quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A Reta Final no Peru: O Maior Perrengue de Nossas Vidas (ou Caverna do Dragão)





Acordar de madrugada pela segunda vez seguida para cair na estrada às 5h. Essa foi a nossa sina naquela manhã fresca em Aguas Calientes. O plano seria caminhar até a Hidrelétrica, que ficava em Santa Teresa, e ir até Cusco, numa viagem que duraria, ao todo, cerca de 9 a 10 horas (teríamos que pegar um voo 12 horas depois, para Lima, logo teríamos uma margem ainda). Compramos nossas garrafas d’água, colocamos os mochilões nas costas e as mochilas de ataque nos ombros e começamos a caminhada que, segundo os locais, deveria durar umas 3 horas. Ao todo, eram ao menos 12 km andando pela linha do trem, o que significava caminhar sobre montes de pedras portuguesas soltas ou sobre dormentes.




Passamos por túneis sem qualquer iluminação e por pequenas pontes sobre os córregos que desaguavam no Rio Urubamba, onde tínhamos que nos equilibrar sobre os dormentes a alguns metros de altura, sem qualquer proteção. Até então, o medo de altura do Cristiano não havia se manifestado, o que só ocorreu quando encaramos uma grande ponte, sobre o rio, feita de metal (que estava levemente oxidada). Pelo menos essa tinha uma parte para pedestres e um guarda-corpo (que estavam enferrujados também...).

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Nesse caminho, num dos poucos momentos em que paramos, conhecemos dois franceses que acabaram nos acompanhando por todas as aventuras até o último dia da viagem e se tornaram nossos amigos: Sylvain e Sébastien. Eles queriam, assim como nós, chegar a Cusco. A ideia seria estar na Hidrelétrica o quanto antes e, quanto mais gente, mais fácil ficaria de fechar um transporte. Ainda assim, nos dividimos novamente e seguimos nossa caminhada a dois (na verdade, uma cachorrinha vira-lata também nos acompanhou durante boa parte do percurso).



Aguas Calientes fica a cerca de 2 mil metros sobre o nível do mar e tinha o ar bem úmido, como o do Rio de Janeiro. Para nós, que estivemos a mais de 4,5 mil metros de altitude, sob áreas bem secas, nos encontrávamos muito ambientados, quase dopados pelo excesso de oxigenação momentânea. Imprimimos um ritmo muito forte, ultrapassamos vários grupos de turistas e locais, não sem antes observar as belas vistas que a combinação Andes, floresta e rio nos proporcionou (com direito a ver Machu Picchu por trás, no alto). Fizemos o trajeto em “apenas” 2h05. Para nossa surpresa, os franceses nos alcançaram na exata hora em que chegamos à Hidrelétrica.

Lá, tentamos negociar de irmos os quatro num mesmo carro. Fomos informados de que não chegaríamos a Cusco antes do anoitecer; ou seja, perderíamos o nosso voo. Sylvain e Seb (para os amigos do Tião francês), já tinham perdido o deles, mas queriam chegar a Lima logo, assim como nós. Outros motoristas nos ofereceram de fazermos baldeações para chegar. Foi o que aceitamos. Seguimos em carros separados até um pequeno vilarejo, para depois seguir nova viagem até Santa Maria (cerca de 1h10 de carro), com os quatro no banco de trás (na frente, já estava um peruano mais folgado). Passamos por despenhadeiros de mais de 500 metros de altura, sem qualquer guard-rail, numa estrada de terra e cascalho.

Alcançamos Santa Maria no horário previsto. Fomos informados novamente lá que não seria possível chegar a Cusco quando queríamos. Que a paralisação era muito forte e havia muitas interdições na pista. Ainda houve demora de mais de uma hora para a van sair, porque eles esperaram encher a nossa e colocaram um outro grupo na nossa frente em outra. Foi o primeiro momento de revolta do dia, em especial com os locais que não queriam nos compreender (e ainda perguntaram se nós éramos chilenos, porque eles odeiam os chilenos e parte da manifestação era contra o fato de um grupo do Chile poder assumir a exploração turística na região de Cusco e Machu Picchu). Cristiano xingou todos os palavrões em castelhano que nem ele sabia que conhecia, eu chutei árvore... os franceses, bem mais calmos e resignados, no máximo soltaram um “What the fuck?!”. Foi aí que começamos de fato a conversar e conhecer mais dos amigos que surgiram em meio à inusitada intempérie da viagem: Sylvain buscou comprar uma cerveja e trouxe para ver se o Cristiano acalmava. Eu não tomo cerveja, logo fiquei de fora. Aliás, momento parênteses aqui: esqueçam o que costumam falar dos franceses. Os dois eram pura simpatia, se esforçavam para falar em espanhol e inglês. Não tinham qualquer frescura. E também não fediam...

Finalmente pegando a estrada, subimos e descemos os Andes algumas vezes. Levamos quase quatro horas, tendo que desviar de obstáculos na pista colocados pelos grevistas, para chegarmos até Ollantaytambo, de onde o motorista da van disse que não tinha mais como seguir. Os locais nos diziam para ficarmos por lá e desistirmos. Havia turistas na cidade querendo voltar a Cusco. Juntamo-nos a um grupo de espanholas e um alemão e resolvemos de novo seguir a pé, fosse até onde desse. Existia uma mínima chance de chegarmos a tempo do nosso voo. Caminhamos por quase 2 horas até o trânsito liberar e a mesma van que nos deixou em Ollantaytambo passou e nos cobrou novo valor (para completar o trajeto que eles haviam prometido e nos cobrado anteriormente). Aceitamos, a contragosto, e acabamos conhecendo mais um grupo de peruanos e de coreanos que também tentavam chegar a Cusco para irem a Lima.

Ficamos pouco mais de 20 minutos na van, pois o trânsito foi bloqueado novamente. Ao menos, conseguimos a ajuda de um dos peruanos, que emprestou o celular para que remarcássemos nossa passagem aérea para o dia seguinte, já resignados de que perderíamos a primeira noite em Lima. Descemos do veículo e caminhamos mais uns 15 minutos, até sermos resgatados por uma boa alma que catou a todos nós com uma picape.



Éramos 10 turistas numa caçamba. E esse foi um dos momentos mais memoráveis e engraçados de toda a viagem: todo mundo no mesmo barco, já rindo da situação. Inclusive os coreanos, que estavam em lua-de-mel. Fomos assim até encontrarmos uma nova van que o próprio motorista na picape contatou. E esse, enfim, nos levou até Cusco, não sem antes termos que descer do veículo algumas vezes para desobstruir pistas e pegarmos congestionamentos. Foi uma viagem de 14 horas, que deveria ter durado no máximo 3h30, se fosse pelos meios regulares. Prometemos para nós mesmos que tomaríamos um porre para celebrar o feito (coisa, que, para mim, é raríssima em toda a minha vida. Eu nunca tinha tomado um porre porque decidi tomar um porre).

Novamente em Cusco, procuramos junto a Sylvain e Seb um local para passarmos a noite, uma vez que não tínhamos reservas. Encontramos um grande albergue, o que para nós foi uma experiência bem nova. Dividimos o quarto com os dois e mais um holandês (que não se misturou muito) e outra brasileira, Rafaela. Finalmente tomamos um banho e resolvemos sair para comer algo decente (estávamos somente à base de Pringles e Oreo novamente) e encher a cara. Rafaela nos acompanhou e, já no jantar, começamos com pisco sour de graça. Depois, a galera entrou na cerveja e eu segui no pisco. Saímos para dançar e beber (e descobrimos que as boates de lá oferecem um drinque de graça sem cobrar entrada). Entramos em duas boates e pegamos nossas cubas libres de cortesia. Na segunda, acabamos ficando. Lá se foi mais destilado para dentro. Em pouco tempo, estava MUITO DOIDO, o que foi super exótico para mim. Celebramos muito a vitória do dia, exorcizando todos os perrengues que passamos e comemorando as novas amizades que surgiram. Foi uma noite épica, na qual usei todos os idiomas que o meu cérebro permitiu (inclusive descobri que me torno excelente poliglota sob efeito do álcool): português, inglês, espanhol e francês. Recebi até elogios dos novos amigos sobre a qualidade do meu francês, que eu havia estudado por seis meses 13 anos atrás, o que, lógico, me deixou todo pimpão de orgulho (ainda estávamos sóbrios, no albergue).

No dia seguinte, salvo alguns sintomas super leves de ressaca (não tive nem uma pontada de dor de cabeça), levantamos com todo o gás para irmos ao aeroporto e pegarmos o voo remarcado. Estávamos dentro do avião já, com bagagem despachada e tudo, quando fomos informados que a decolagem atrasaria alguns minutos. Depois, todos fomos convidados a nos retirar da aeronave, pois outro avião de outra companhia havia sofrido um acidente na pista e demoraria, pelo menos, cerca de 3 horas para resolver. Após longa espera no saguão, decidiu-se pelo cancelamento de todos os voos do dia. Senti como se eu estivesse num episódio de Caverna do Dragão, na qual a toda hora parecia que eu ia conseguir ir para casa, mas algo acontecia e me prendia em outra dimensão. Maldita hora em que Cristiano resolveu desafiar Pachamama deitando-se na mesa de sacrifícios inca...

Foi desolador saber que teríamos que retornar à cidade e não passar sequer uma noite em Lima. Olhamos as caras de desapontamento e até mesmo desespero no aeroporto. As mesmas pessoas que passaram pelo problema em Machu Picchu eram as que se encontravam agora sem alternativa para ir à capital peruana. Tivemos que rodar por mais de duas horas, subindo as ladeiras na altitude de Cusco com mochilão nas costas, para conseguir uma hospedagem decente e em conta, pois a cidade estava lotada, já que ninguém saía e alguns conseguiram chegar. Não tivemos mais ânimo para nada em Cusco, somente comemos uma pizza e retornamos para dormir cedo, já que o nosso voo sairia às 6h da manhã no dia seguinte. Os franceses acabaram conseguindo um hostel próximo ao aeroporto, pago pela companhia aérea deles.

Finalmente decolamos para Lima no sábado. Ficamos na capital de 8h da manhã até umas 19h, quando tivemos que seguir para aeroporto, já que o nosso retorno para o Brasil seria umas 21h30. Passeamos um pouco pelo centro histórico, conhecemos a Plaza de Armas (sempre ela...), assistimos à troca de guarda no Palácio de Governo, fomos rodeados por um grupo de meninas estudantes que ficaram suspirando pelo Cristiano (e ainda pediram pra ele sambar com elas), conhecemos a imponente Catedral (e vimos como o antes demonizado Pizarro de Cusco era encarado como um herói na capital). Almoçamos bem um peixe que só existe no Pacífico, observamos as ruas ficarem lotadas de pessoas em busca de lazer num sábado à noite, como num verdadeiro shopping a céu aberto. Fomos ao mercado, compramos uma garrafa de pisco e outra de maracujá sour para levar de lembrança.


Mas o tempo era curto e o humor da reta final, embora tivesse melhorado, não estava pleno de boa vontade. Ainda foi coroado pelo fato de a garrafa de maracujá sour quebrar na frente da catedral. Um fim melancólico para uma viagem de duas semanas que, àquela altura, parecia que não deixaria saudades. O jeito foi retornar ao aeroporto e torcer para não demorar até a decolagem e ter um voo tranquilo para o Rio. Com tanto azar, não ter encarado um terremoto ou um avião caindo foi lucro.



Escrever esse relato para o Barba Feita, para mim, foi um exercício de reencontro com essa viagem, que tanto programei e desejei. Olhando mais de longe, vendo as fotos e recuperando essas memórias relativamente recentes, pude ver o valor desses dias que passamos no Peru e na Bolívia. E ao fato, indubitável, de ter sido a maior aventura de nossas vidas.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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