domingo, 13 de dezembro de 2015

Cultura do Tabloide





Quando decidi largar a faculdade de Fisioterapia e embarcar pela jornada magnífica ilusória da Comunicação, pensei em cursar Jornalismo. Como o curso de Comunicação Social possui a mesma grade curricular até o quarto período, eu teria dois anos para me certificar dessa decisão ou decidir se mudaria para Publicidade. Lembro de contar para a minha avó e ela me parabenizar, dizendo que eu iria trabalhar no Jornal Nacional. Talvez esse tenha sido o empurrão necessário para, de fato, desistir do Jornalismo. Essa seria uma adorável história se o único contratempo tivesse sido o tortuoso elogio da minha doce avozinha. A verdade é que a Publicidade é um mundo ainda mais ilusório (e talvez mais sujo, apesar de ainda ter minhas dúvidas) que o Jornalismo, que possui boas intenções, mas péssimas execuções. E como diz o ditado: de boas intenções o inferno está cheio. 

Hoje vivemos o que gosto de chamar de “Cultura do Tabloide”. Nunca vi uma geração tão conectada, interessada e opinativa quando se trata de assuntos polêmicos. Ou desastres. Ou futebol (o importante é participar, não é mesmo?). A questão é que o interesse, assim como a vontade, é muito superficial. Vai até onde a manchete te levar. E acreditem, meus caros, esse lugar não é a verdade absoluta. Sequer a meia verdade. Algo que aprendemos durante a graduação em Comunicação Social é que a mídia deve ser obrigatoriamente imparcial. Um comunicólogo em exercício de sua profissão não deve ser partidário de direita, esquerda, Flamengo ou Vasco. Fora do trabalho, podemos nos digladiar à vontade. 

Os dois últimos meses foram intensos tanto no Brasil quanto fora dele. Tragédias, barbáries, genocídio, crimes (conseguem dizer onde aconteceu cada um ou todos parecem iguais?), etc. No meio de tanta profundidade, de tristeza e possibilidades de conhecimento, permanecemos boiando no raso. Uma grande onda avassaladora do movimento feminista que toma o país e o mundo em busca do tão sonhado ponto final à falta de igualdade e direito de gênero, ainda é pauta de questionamentos do tipo: “mas se for lésbica pode apanhar como homem?”. Não, não pode. Podemos não bater em ninguém? Podemos não desmerecer um movimento em prol de outro? Cinco jovens são assassinados por policiais militares no Rio de Janeiro e meus colegas de formação são capazes de, antes mesmo de arregalar os olhos com tamanha barbaridade, investigar se já foram fichados antes de morrer. E os meus colegas de planeta, ainda que não comunicólogos, ainda dividem-se entre “cidadãos de bem” e “defensores dos direitos humanos”. Não podemos ser apenas iguais? E os estudantes em São Paulo que seguem apanhando da polícia na tentativa de defender suas escolas? Como isso é divulgado pela mídia? Como ser imparcial – ou assustadoramente parcial pro lado do governo – nesse caso? 

Há tanto para ser discutido, investigado, questionado, protestado, mas seguimos preocupados com o hidrogel nas panicats – sem usar isso como forma de propagar a conscientização do corpo e da saúde. Uma mulher, a primeira mulher, está na frente na corrida pela presidência norte-americana, e ainda discute-se sobre o penteado de Hillary Clinton, após tê-la tornado digna de apoio apenas via humilhação no caso Monica Lewinsky. Afinal, quem mais teria o direito de meter a colher na briga de marido e mulher do que nós, graduados na cultura tabloidiana? Alguém se preocupa com suas intenções de política externa ou a diferença de programa de governo dela pro Trump? Além de mim, é claro (que declaro minha utópica preferência pelo Bernie Sanders, mas se Hillary for nomeada pelo Partido Democrata, certamente terá minha torcida). 

Lemos manchetes, não ouvimos a opinião contrária de alguém – apenas porque não nos agrada ouvir, mesmo que nos agrade muito discordar. Idiotizamos o sofrimento daqueles que diferem dos nossos. Não nos conformamos com tragédia de pobre, mas de certa forma, continuamos no mesmo lugar. Quem reclamou das lágrimas pela França leu algum relato sírio? E quem defende a Síria, teme ser fuzilado enquanto janta? Quem condenou o Afeganistão já espiou o poder bélico dos Estados Unidos? E quem disse “bem feito” no 11 de setembro, perdeu algum parente na tragédia de Mariana? A Cultura do Tabloide alimenta nossos anseios por notícias, por outras vidas e personas que nos tirem do nosso lugarzinho na frente do computador, espumando pela boca nas atualizações de status do Facebook. 

Apertei o play naquela canção de Chico que termina dizendo: “...A dor da gente não sai no jornal.”

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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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