terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Éramos Jovens





Recentemente eu comecei a estudar. Gestão de Marketing, à distância. Ao mesmo tempo que eu gosto, eu odeio, porque eu sinto falta da sala de aula. Me chamem do que quiserem, mas é verdade. Sinto falta de conhecer pessoas novas, trocar experiências, a cumplicidade, convivência... O que me fez pensar bastante na época de colégio. Tantas lembranças... A maioria envolve um professor de Matemática da oitava série um tanto quanto incomum; um plano de suicídio que eu mais minha amiga Jessica bolamos, que consistia em pular da cobertura do "Shopping" de Barra Mansa depois de pegarmos o resultado de Matemática (é, era nesse nível). Uns nas casas dos outros, batendo perna na rua, sempre juntos. O Mal Caminho, ah, o Mal Caminho; a camisa azul-bebê com o Pink e o Cérebro na estampa (eu sei, não precisam comentar). Éramos jovens, era tudo tão divertido. 

Grande parte da turma foi pro mesmo colégio no Ensino Médio, o que foi uma pena, porque eu imagino o sucesso que seria aquela turma inteira dentro daquele colégio por três anos. Novos amigos surgiram, e junto com eles, novos inimigos. Eu gelei quando ouvi meu nome ser encaminhado pra turma que tinha, em sua maioria, todos os meus antigos Nêmesis, meus algozes. Entrei, sentei no fundo e pensei: "É, fudeu.", porque eu estava totalmente sozinho ali, enquanto meus amigos estavam na outra turma. Felizmente, eles conseguiram me salvar, o que eu nunca esqueci. Se uniram e me levaram pra perto deles. Lá eu podia respirar, ainda que houvesse um ou dois ali, mas não seriam problema. 

Me lembro de quando eu estava lendo na quadra e os famosos valentões do Terceiro Ano começaram a chutar a bola na minha direção, contra a parede, numa espécie de roleta russa, até que aquilo parou e eu percebi que meus amigos estavam em pé do meu lado, prontos pra resolver a situação.
Toda vez nessa época do ano eu lembro do que eu gosto de chamar de Operação Souvenir, que foi quando Camila e Pollyanna se juntaram pra roubar os enfeites da árvore de Natal do colégio e pendurar nas árvores da rua. Nosso objetivo era roubar todos, até mesmo a estrela. Não me lembro se conseguimos, acho que passamos de ano antes de conseguir. Não sei. 

Teve a vez que eles aplicaram uma prova em todas as turmas, misturando os anos, pra evitar que os alunos colassem, mas se instalou embaixo da janela da minha sala um grupo de pagode que tentava ajudar seus amigos que estavam ali cantando o gabarito da prova. Eu só me lembro que "A 1 é Massas de ar, a 1 é Massas de ar"

Lembro das conversas no banheiro, todas muito sérias, afinal, era um dos poucos lugares em que possuía privacidade ali. 

Teve a vez que eu fugi sem saber que estava fugindo. Sim, minha amiga Heula me puxou pra fora do portão, eu vi todo mundo correndo, o portão fechou atrás de mim e eu: "Gente, o portão fechou!" e Heula me mandando correr. Então eu corri!

Os trabalhos em grupo, os momentos de juntar as mesas pra assistir as aulas, mesmo contra a vontade de alguns professores, a brincadeira de escrever uma frase no papel e ir passando de mesa em mesa pra cada um continuar a história durante a aula... Apelidos, códigos pra falar dos garotos (uh lálá...), puxões de orelhas uns nos outros, conselhos... Discussões acaloradas sobre nós mesmos, sobre as matérias, trabalhos, sobre o colégio. Isso tudo era muito gostoso, e eu sinto muita falta. Mais ainda fazendo faculdade à distância. 

São flashes, lembranças de um tempo em que éramos jovens, e adorávamos agir como adultos, mesmo sabendo que a vida adulta era bem mais do que aquilo. 

Hoje tudo mudou. Uns casaram, eu mesmo cantei no casamento da Bruna e fiz um esforço hercúleo pra não chorar, afinal, um ano de convivência não é um dia, nem um mês. Outros estão com filhos, alguns estão pra se formar, trabalhando, conquistando seu espaço no mundo. Nos tornamos pessoas que jamais imaginávamos que iríamos nos tornar, pelo menos não naquela época, com aquela idade. Eu pelo menos nunca pensei que seria quem eu sou hoje, eu tinha um plano de vida completamente diferente. 

O tempo passou, tudo mudou, e o que resta agora é a saudade. Dos amigos, dos momentos vividos (os bons e os ruins), e a certeza de que ainda temos muito pra mudar. Crescer, evoluir. No fundo, creio eu, todos nós ainda temos nossa essência colegial guardada na nossa alma. Talvez ela nos ajude a enfrentar muitas situações do cotidiano com a leveza com que enfrentávamos as provas, trabalhos e os inimigos de colégio. Algumas coisas devem ser conservadas. Alguns pontos do passado podem acabar ajudando a resolver questões do presente. 

É como alguém disse uma vez: "Mesmo que tudo tenha mudado, algumas coisas nunca mudam.".

Leia Também:
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: