domingo, 6 de dezembro de 2015

Charlie Sheen e o Holofote (Controverso) ao HIV





O movimento social reclama há tempos que o tema HIV/AIDS não estava na pauta principal da mídia, mas há duas semanas, o tema voltou com força total. Pena que o motivo não tenha sido um dos melhores. Charlie Sheen, ex-protagonista da série de humor americana Two And a Half Men, declarou ser soropositivo há cerca de quatro anos. 

E por que essa notícia não é boa, partindo do princípio que Charlie é uma pessoa conhecida e pode fortalecer a luta dos outros soropositivos, desmistificando o assunto e reduzindo o preconceito? Bem, desde o início, a revelação do seu diagnóstico soou estranha, uma vez que Charlie nunca foi uma pessoa muito engajada, senão nas suas causas próprias. Recentemente, inclusive, ele veio à mídia falar que já transou com cerca de 5 mil pessoas, talvez, tentando reforçar essa ideia de que um homem pode transar com todo mundo e ser visto como garanhão, enquanto as mulheres são, apenas, objeto sexual. Até porque, não imagino uma mulher famosa falar isso na mídia e não ser tachada como vagabunda por quase todo mundo. Bem, mas isso é outro assunto. 

Ligando o fato de ele ser positivo ao fato de ele ter transado com muitas pessoas, reforçamos também a ideia de que quanto mais fazemos sexo, mais chances de sermos positivos, mas não é bem assim. O risco está muito mais ligado ao seu comportamento relacionado à prevenção do que à quantidade de pessoas com quem faz sexo, pois uma pessoa pode transar com 5 milhões de seres animados ou inanimados e se manter soronegativa usando métodos simples de prevenção. 

Outro problema, em minha opinião, é que ele não fez isso porque é um cara que decidiu sair do armário da soropositividade para mudar a vida das pessoas. Ele alega ter sido chantageado por pessoas que sabiam da sua sorologia. Aí, entramos em uma seara ainda mais complexa... Uma pessoa ser chantageada até se sentir obrigada a revelar algo tão íntimo é gravíssimo e retoma a discussão sobre o direito da pessoa soropositiva de manter a sua sorologia em segredo. Ah, e isso é garantido em lei, tá?

Aí, você vem e me pergunta: João, mas se o cara tem HIV, ele tem a obrigação de usar camisinha e de contar para as pessoas com quem se relaciona? Aí, eu te respondo: Não, ele não tem essa obrigação. Assim como você não tem a obrigação de contar para ninguém se seu relacionamento é aberto ou fechado, se você gosta de rosa ou azul, se você curte comer melancia com arroz ou qualquer outra coisa íntima sua. O que acontece é que devemos desconstruir essa ideia de que o soropositivo é o único responsável por cuidar da saúde das pessoas com quem se relaciona. Essa responsabilidade é das duas ou mais pessoas que estão transando. Todas as pessoas envolvidas têm igual dever de se cuidarem. Todos devem ter a sua camisinha, seu gel, devem fazer o teste anti-HIV sempre que se expor e conhecer as tecnologias de prevenção que estão disponíveis por aí, principalmente no SUS. 

É claro que eu sempre defendo que abrir o jogo, pelo menos com as pessoas mais próximas, tira um peso enorme das costas e cito o ativista Floriano Furtado Leite que diz que “a verdade dói, mas não adoece as relações”. Porém, essa é uma escolha individual e que deve ser respeitada. Não quer correr risco de se molhar? Leve sempre contigo um guarda-chuva! 

Portanto, é importante reconhecer que uma pessoa vivendo com HIV tem direito ao sigilo e nem eu, nem você, nem ninguém, tem o direito de cobrar que essas pessoas revelem a sua sorologia para seus amigos, família ou parceiros sexuais. A responsabilidade pela prevenção é compartilhada entre todos os envolvidos em uma transa. Portanto, se você souber que seu amigo transou com aquele boy magia que você ouviu falar que tem HIV, limite-se a incentivá-lo a fazer o teste anti-HIV e se proteja em todas as relações sexuais, pois você pode enfrentar problemas sérios com a Justiça, já que seu amigo pode pirar e transformar a vida do boy magia num inferno por sua causa.

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Leandro Faria  
João Geraldo Netto é marketeiro, barbudo, gay, soropositivo, ativista, apaixonado, inquieto, metódico, chato e muitas outras coisas. E o responsável pela coluna mensal Conversa + aqui no Barba Feita.
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