sábado, 7 de novembro de 2015

Um Encontro Especial





Olga Feld embrulhava a última xícara de porcelana, guardando-a com cuidado na caixa de louças, que deixou para ser levada por último no carreto de mudanças, com receio de que as quebrassem. Já tinha perdido tudo que lhe era de mais precioso na vida; seus objetos de estimação e as lembranças eram tudo o que restava. 

Num período de 15 meses, havia perdido o único filho e o marido. Com a morte do companheiro de mais de 40 anos, a casa tinha ficado grande demais para Olga e sua imensurável solidão. Três meses após a morte de seu amado George, Olga mudava-se de seu antigo casarão afastado da movimentação da cidade, para um modesto e confortável apartamento no centro. Talvez a agitação nos arredores da nova residência espantasse a tristeza e a saudade pela ausência do cônjuge que já não estaria mais ao seu lado.

Só que a dor que Olga carregava no peito, juntamente à seu semblante amargurado, era muito maior e mais profunda do que o fato de encontrar-se agora viúva e solitária. A perda do marido servia apenas para agravar o pesar pela perda do filho e aumentar a culpa e o remorso que sentia por não ter se reconciliado com ele antes de sua prematura e definitiva partida.

Pouco antes do filho vir a falecer, ela já pensava em fazer as pazes com ele. Procurá-lo e aparar as arestas de uma relação que sempre fora possessiva e dominadora, como toda a relação entre pais e filhos judeus ortodoxos. Mas o marido, radical e inflexível, jamais aceitou uma reaproximação com o filho ingrato, que abriu mão de seguir os preceitos da religião. E, a fim de não gerar mais atritos, Olga voltava atrás na decisão de procurar pelo filho, que ela nunca mais soube onde estava desde que saiu de casa. 

Agora, sem o marido ao lado, ela estaria livre pra procurar pelo filho, envolvê-lo em seus braços com força e dizer que o amava e o aceitava incondicionalmente. Mas isso já não era mais possível e, por isso, amaldiçoava a infeliz e terrível ironia de filhos morrerem antes de seus pais. Por incontáveis vezes sentiu-se uma mulher má, tão radical e inflexível quanto o marido, desamorosa, insensível, e era inevitável pensar que agora estava sendo punida por isso, sem George e sem seu filho adorado. A solidão era seu castigo.

Os dias se passavam regados a música judaica, leituras da torá, chás e orações. De vez em quando, quando sentia que estava prestes a desfalecer de tristeza, Olga fazia uma rápida caminhada aos arredores de seu prédio em dias ensolarados e, nesses raros momentos, parava e olhava pro céu durante longos minutos, amenizando a saudade ao imaginar que pai e filho estariam agora juntos e reconciliados, caminhando por nuvens brancas e fofas, olhando por ela e protegendo-a lá de cima.

A vizinhança do prédio era simpática, algumas senhoras até tinham tentado inserí-la em suas atividades semanais como a feitura de artesanato nas terças, o jogo de cartas às quintas e as manhãs na piscina às sextas; mas Olga havia recusado todos os convites, ainda não se sentia disposta ao convívio social, mal conseguia ir até a sinagoga, sem George não tinha a mesma graça. Evitava trocar muitas palavras com quem quer que fosse, apenas o estritamente necessário. Era fechada e passava a impressão de sisuda e antipática aos outros moradores, do porteiro à síndica.

Mas um dia, voltando das compras, na entrada do prédio, Olga deparou-se com Adriano. Jovem alto, atlético, moreno de cabelos curtos e negros, passou por ela apressadamente com os braços carregados de livros, cadernos e papéis e, ao correr para tentar pegar o elevador, deixou cair um calhamaço. Puxando seu carrinho de compras, Olga abaixou-se para recolher o que pareciam ser apostilas e gritou pelo bonito rapaz. Adriano, que mal havia percebido Olga, voltou-se. Sorriu. Pediu desculpas pela distração e agradeceu, oferecendo-se para ajudá-la com as compras. Ela admirou-se com a simpatia e educação do rapaz que parecia fora de órbita quando passou por ela, tamanha era sua pressa.

No elevador, Adriano perguntou se Olga era moradora nova - no que ela assentiu - e explicou que estava correndo porque tinha o aniversário de uma amiga pra comparecer e ainda precisava voltar a tempo de corrigir as dezenas de provas que carregava nos braços. Ele era professor universitário e antigo morador do prédio, no qual comprou um apartamento assim que se casou há mais de 5 anos. O elevador parou e eles descobriram que moravam no mesmo andar, um de frente pro outro. Adriano sorriu, simpatizando com a coincidência, e foi em direção a seu apartamento, prometendo a Olga que quando estivesse mais tranquilo a convidaria para um café de boas-vindas. Olga agradeceu, demonstrando pela primeira vez interesse e boa vontade com um vizinho.

O que fez a velha viúva judia, solitária e amargurada, corresponder à simpatia de Adriano, era o fato de ele suscitar em sua memória já desgastada lembranças do filho morto. Os dois regulavam em idade, eram altos, fortes, bonitos e o mesmo jeito meigo, embora seu filho fosse mais claro, quase loiro. Olga sentiu-se renovada ao passar aqueles poucos instantes ao lado de Adriano no elevador, era como se uma nova razão pra continuar vivendo acabasse de se abrir pra ela. De repente, sentia-se mais disposta. Arrumou as compras na cozinha, distribuindo-as nos armários e na geladeira. E preparou um bolo que era sua especialidade, um bolo de mel, o preferido do filho.

Adriano encontrava-se na cozinha, recostado à pia, de pijama, sorvendo uma xícara de café e observando os primeiros raios da manhã entrarem pela janela, quando ouviu a campainha. Tinha acabado de acordar e não imaginava quem podia ser àquela hora. Ficou enternecido com o gesto carinhoso de Olga ao lhe entregar um pote com um generoso pedaço de seu bolo de mel. Convidou-a à entrar, pedindo desculpas pelas vestes, e lhe serviu uma xícara de café. Também cortou duas fatias do bolo, para si e para ela. Sentaram-se no aconchegante sofá cinza e conversaram.

Durante a conversa, Olga não sentiu-se à vontade para falar do filho, apenas contou que era uma viúva recente e estava tentando refazer sua vida no novo lar. Adriano também não lhe revelou toda a verdade sobre si. Disse que também era viúvo, que havia perdido a esposa a pouco mais de um ano, e estava tentando superar a perda e, embora a cada dia a ferida aberta da morte do ser amado cicatrizasse um pouco mais, tinha momentos de solidão e falta que eram insuportáveis. Olga entendia perfeitamente, mas acreditava que por ele ser jovem, sua situação era bem mais dolorosa que a dela. Devia ser excruciantemente difícil perder uma jovem e apaixonada mulher, no auge, cheia de vida e de planos. Adriano só não conseguiu contar que sua esposa na verdade, não era esposa, mas marido.

Sempre foi seguro de sua sexualidade e nunca teve problema em assumir-se pra ninguém, mas aquele ainda não parecia o momento para todas as revelações. Olga já era uma senhora de idade e, apesar de amável, poderia ficar chocada, e ainda parecia tão frágil com toda a situação pela qual passava. Não havia necessidade de lhe enfiar goela abaixo, logo de cara, suas preferências sexuais. Parecia uma senhora bastante tradicional, e não queria causar mal-estares em uma relação que acabara de começar. Tinha gostado muito de Olga e queria conversar mais vezes com ela, fazê-la sentir-se menos solitária.

Olga e Adriano tornaram-se bons vizinhos. E depois que Olga contou a Adriano sobre o filho Nathan, que foi expulso de casa porque decidiu assumir e viver sua homossexualidade, eles tornaram-se grandes amigos, confidentes. Mas quando Adriano finalmente confessou que era gay, alguns meses depois, e que o nome de seu falecido marido, com quem viveu e amou profundamente por 6 anos, era Nathan Feld, os dois se tornaram mãe e filho.

Olga não conseguiu conter a emoção. Chorou, sorriu, agradeceu aos céus por lhe dar uma segunda chance de ser mãe. Para ela, Adriano era um presente de Deus, a confirmação de que Ele não queria mais castigá-la, de que a havia perdoado por ter sido mãe intransigente e incompreensiva. Ela só não entendia porque Adriano havia demorado tanto pra lhe contar a verdade.

Ele explicou que soube quem ela era desde o momento que lhe presenteou com um pedaço de bolo de mel, o bolo preferido de Nathan. Aquele que ele sempre preparava quando a saudade da mãe apertava mais forte, e que ela o ensinou a fazer quando tinha 10 anos, mas o dele nunca ficava igual ao dela. Ele sentia falta do bolo dela, preparado por ela. Mas quando ele comeu o bolo naquela manhã, não notou diferença alguma, era o mesmo bolo, o mesmo gosto de saudade, nostalgia, amor e melancolia. A mesma doçura intensa, típica do bolo judaico. E ele se segurou com todas as suas forças pra não desabar em lágrimas naquele momento. E quando teve certeza de seu amor, descobriu a hora certa de contar a verdade.

E os dois se abraçaram e choraram e riram e viveram felizes por se encontrarem e não estarem mais sozinhos.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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