quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

2015, Esse Incompreendido




2015 está chegando ao fim e me lembro que, exatamente um ano atrás, escrevia o quanto 2014 havia sido um ano especialíssimo para mim. E que o novo ano (agora, já velho) teria a árdua missão de substituir o anterior, cheio de coisas boas, para guardar na memória. Curioso que parece um consenso geral de que 2015 foi um ano ruim. Vemos memes e gifs de piadas sobre o quão difícil foi o período. Ainda assim, se você perguntar para alguém o que de tão ruim aconteceu, muitos falarão de crise, dinheiro e afins. Além das pequenas tragédias pessoais que um ou outro viveu, o que é natural em qualquer ano. Mas o que tornou 2015, então, esse incompreendido?

O Google faz a sua tradicional retrospectiva de todos os anos, com os assuntos mais procurados pela população mundial. Como costuma dizer uma colega de trabalho, especialista no meio digital, o Google hoje em dia é o vice de Deus. Costumamos perguntar mais coisas para ele do que os religiosos em suas preces. E o tema mais buscado em 2015 foram os atentados em Paris, somando os contra o Charlie Hebdo e os mais recentes, que envolveram diversos pontos na capital francesa e redondezas. Ok, esperada tamanha repercussão, ainda mais tendo em vista a influência que Paris tem para o mundo inteiro. Mas o segundo tema mais procurado foi... o Oscar.

Sério mesmo? Sério que diante da maior crise migratória desde a Diáspora, o Oscar foi mais interessante para o planeta? Mais de um milhão de imigrantes chegaram à União Europeia esse ano; tivemos crianças mortas afogadas estampando capas de jornais mundo afora e o tapete vermelho de Hollywood foi mais importante? Estamos em um momento em que nos encontramos mais próximos de uma Terceira Guerra Mundial desde o fim da Guerra Fria e isso não teve a sua devida importância? E o que falar da devastação causada pelo Boko Haram na Nigéria, muito maior do que a do EI na França?

Entendo que todas são notícias negativas e que o Oscar poderia ser um escapismo para ainda vivermos boas (ou fúteis) novidades em nosso prosaico dia-a-dia. Mas o que eu me pergunto é: não está faltando humanidade? Não seria justo entendermos essa crise migratória para sabermos qual o nosso papel para deixarmos um mundo melhor para as gerações futuras (já que pra nossa não sabemos se veremos grandes modificações)? Não seria importante estarmos a par do derramamento de sangue que os grupos extremistas têm feito, não pelo sangue em si, mas para nos solidarizarmos, mesmo que à distância, com aquelas vidas que partem?

Uma vez vi uma tirinha, na internet, sobre o ebola. Uma criança perguntava à mãe sobre o vírus, e ela respondia que não tinha o que se preocupar, porque era na África. E o pequeno devolvia que ele se importava, sim, porque não havia distâncias para a vida humana (ou algo parecido com isso). É mais ou menos assim que me sinto em relação a isso.

Creio que 2015 foi ruim porque vivemos muitas cifras, preocupados com um mau ano para a economia, e demos pouco valor às boas coisas que nos cercam. Soube de muita gente que perdeu o emprego ou que teve que fechar o seu negócio (ou ao menos quase). Mas também de pessoas que celebraram coisas felicíssimas, como casamentos com seus parceiros, nascimentos de filhos/sobrinhos/netos, novas grandes amizades, novos trabalhos, viagens incríveis, boas e inesquecíveis surpresas. Pode não ter sido assim para todos; mas assim é a velha e famigerada gangorra da vida: um dia o seu ano chega; num outro ele vai. Mas nunca ficamos no alto ou embaixo pra sempre.

Por isso, desejo um 2016 ainda mais intenso e cheio de boas novas. Que mais acostumados a essa crise, tenhamos mais perseverança e resiliência. E que façamos, cada um de nós, um belo ano novo em nossas vidas. 

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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