segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Shonda Rhimes e a Representatividade na Televisão Americana





Há muito se fala sobre a Era de Ouro da televisão americana. O veículo, que por tanto tempo foi menosprezado como uma forma de cultura menor, se reinventou e hoje, certamente, apresenta produções tão ou mais valorizadas que o próprio cinema. Por isso, não é de se espantar que nomes antes voltados exclusivamente à sétima arte venham se aventurando pela telinha, com resultados dos mais diversos. A televisão americana é hoje, sem dúvidas, um solo fértil para boa produções chegarem ao grande público.

E se no Brasil ainda temos muito que aprender sobre representatividade na televisão, com casos específicos chocando o público menos conservador, que não consegue acreditar que um beijo entre duas atrizes idosas possa naufragar uma novela, por exemplo, na televisão americana essas questões parecem superadas. O primeiro beijo gay em uma série americana aconteceu no já distante ano de 2003, no episódio final de Dawson's Creek, uma das minhas séries queridinhas de todos os tempos. De lá pra cá, as séries americanas apenas cresceram em roteiro e conceito, e questões como beijo gay e, principalmente, sexualidade, foram tratadas com honestidade e bom senso.

E falar dos avanços da televisão americana sem citar o nome de Shonda Rhimes, atualmente a mecenas do horário nobre dos EUA, é praticamente impossível. Mulher, negra e gay, Shonda Rhimes é a showrunner de três das séries mais comentadas no momento, sendo inclusive a única showrunner americana a ter um dia exclusivo para a exibição de suas produções na TV americana, as quintas-feiras, na rede de televisão ABC, que ganharam até mesmo a hastag mundial #TGIT (abreviação de Thanks God It's Thursday).

Claro que esse sucesso não começou de uma hora para outra e teve início com a exibição de Grey's Anatomy, o primeiro sucesso de Shonda, que estreou em 2005. Atualmente em sua décima segunda temporada, Grey's apresentou logo de cara uma história empolgante, centrada na vida de cinco jovens residentes em cirurgia em um hospital de Seattle. Entretanto, em Grey's Anatomy foram sempre as mulheres as figuras fortes do enredo. Meredity Grey, Izzie Stevens e Cristina Yang eram quem puxavam a história com seus dramas, mas sem deixarem de ser mulheres fortes. E já víamos ali a diversidade que Shonda apresentaria em suas séries futuras. Cristina Yang tem ascendência oriental, e Bailey, uma das melhores cirurgiãs gerais do hospital, e o chief Webber são negros e influentes. Além disso, a homossexualidade sempre foi tratada de maneira natural e orgânica na série, mas a partir do momento em que a personagem Callie Torres se descobriu bissexual, ela passou a fazer parte da história de Grey's. E são 10 anos de sucesso para provar que a autora sabe o que faz.

Mas foi em Scandal, que estreou em 2012, que Shonda Rhimes mostrou aquilo que sempre quis, ao colocar sua protagonista, Olivia Pope, como uma mulher forte, negra, e uma das pessoas que davam as cartas no meio político de Washington. Olívia é linda, influente e vive um grande dilema em sua vida, já que vive um romance proibido com o presidente (casado) dos EUA (que tem um chefe de gabinete gay). E a trama política, calcada em muitos casos puxados da realidade, sempre dá visibilidade a questões importantes e que precisam ser discutidas pela sociedade. Em seu quinto ano e mostrando fôlego (sério, a temporada atual está incrível!), Scandal mostrou que uma protagonista feminina negra poderia agradar e conquistar o público.

Até que em 2014 estreou o último sucesso da ShondaLand, a produtora de Shonda Rhimes. E foi uma estreia arrasadora. Protagonizada pela oscarizada Viola Davis, na série How To Get Away With Murder (ou HTGAWM, pra facilitar) Shonda novamente escalou uma protagonista negra, de personalidade forte e caráter dúbio. Annalise Kingdon é uma advogada criminalista, professora universitária, que dá à sua matéria o nome da série. Mas, quando um crime acontece dentro de sua casa, com um grupo de seus alunos envolvidos (que conta com dois negros e um jovem gay), somos mergulhados nas teias de Annalise e em uma história vibrante, que nos prende desde o piloto, mas que apenas cresce a cada episódio. Atualmente em sua segunda temporada, HTGAWM é obrigatória.

Verdadeira produtora de sucessos, Shonda Rhimes deve ser reverenciada por Ellen Pompeo (Meredith Grey), Kerry Washington (Olivia Pope) e Viola Davis (Annalise Kingdom) por suas escalações como protagonistas de Grey's Anatomy, Scandal e HTGAWM, respectivamente. A carreira das atrizes ascendeu depois que passaram a protagonizar as séries de Shonda, colocando-as em evidência. Prova disso foi o Emmy de Melhor Atriz, o prêmio máximo da televisão americana, que Viola Davis ganhou nesse ano pelo seu papel em HTGAWM. Ela foi a primeira atriz negra a ganhar o prêmio e a importância de Shonda para que isso acontecesse é inegável, haja vista o emocionante discurso da atriz, principalmente a parte que transcrevo abaixo:
"...a única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papeis que simplesmente não existem."
Com uma criatividade admirável e ciente de seu papel na sociedade americana (e, porque não, mundial), Shonda Rhimes vem escrevendo seu nome na história da televisão. E faz isso com talento inegável e pregando sempre a representatividade, a diversidade e a tolerância.

Salve Shonda Rhimes e seu maravilhoso mundo de personagens quase reais e maravilhosos!

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Silvio Santos disse...

Leandro querido, adorei o post apenas faltou um alerta de spoiler, eu não sabia por exemplo da Torres, já que estou começando a assistir.

Shonda é diva