sábado, 21 de novembro de 2015

Pequena Reflexão Sobre as Palavras de Matheus




Essa semana, meu participante favorito do Master Chef Junior saiu do programa. Estou falando do fofézimo Matheus B., o Matheuzinho. Atrapalhado, guloso, emotivo, engraçado e com um par de bochechas impossível de não querer apertar, o menino de 11 anos é a personificação da fofura. Todos os participantes de Master Chef Jr são absurdamente encantadores, aliás, o reality culinári é um grande deleite, mas Matheus, francamente, é uma coisa.

Em sua eliminação, o pequeno Matheus deu um depoimento que me pôs a pensar. Ao despedir-se, ele afirmou que quer ser um grande cozinheiro, e que até já tinha combinado com alguns participantes de abrir um restaurante quando crescer. Então pensei, todos ali acalentam o mesmo sonho. São crianças com um talento especial para a cozinha, um talento que realmente impressiona. Mas quantas daquelas crianças realmente serão grandes chefs, assim como sonham hoje?

A gente cresce e a realidade bate à nossa porta, muitos sonhos ficam pelo caminho, porque a maturidade nos trás novos desejos e ambições ou porque sonhos nunca ultrapassarão o terreno da fantasia. Ganhar dinheiro, sobreviver, é muito mais urgente, e o que foi sonhado na infância tantas vezes torna-se impossível de suprir essa necessidade, a urgência de sobreviver.

Eu tinha dois anos a menos que o Matheus quando descobri minha grande vocação, que tornou-se um sonho distante, depois um desejo acalentado, hoje um objetivo batalhado, mas jamais foi sufocado, apesar de todas as drogas de emprego nos quais trabalhei. Sonhei, desejei, batalhei. Muitas vezes desacreditei na realização do meu sonho profissional. Hoje acredito nele e sinto que estou sempre a um passo de sua concretização, mas sei também o quanto é difícil alcançar esse primeiro passo. Ainda assim insisto. Amigos bem intencionados aconselham: faça algo que dê dinheiro, que você tenha um retorno rápido. Profissionalize-se em uma área que a colocação seja mais fácil, tipo TI, RH, ADM. Algo na área de Exatas. Humanas não dá dinheiro.

Minha resposta: Deus me livre!

Não desisto do meu sonho. Pode ser teimosia, romantismo, falta de visão de futuro, mas trabalhar em qualquer coisa na área de Exatas seria a morte em vida pra mim. O trabalho é a atividade com a qual se gasta a maior parte da vida, não lutar até onde se é capaz, com todas as forças, para fazer o que se ama é tão triste.

Também conformar-se que sonhos são só pra sonhar é deprimente. Meu pai sempre disse que queria ser advogado, mas nunca batalhou por isso. Foi vendedor a vida toda. O Direito era só um objeto de fantasia.

A crise me assusta. Tenho amigos talentosos e capacitados, que formaram-se na profissão sonhada, mas não a estão exercendo. Um deles é arquiteto, domina a profissão, fala três idiomas fluentemente, é de um nível cultural invejável e está desempregado há um ano e meio.

Tem também os que abriram mão de ser o que amavam, por uma profissão mais segura. O engenheiro mecânico que sonhava fazer cinema é ótimo profissional, mas vive entediado com o trabalho. A enfermeira que queria ser jornalista, mas conseguiu uma boa colocação na Europa e esqueceu o sonho de adolescência. O biólogo que queria ser ator. O micro-empresário que queria ser dentista. O cabeleireiro que cursou psicologia, mas teve que trancar. E por aí vai...

"Não é fácil ser coisa alguma, por isso tantos se omitem" é uma frase que gosto muito. Por isso, apesar do medo de não dar certo, de não chegar lá, não me omito. Luto com afinco, até a exaustão. Mesmo estando naquela idade onde as coisas já deveriam ter acontecido. Mesmo sentindo que as vezes tudo é em vão, quando estou a ponto de entregar o jogo, olho pra trás e vejo aquele menino de 9 anos que brincava, sem nem imaginar que aquela brincadeira, vinte e cinco anos depois, seria sua única escapatória para não se tornar a pessoa mais frustrada do mundo. É em nome dele, só por ele e por mais ninguém, que ainda procuro obstinadamente realizar este sonho.

E que o Matheuzinho também realize o dele, ainda que talvez ele mude com os anos e a maturidade. O meu não mudou, felizmente ou infelizmente, não sei, só o tempo dirá.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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2 comentários:

Aconteceu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aconteceu disse...

É tão complicado,exercer uma profissão de forma íntegra com o coração com dedicação,e no fundo você perceber que aquela profissão que faz você sair todos os dias de casa com alegria, não é o que realmente gostaria de estar fazendo.E a coragem para largar tudo e recomeçar?E as necessidades financeiras?O que é importante? Estabilidade ou realização? Mas o futuro....nos reserva grande surpresas...Parabéns pelo texto.......