sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Sobre Cotidianos (e Sobre Patrick 1,5)




Göran e Sven são apaixonados e felizes, formam o chamado casal perfeito. Eles acabam de se mudar para uma casa nova, num subúrbio sueco onde tudo parece um comercial de margarina visto de longe, e até que são bem aceitos por alguns vizinhos, apesar das brincadeiras tolas de algumas crianças que insistem em quebrar-lhes a caixa do correio e os insultar. Os dois sonham em adotar uma criança e, depois de um tempo na fila de espera da adoção, os rapazes ficam felizes e ansiosos com a chegada de um bebê de pouco mais de um ano. Mas eis que para o espanto deles, recebem em casa um adolescente de 15 anos que é ainda por cima um delinquente que acha que todos os gays são pedófilos! Para a infelicidade do casal, são obrigados pelo governo a ficar com a guarda do jovem até que as coisas se acertem, mas descobrem da pior maneira que nem tudo era tão perfeito em suas vidas como eles mesmos acreditavam.

Eu já escrevi sobre este filme outras vezes, sua história é repleta de grandes momentos e, por mais que pareça previsível, eu sempre penso como muitas pessoas gostariam de ter uma vida assim, simples. Não basta muito. São apenas coisas que podem parecer bem banais, mas no fundo são essenciais quando se pretende viver em comunidade.

Claro que não deve ser uma regra. Nada na vida devia ser uma regra. Você apenas escolhe o que deve ser melhor para você e isto não deveria ser imposto. Querer ter uma casa no campo, discos e livros e nada mais, não desmerece quem deseja uma cobertura nos Jardins. São sonhos e sonhos não se medem, nem desmedem. Não existe um sonho maior ou menor que o outro. A felicidade de cada pessoa é de cada pessoa. Se alguém acredita que dentro de um carro importado com ar condicionado é mais feliz que aquele que anda num ônibus lotado, então o problema não está em quem anda no ônibus, todavia o mundo em que vivemos parece querer delimitar isso. Se você não tem dinheiro não serve para fazer parte de uma determinada camada da população, é um pária.

Eis que talvez o problema esteja aí, essa intolerância, esse descontrole, essa vontade de viver apenas pelo que se aparenta tem deixado o mundo cada dia mais enlouquecido. Esse mundo onde todos devem ser iguais, todos devem partilhar dos mesmos desejos, não me alegra em nada. Então, se não gosta de futebol e não tem religião, tem problemas; não tem dinheiro para tomar um café com as amigas, tem problemas; não tem um smartphone novo, tem problemas. Não faz sexo, tem sérios problemas. E se quando faz é com o mesmo sexo, então além de todos os problemas que possa vir a ter, ainda está doente precisando ser curado.

Patrik 1,5 é um filme que soube priorizar tanto o silêncio de suas personagens, quanto os momentos de humor, mas que não tem medo de colocar o dedo na ferida. Muitos imaginam que em países extremamente desenvolvidos como a Suécia as pessoas são mais tolerantes, mas preconceito é preconceito e pronto, e todos querem ser aceitos como são. A vida no subúrbio pode ser igual em qualquer lugar, cheia de pessoas imbecis que se preocupam mais com a vida dos outros do que com as suas. É interessante que o roteiro soube apontar bem isso ao mostrar os tolos vizinhos de Göran e Sven, que escondem suas verdadeiras idiossincrasias por trás de suas lindas casas. 

A vida está aí para ser vivida, só se vive uma vez, então vamos aproveitá-la com o que nos foi oferecido, e mudar aquilo que nos incomoda. Se está ruim, então mude, não fique esperando que vai mudar se não fizer nada com a bunda sentada na frente do computador. Para fazer qualquer coisa, basta apenas começar. Göran e Sven queriam uma vida simples, prosaica, tiveram que enfrentar alguns percalços pelo caminho, mas isso também faz parte. A mesma coisa para quem deseja uma vida repleta de ostentações. Se assim você será feliz, então viva isso, mas para qualquer tipo de vida nunca ache que a sua é melhor que a do outro. Como eu disse antes, nada deve ser regra. 

E no fundo, ser diferente é que é legal, vamos brincar de respeitar isso.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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