sábado, 28 de novembro de 2015

Pergunta ao Tempo






Eu tinha sete pra oito anos quando ganhei o livro infantil O Fio Mágico. Era um livro bonito, super ilustrado, em formato brochura, que fazia parte da coleção Contos Populares da Velha Europa. Essa coleção não era de histórias bobinhas, traziam sempre lições importantes até para adultos, mas obviamente num formato mais leve, colorido, infantil enfim. Lembro que dessa coleção, ganhei até uma versão de Rei Lear, de Shakespeare, chamada Capote de Junco, linda por sinal. Mas a lição mais marcante, que me fez voltar às minhas histórias infantis quando pensei neste texto, foi mesmo O Fio Mágico.

A história, aparentemente simples, me serve hoje de exemplo de uma forma absurda. O protagonista era João. Ou seria Pedro? Não lembro com clareza. Vamos chamá-lo de João. Um menino de 10 anos. Tinha ânsia que o tempo passasse rápido. Queria crescer logo. Virar adolescente, depois adulto, namorar, casar. Estava sempre insatisfeito com o momento e a fase em que vivia. Um dia desejou com tanta força que o tempo passasse rápido para crescer e fazer coisas que acreditava ser mais interessantes do que a vida de criança que, de repente, topou pelo caminho em que andava devaneando com uma velha senhora, que ao ser ajudada por ele, concedeu-lhe, como agradecimento, um pedido de algo que desejasse muito.

João contou-lhe que o que mais queria na vida era crescer logo. Queria que o tempo passasse mais rápido. Diante do desejo do menino, a velha senhora entrega-lhe de presente uma bola de prata, do tamanho de uma bolinha de ping-pong, com um pequeno orifício, de onde saía um fio de ouro. Orientando-o para que usasse a bola de prata da melhor maneira possível, com cautela e sabedoria, a velha explicou que o fio de ouro era mágico, e que a cada vez que João quisesse que o tempo passasse mais depressa, bastava dar um pequeno puxão nele. Também disse que não exagerasse, pois o tempo que passava a cada puxada do fio mágico não voltaria mais, estaria perdido para sempre no tempo, por isso era importante e necessário que ele aproveitasse ao máximo cada momento da vida, sem pressa.

Obviamente João fez merda, e acabou gastando todo seu tempo de vida de forma imprudente, puxando o fio mágico a todo o momento, a cada pequena chateação ou problema do qual queria se livrar, e vivendo uma vida ligeira e vazia, sem saborear de fato, sua existência.

Quando eu tinha sete anos, achei essa fábula bonitinha e triste. Hoje, a moral da história dialoga comigo de maneira sublime. Nunca fui uma pessoa com pressa de viver. Nunca quis que o tempo passasse ligeiro. Nunca fui de colocar o carro na frente dos bois. Comigo tudo aconteceu no seu devido tempo. Acho até que algumas coisas demoraram demais. O fato é que sempre tive desejos que gritavam dentro de mim. Ainda os tenho, muitos. Mas sempre soube e sei que se concretizariam no momento certo.

O que me mortifica é que mesmo vivendo a vida em ritmo de valsa, sem pressa, o tempo anda ligeiro e implacável. A vida tá passando rápido demais, no ritmo de um frevo enlouquecido. Isso me assusta, porque mesmo tentando levar a vida lentamente, no sentido de vivê-la devagar, sem urgências desnecessárias, o tempo está passando como um carro desgovernado, atropelando tudo.

Parece que foi ontem, eu tinha 12 anos e descobria que meu tio de 18, com o qual eu tinha mais afinidade, era gay, e isso nos tornava mais unidos. Finalmente uma referência pra vida e, o melhor, dentro da própria família. Sábado passado estive em seu aniversário de 40 anos. Relembramos tanta coisa e refletimos, claro, na passagem silenciosa e estupidamente apressada do tempo. Estamos ficando velhos. Não pude deixar de pensar que daqui há seis anos sou eu o quarentão. E não tenho dúvidas que os 40 chegarão mais depressa que os 35. O jeito é torcer pra que os próximos anos passem mais lentos e sejam compensadores.

Fico louco, p* da vida, quando vejo o povo reclamando de que os meses estão muito longos, demorando a passar, ou torcendo pra que a semana acabe logo. Infeliz, o tempo já está passando rápido o suficiente, e você junto com ele! Curta todos os meses e dias da semana, mesmo que estejam uma merda. Uma hora acaba e eles nunca mais voltarão, nem os ruins, nem os bons. Então, viva todos intensamente e largue de ser mané.

Eu mesmo ando absorvido por esse 2015 e ansioso pelo 2016. Tenho me sentido num limbo. Foi um ano difícil, que parece estar sendo comprido, mas é só impressão. Como todos os anos anteriores, esse passou mais rápido ainda. É sempre assim, o ano substituto acaba mais depressa que seu antecessor. E me pego torcendo, em alguns momentos, pra botar meu pezinho logo em janeiro. Aquela velha ilusão da renovação e blá blá blá. Não adianta, acontece sempre, somos feitos de esperança. Mas me reprimo ao desejar que o tempo escoe ainda mais depressa.

E nessa loucura que é a passagem dos anos, da vida e do tempo, só me resta uma prece, uma oração ao tempo, transformada em música por Caetano Veloso. Apenas um trecho para o que desejo:

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Faço um acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Faz um acordo comigo?

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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