sábado, 12 de dezembro de 2015

Num Domingo, às Três da Tarde




Num instante de distração entre as viradas das páginas de seu livro, percebeu o olhar malicioso e aquela ajeitada por cima da calça. Um frêmito de excitação percorreu-lhe o corpo todo. Manteve o olhar, antes atento às linhas do romance que lia, em direção ao desconhecido, e duas estações depois, saltaram juntos.

Falaram poucas palavras, os olhares trocados diziam o suficiente. Em minutos estavam num quarto de motel. O cara romântico fez algumas perguntas que o desconhecido mal respondeu, não estava a fim de muito papo, calou-lhe a boca com beijos afogueados e famintos. O cara romântico deixou de lado seus romantismos e entregou-se ao puro desejo carnal, a libido que o desviou de seu caminho e o fez chegar até aquele luxurioso momento.

Tinha seus delírios de amor, seus devaneios românticos, sofria da síndrome de Alice. Em meio à tantas fantasias, sexo e amor eram indissociáveis. Mas o amor demora, especialmente para homens que desejam outros, e o sexo tem urgência. Demasiado humano que era, o cara romântico também tinha suas urgências, e atendia à elas sempre que as mesmas começavam a pulular dentro de si. Não era o caso naquele dia no metrô, mas sexo com estranhos era um de seus fetiches secretos.

Então, naquele domingo, às 3 da tarde, o cara romântico e o desconhecido, encharcaram-se em seus desejos urgentes, de suor, saliva e sêmen. Selvagens, obscenamente selvagens como só dois anônimos conseguem ser. Gozaram juntos, em meio a gemidos de prazer e dor. Exaustos e saciados.

O desconhecido afastou-se, deixando a cama imensa para o parceiro se recompor. Este, por sua vez, entre os travesseiros macios, ficou com o olhar perdido sobre o teto e as paredes brancas, recuperando-se pouco a pouco da privação de sentidos causada pelo desejo que o levou até ali. Enquanto passeava seu olhar pelo quarto e pensava em tanta coisa, deteve sua atenção à imagem do desconhecido nu, de costas, fumando na janela. O cigarro pós-sexo. Nunca tinha visto cena igual a não ser nos filmes e nas novelas, e foi uma das imagens mais bonitas e poéticas que seus olhos já haviam captado.

Pensou então que tudo aquilo podia ser uma história bonita, diferente, uma história de amor ou de paixão. O sexo tinha sido incrível, alucinante, mas continuava sendo apenas sexo, sem sentimento, e por melhor e necessário que tivesse sido, pra ele era muito pouco.

Tomou uma ducha fria, enquanto o desconhecido escovava os dentes. Vestia a calça, quando sentiu o desconhecido pegar-lhe por trás, beijar-lhe o pescoço e puxá-lo novamente pra cama. A ereção estava impressionantemente mais potente que antes. O cara romântico recusou-se a um segundo tempo. Estava atrasado para uma mostra de cinema francês, já tinha vivido sua dose de realidade naquela tarde de domingo morna. Precisava voltar a sonhar, o cara romântico.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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