segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Lembranças de Reveillons Passados





"(...) Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo.
Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."
Receita de Ano Novo 
(Carlos Drummond de Andrade)

Já falei por aqui sobre como cresci desapegado à comemorações de datas quaisquer. Afinal, se sua família te ensina desde pequeno que comemorar o Natal é errado, ok, você acredita e não comemora o Natal. Que o Ano Novo é apenas mais um dia do ano, você assimila aquilo. Que pular o carnaval é pecado mortal, deus-me-livre de carimbar imediatamente minha passagem para a pilha de mortos do Armagedom. Mas o que aconteceu comigo e, tenho certeza, frustrou demais meus pais, é que eu cresci e, vejam só, passei a procurar pelos meus próprios valores e a pensar por mim mesmo. Pode até ser chato pra eles, mas pra mim, nossa, eu descobri o verdadeiro conceito de liberdade.

E, entre tantas datas comemorativas que eu finalmente pude experimentar depois que me libertei da amarra religiosa, o carnaval e o Ano Novo são meus feriados preferidos. Porque sim, eu gosto é de festa, farra e cerveja, então, nada mais natural que amar essa possibilidade de se jogar sem receio em comemorações que celebram a vida sem prisões de qualquer forma e os recomeços.

Com o Ano Novo pintando ali na esquina, logo quatro dias à frente, é impossível não me empolgar com a data e pensar na comemoração. Esse ano, especificamente, farei uma festinha mais reservada em casa, com um pequeno grupo de amigos (seremos no máximo umas 10 pessoas), regada com bastante comida (preparada por nós e, preciso dizer que estou usando muito o meu lado cozinheiro ultimamente e fiquei mega feliz com o cardápio que montei) e bebidas diversas. Porque eu amo Ano Novo e, mais do que isso, estar rodeado pelos meus queridos.

As minhas verdadeiras comemorações de Ano Novo se iniciaram em 2007, depois que sai de casa e fui morar sozinho, em uma cidade diferente da que nasci. De Smallville para Petrópolis, conheci pessoas, fiz novos amigos e, com os amigos dos amigos, marcamos uma ceia na casa de um deles. Agregado aos novos amigos, é claro que tive alguns amigos meus, de outras cidades, que vieram para ficarmos juntos. Lembro pouco desse dia, mas sei que foi bem legal e com alguns momentos de pagação de mico e choro desenfreado por motivos aleatórios que eu nem mais sei quais são.

Em 2008, o Ano Novo foi no Rio, quando eu ainda morava em Petrópolis. Um amigo de Campinas estava hospedado em um flat em Copacabana e combinamos todos de passar juntos, na praia mais famosa do mundo. E, putz, nunca mais. Foi divertido, maravilhoso, mas só tenho algo a dizer para alguém que pensa em passar o Ano Novo nas ruas de Copacabana: não passe! É muita gente, é muito fedor e a experiência não é das melhores. É mais bonito pela televisão do que estando na Avenida Atlântica (a menos que você esteja em uma festa, em um dos prédios em frente à praia, mas aí é outra história).

Depois disso, passei a virada dos dois anos seguintes em viagens com meus melhores amigos. De 2009 para 2010, vivi uma verdadeira aventura, daquelas que dariam filme de comédia pastelão. O plano era embarcar para Buenos Aires na manhã do dia 31 de dezembro e era o que teria acontecido. Mas, Buenos Aires era a minha primeira viagem internacional e eu, idiota que sou, fui para o aeroporto apenas com a carteira de motorista e não embarquei. Meu amigo e minha amiga foram e combinamos de nos encontrar lá. Detalhe: eu não tinha comigo uma carteira de identidade sequer, já que havia perdido a minha meses antes e não feito uma segunda via. A salvação veio da minha mãe, que guardou com ela a minha primeira ID, de quando eu tinha 17 anos e não tinha data de validade. O documento viajou de Smallville para o Rio, nas mão do motorista do ônibus que faz a linha para a Cidade Maravilhosa, e consegui trocar meu vôo para o fim do dia, chegando em Buenos Aires por volta das 22h. Claro que não tinha transporte do aeroporto pro centro da cidade e eu jurava que ia passar a virada do ano sentado no saguão com um grupo de brasileiros que haviam viajado no mesmo vôo. Mas, já quase perdendo as esperanças, consegui carona até o centro de Buenos Aires, com dois outros brasileiros que se hospedariam próximo a mim e conseguiram um taxi. Ufa!
Cara de "ufa, estou acabado, foi um dia daqueles, mas consegui chegar a Buenos Aires e estou com vocês!"

Só deu tempo de chegar na hospedagem, gritar feito louco com meu amigo e minha amiga, sair para a rua, e ouvir os três únicos fogos que explodiram nos céus do centro da cidade, enquanto caminhávamos até o obelisco da Praça da República. Foi insano e poderia ter dado tudo errado, mas foi apenas o começo da minha primeira viagem internacional com os meus queridos.

Um ano depois, já experiente e calejado com a experiência em Buenos Aires, decidimos cruzar o Atlântico e passar o Ano Novo em Paris. Até hoje eu rio sozinho quando me lembro do motivo da escolha de Paris. Beto, meu amigo mais lindo e insano, falava comigo ao telefone: "Amigo, quero glamour! Ou vamos pra Mikonos ou vamos pra Paris, pode escolher!". E foi assim que tirei passaporte e, em julho, começamos o nosso planejamento para férias que incluíam França, Inglaterra e Espanha no roteiro. Com o Ano Novo na capital francesa, é claro.

E que viagem maravilhosa, viu! Hospedados num hostel no subúrbio de Paris, nosso Ano Novo começou por lá mesmo. A maioria dos hóspedes eram brasileiros e tínhamos outro dois amigos hospedados na cidade que se encontraram conosco para comemorar a data. Então, fomos cedo para o mercado, fizemos nossas compras (com direito a espumante francês comprado por 2 euros) e fizemos uma grande festa no hostel, que se estendeu pelo metro que nos levou até a Champs-Élysées, nosso destino final.
Ano Novo em Paris com os meus muito queridos.


É aquela coisa: foi maravilhoso, mas pelas pessoas que estavam conosco. Paris é linda, mas o Ano Novo, em si, não é o mais animado. Lembro bem de estar na Champs-Élysées, da contagem regressiva e da ausência de fogos. Brasileiro adora fogos, né? E esperamos fogos no Ano Novo. Só não contaram pra gente (e pras milhares de pessoas que estavam na Champs-Élysées naquele dia) que os fogos aconteciam na Torrei Eiffel.

O engraçado é que todo mundo começou a se dissipar depois da meia noite e, do nada, a rua que estava lotada, estava semi-vazia. Animados e querendo beber mais, acabamos indo para o Marais, o bairro boêmio de Paris, Beto e eu, acompanhados de duas lindas e um lindo que estavam com a gente, Marci, Amanda e Kleber, nos enfiamos em um pub-boate até o dia amanhecer . Foi muito divertido.

Em 2011, já na casa nova e morando com o namorado, fizemos uma festa aqui em casa, reunindo amigos para brindar a vida nova e o 2012 que se iniciava. Foi MARAVILHOSO, mas bastante cansativo. Muita gente, muitos preparativos e uma decisão: vamos só em festas fechadas a partir do ano que vem? Vamos! E foi o que passamos a fazer.

Em 2012, 2013, 2014, passamos o Ano Novo lindos e belos em festas grandes aqui pelo Rio e sem ter que nos preocupar com o trabalho envolvido na organização. Sempre acompanhados dos bons amigos, tivemos momentos incríveis no Chá da Alice, nos dois primeiros anos (e sofro pelo Chá ter parado de organizar reveillons), e em uma festa meia boca, no ano passado.
Tá vendo aquele ventilador ali ao fundo, oh? Então, protagonista total do meu reveillon 2014/2015.

Sobre o ano passado, é preciso dizer, tive o reveillon mais surreal de todos até então. Numa festa na Marina da Glória, logo depois da meia-noite sofri um acidente ao erguer os braços e enfiar a mão esquerda dentro de um ventilador de parede que, nem preciso dizer, estava em um local quase assassino. Assim, era 01:20 da madrugada do dia 01 de janeiro de 2015 e eu no hospital tomando nove pontos nos dedos. Inesquecível, certamente, mas que me rendeu gargalhadas diversas depois e uma história pro resto da vida.

Escrevendo esse texto, que acabou nostálgico e me fez sorrir ao lembrar de tanta gente legal que está sempre comigo pelos reveillons e pela vida, vejo que o que importa, mais do que qualquer data, são as nossas relações e quem escolhemos para partilhar a existência, comemorando datas diversas, que podem ou não ter significado. Porque, no fim das contas, quem se importa? Se estamos bem e felizes, comemorar é o mínimo, com ou sem motivo.

Um beijo e meu carinho especial para todos que estiveram comigo nesses e em outros reveillons. Beto, Matheus, Fabi, Ewerton, Marcelo, Éllerson, Daniel, Amanda, Kleber, Marci, Alexandre, Andressa, Vinícius, Suzana e Leina. Obrigado pela companhia e pelas gargalhadas.

A todos os leitores queridos do Barba Feita e meus amigos e amados colunistas aqui (Glauco, PH, Sil, Serginho, Esdras e Nanda), o clichê dos clichês, mas muito verdadeiro: um Feliz Ano Novo e que em 2016 possamos continuar juntos, como tem sido desde meados de 2014.

Cheers!

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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