente Dilma e qualquer outra espécie de esquerda, diariamente posta em seu Facebook coisas que visam difamar qualquer busca por igualdade de direitos no país. Sua justificativa, no entanto, é sempre baseada na Constituição que prima por “somos todos iguais perante a Lei”. E, se somos iguais, essa eterna luta da esquerda por direitos para as mulheres, para os LGBTs, para os negros e outras minorias, seria desnecessária. Ele inclusive bradou: não tenho preconceito com negros ou homossexuais, apenas acho que eles não devem ter mais direitos que eu por terem outra cor ou orientação sexual.

De fato, é uma questão para refletir. Diante de toda a luta diária que enfrentamos para conseguir terminar colégio, faculdade, ter um mínimo de lazer e cultura, possibilidade de se praticar um esporte e, o mais importante, saúde e comida, penso que realmente deve ser difícil ver alguém com mais direitos do que você, cidadão “de bem”, que paga seus impostos e contas em dia. Deve ter sido muito difícil, inclusive, o fardo de se estudar em um colégio particular, em uma universidade particular e ter feito inúmeras viagens para o exterior (já invejei muitas vezes as viagens dele para a Disney enquanto eu passava férias em Saquarema, quando estávamos na quarta série), além de ter carro, ser homem, branco e heterossexual. E ele ainda reclama que sofre preconceito com esse estereótipo de ser elite opressora. E não é? Talvez ele nem saiba, nem se dê conta de que mesmo tendo amigos negros ou homossexuais, tendo mãe e irmã, namorando uma menina, ele ainda faça parte da “elite opressora”. Ele acha que não faz, mesmo quando ele diz que talvez o Bolsonaro tenha razão nas coisas que diz. Mesmo até quando ele diz que a luta do feminismo e dos movimentos LGBTs quer, na verdade, colocar os humanos uns contra os outros. A simples questão dele não atear fogo num mendigo ou xingar um negro de “ladrão”, faz ele achar que todos temos os mesmos direitos, porque perante a Lei, somos todos iguais. Ele acha que esse tipo de luta faz com que as minorias sejam sempre vítimas. 

E foi assim que começamos nossa discussão. Eu respondi que a verdade é que as minorias são, de fato, vítimas. E que eu o desafiava a citar alguma minoria que não sofresse preconceito ou que tivesse direitos iguais ao padrão hetero-ariano-normativo. A tréplica foi: regredimos na questão dos direitos desde 500 anos atrás? E de 100? E de 50? Te desafio a me dizer uma minoria que perdeu direitos ao invés de progredir. Adoraria viver nesse mundo cor de rosa (ou, no caso dele, azul-machão) que as pessoas fantasiam. Imagina que lindo teria sido o progresso desde que os portugueses invadiram essa terra e colonizaram os índios (alô cidadania), onde as mulheres conquistaram seus direitos pacífica e naturalmente, e agora possuem os mesmos cargos e salários do que os homens, assim como os negros que, ao cansarem da escravidão, resolveram que era hora de brincar de outra coisa. Sobre s gays nem se fala, grandes progressos foram feitos desde que deixaram de morrer porque era um direito matá-los, para morrerem e ser apenas mais um crime. Fantástica essa reflexão, não? 

Obviamente não regredimos nos direitos. Graças às tantas e tantas lutas de minorias que tentaram fazer valer essa máxima da constituição. Graças aos líderes de todos os movimentos que abriram mão de suas vidas (ou perderam também esse direito) para garantir, ao menos, o mínimo que temos hoje. Eu nunca fui impedida de entrar num restaurante por ser branca, nem mesmo as pessoas atravessaram a rua quando cruzaram comigo na madrugada, por medo. Eu também não precisei de cotas para cursar uma universidade. Mas já fui xingada por ser gay. Já fui assediada por ser mulher. Já sofri, inclusive, assédio moral no âmbito profissional – veja bem – por não ter o glorioso pênis, conquistador dos sete mares. Já ouvi de um chefe, homem, misógino e preconceituoso, que uma colega de trabalho não servia para o cargo (o qual ela desempenhava muito bem) por ser feia. Evidente que ele só falou isso para um grupinho seleto de homens que caíram na gargalhada. Há menos de um mês, uma cliente se recusou a ser atendida por um vendedor negro, xingando-o ininterruptamente. E a escolta policial foi para ela sair do shopping, e não para proteger o rapaz. Esse tipo de atitude em 2015 me faz questionar, além da capacidade da maldade humana, o que de fato as pessoas esperam de seus semelhantes. Se o negro está na rua assaltando, é porque quis. Afinal, ele tinha escolha (insira aqui seu repúdio a essa afirmação nojenta e elitista). Se o negro está dentro de uma loja trabalhando, é desrespeito com a senhora branca e elitizada que se acha melhor do que ele. Vocês querem mandar todos de volta pra África e construírem uma Noruega tropical aqui? Somos todos iguais, mas dentro de quatro paredes, sem ninguém vendo. Porque homem beijando homem é ofensivo. Ainda que mulher beijando mulher seja sexy (se forem, obviamente, duas mulheres que atendam os padrões de “gostosa”). 

A igualdade de direitos é tão grande, que é mais fácil eu adotar uma criança como mãe solteira, do que com uma parceira. Em ambos os casos, eu não formo uma família. E se eu casar (o que conseguimos o reconhecimento do Estado tão recentemente que chega a ser vergonhoso), minha esposa não usufruirá dos benefícios que deviam ser seu direito, tal qual terá a esposa desse meu colega, se ele vier a casar. É desmerecendo a luta de poucos que continuamos a classificar “minorias” e “maiorias”. É lindo o discurso de que “eu não preciso ser negro para ser contra o racismo, nem preciso ser gay para ser contra a homofobia”. Você não precisa mesmo, mas quando você apenas não é racista ou homofóbico, outras pessoas continuam sendo. E você se incomoda até onde dá. No fundo, não dói em você. Você não vai ser espancado na rua por estar de mão dadas com alguém do mesmo sexo. Você não vai ser o primeiro suspeito de furto num ônibus cheio. Você não vai ter que se preocupar com o tamanho do seu vestido para não incitar estupro. Você, meu caro colega de colégio, não vai sofrer um estupro na sua vida. Nem vai correr risco de vida se optar por fazer um aborto clandestino. Você diminui a luta de nós, mulheres, que corremos esse risco todo dia. Você diminui a luta do negro que ainda é visto, pago e tratado como escravo em tantas esferas. Você diminui a luta dos gays que morrem todo dia quando concorda que existe um jeito tradicional de se ter família. Você me ofende como ser humano. 

Esse colega não é um só. Não é uma indireta. São várias indiretas. São várias cutucadas em todos aqueles que aceitam esse tipo de discurso e que acham que “para acabar com o racismo, basta não falar dele”. Precisamos falar sobre o racismo, sim. Sobre o feminismo. Sobre a luta LGBT. Sobre as minorias. Precisamos gritar junto com as minorias que nós vamos lutar juntos. Que vamos lutar todos os dias. Para que não nos contentemos em apenas não regredir. Temos que conquistar os direitos. Não mais que os seus, colega branco, homem, hétero e misógino. Apenas os mesmos. Para você deixar de ser a elite opressora, eu preciso deixar de ser uma vítima. Faça sua parte. Fecha a constituição e vem pra luta.

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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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