terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Brincando Com a Pedra





Outro dia fui eu pagar umas contas da loja na Loteria que tem aqui perto. Fui todo serelepe (mentira) pensando na vida, já que estava sem meu livro (tava ameaçando chover e sim, eu consigo andar e ler ao mesmo tempo), então pensar na vida era o que me restava, quando OPA, senti algo me incomodando. Qual foi a minha surpresa? Sim, uma pedra tinha entrado no meu tênis. A famosa pedra no sapato, sabem? Pensei: "Oh, quanto tempo que isso não me acontecia...". O que? Não me olhem assim, vocês sabem que eu penso de um jeito estranho. 

Ao invés de parar no meio do caminho e tentar, de forma discreta ou não, tirar aquela pedrinha, eu segui meu caminho, com a maldita indo de ponta a ponta do meu pé, me dando aquela dorzinha, que não é forte, é apenas incômoda. Pensei em resolver isso na Loteria, quando ficasse parado na fila. Não tinha fila. Entreguei as contas e o dinheiro pra moça do caixa e fiquei observando ela trabalhar. E fiz amizade com a pedra. Tá, ok, não se chama amizade, até porque é um ser inanimado, mas eu comecei a brincar com a pedra segurei ela com o dedão e fiquei rolando de um lado pro outro dentro do tênis, que nem criança quando tira meleca do nariz e fica fazendo uma bolinha, sabem? Acho que a sensação que eu senti ali era próxima disso. E lá estava eu, que a poucos minutos estava praguejando contra a pedra, agora estava ali, brincando com a pedra, conscientemente causando em mim aquela dorzinha incômoda. 

Peguei as contas pagas, o troco, fui na padaria e comprei meu lanche, brinquei mais um pouco com a pedra enquanto aguardava na fila, e voltei pra loja. No meio do caminho a coisa mudou de figura, porque eu já não tinha mais controle sobre a pedra, ela rolava por debaixo do meu pé, e eu manquei umas duas vezes. Voltei a praguejar. Cheguei na loja e a primeira coisa que fiz ao ir para os fundos foi tirar o tênis e sacudí-lo pra que a pedra caísse. Fiquei olhando pra ela e pensei: "Filha da puta...".
Durante um tempinho do dia eu me peguei movendo o dedão como se estivesse brincando com a pedra, sentindo falta daquela dorzinha incômoda, daquele prazer pequeno que ela me proporcionou ali. 

Enquanto eu voltava pra loja esse texto se formou na minha mente, exatamente como está escrito, porque né? A gente tem na nossa vida umas coisas, umas situações que, às vezes, só estão ali, continuam ali, porque nós permitimos. Porque de tão fácil que é resolver tal problema, ele acaba sendo deixado pra depois, e isso vai minando, a situação vai mudando de forma constantemente, hora você está no controle, hora você não está no controle, e você pensa: "Chega, de hoje não passa, vou resolver isso.", mas aparece outra coisa e você se distrai, ou a situação muda e te coloca no controle e faz você pensar que está tudo bem, quando na verdade não tá nada bem ali. 

E não pensem vocês que é fácil tirar algumas coisas da nossa vida, porque não é. Existem situações, e por situações vocês podem pensar no que quiserem, que se alojam na nossa mente, no nosso coração, por tanto tempo, e te desgastam, te machucam, te atrapalham, que quando você FINALMENTE consegue se livrar daquilo, não demora muito pra você sentir falta. É como se a sua vida dependesse daquela dorzinha pequenininha pra existir, é o mais importante depois do oxigênio na sua vida, você precisa sentir dor pra viver, você acaba pensando: "Pra que que eu fui resolver isso? E agora? O que eu vou fazer? Já resolvi o que me incomodava, já me livrei, o que vai ser de mim?", e fica se martirizando, como se fosse algo muito ruim se livrar de algo que te fazia mal. 

Mas, assim como eu acabei indo pra casa e esquecendo a pedra, a dorzinha e o ocorrido, a gente também acaba esquecendo o que tirou da nossa vida. Uma hora passa, você só precisa aceitar que tirou da sua vida um incômodo, que isso precisava ser feito, pra que você pudesse seguir em frente mais rápido.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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