sábado, 26 de dezembro de 2015

O Casamento, a Agressão e o Constrangimento





Sendo este meu último texto de 2015 para o Barba Feita, achei mais interessante fugir do clichê "retrospectiva do ano" (embora ela virá, provavelmente em minha primeira coluna para 2016, pois não resisto) e comentar sobre alguns assuntos que chamaram a atenção (minha e da mídia) nestas últimas semanas.

Começando por um assunto do qual entendo pouco, muito pouco mesmo, quase nada. Porém, vivo cercado por amigos que entendem bem do assunto: política. E, apesar de achar o tema chatíssimo, sendo absolutamente neutro nessa pauta, é impossível passar incólume por ele, pois os amigos que curtem o tema sempre se envolvem em debates e posições passionais e inflamadas. Quando estou entre eles nesses momentos, procuro ouvir com atenção o que falam e absorver a essência de tudo para diminuir um pouco minha alienação no assunto, até porque política é história, faz parte de tudo o tempo todo nas nossas vidas e, para quem se pretende um contador de histórias que um dia serão lidas e vistas pelo mundo, preciso entender minimamente do assunto.

Um dia me verei obrigado a parar e me concentrar em leituras, pesquisas e estudos sobre política, coisa que nunca fiz na vida por pura neutralidade religiosa, incutida por meus pais desde a mais tenra idade, e que me levou a um imenso desinteresse no assunto pela vida afora. Hoje, diante do cenário político do nosso país, me vejo cada vez mais impelido a me aprofundar no tema. Mas, se ainda entendo pouco da história política do Brasil para entrar em debates inflamados, e não me posiciono contra nem a favor de nenhum partido, de comportamento humano acho que ainda entendo o minimamente necessário para afirmar que essa guerrinha entre petistas e psdbebistas é coisa de gente imbecil, que acaba se tornando mais ignorante do que os ditos "alienados".

Pessoas que consideram-se politizadas deviam ter como princípio básico pra vida RESPEITO e CIVILIDADE, o que não vejo entre os politizados de redes sociais e que me causou muita revolta diante do episódio ocorrido com Chico Buarque essa semana. Conforme noticiado pelas mídias, Chico estava com amigos em um restaurante e, de repente, começou a sofrer agressões verbais por parte de dois rapazes, que o chamaram de "petista de merda" e "ladrão", dentre outras coisas. Chico, ao que parece, sempre elegante, respondeu à altura, sem se exaltar, mas deu sua melhor resposta em forma de música, postando em sua rede social: Vai trabalhar, vagabundo, canção de 1976 (olha como estamos atualizados desde 1976, né Brasil?), que caiu como uma luva para a situação.

Os agressores, projetos de fascistas, foram identificados como o rapper Tulio Dek e o playboy Álvaro Garnero Filho. Em se tratando de Tulio, achei uma reação contraditória aos posicionamentos dos rappers em geral, pois a maioria deles, com suas letras recheadas de críticas sociais, me parecem sempre levantar a bandeira do respeito acima de tudo. Não sei se nesse caso dá pra se levar a sério o tal Túlio Dek como artista ou se o correto é igualá-lo ao filho do empresário Álvaro Garnero, o Alvarinho (amigo de famosos como Ronaldo Nazário, só pra constar), seu companheiro nos acintes proferidos a Chico Buarque, ou seja, como apenas um playboy, filhinho de papai, débil mental, como bem entoava Gabriel, O Pensador, já há algum tempo, esse sim, um rapper divertido e inteligente com letras contundentes e deliciosas.

No fim, os tais Tulio e Alvarinho continuam sendo ninguém na fila do pão, apesar de ficarem conhecidos da pior maneira possível. Enquanto que Chico, continua sendo Chico. E não, essa não é uma defesa a Chico Buarque por ele ser quem é, até porque nem sou tão fã assim do músico, mas apenas uma forma de expor minha ojeriza à essa novela maldita chamada "Petistas versus PSDBbistas", que o Brasil assiste há meses e onde todos estão desesperados pra opinar, achando que vão fazer alguma diferença na trama com suas opiniões de merda, preconceituosas e desrespeitosas. Não é assim que funciona. Posso não entender quase nada, mas de uma coisa tenho certeza: TÁ TODO MUNDO FAZENDO ISSO ERRADO!

Agora que desabafei, vamos a um assunto mais ameno? Vamos!

Quem assistiu ao Miss Universo 2015? Eu não. Mas já repeti dezenas de vezes o vídeo em que a Miss Colômbia, após comemorar por alguns minutos sua vitória como a mais bonita do Universo, é descoroada, dando o primeiro lugar à sua principal concorrente, a Miss Filipinas.

Gente, que gafe! Como pode, meu povo? Eu ri e fiquei ruborizado ao mesmo tempo. Coitada da colombiana. Constrangimento nível hard. Eu pularia no pescoço do apresentador e unharia a cara dele todinha. Mentira, faria nada. Ficaria bem quietinho, engoliria a seco, depois me descabelaria no quarto do hotel, sozinho, praguejando até a última geração dele, depois, bola pra frente. Que na vida essas coisas acontecem, e o pior mesmo é só a decepção momentânea, porque no fim das contas, Miss Colômbia ficará mais famosa que a vencedora de fato e vai faturar um bom aqué em cima desse episódio, que eu saiba, até então inédito na história dos concursos de beleza. Significa que Ariadna Gutiérrez fez história, ah, tá ótimo pra ela.

Mas esse episódio também me remete à minha vida, à minha história e aquela velha sensação de estar sempre um passo atrás das minhas conquistas. Mas sem mimimi, tá, foi só uma rápida e frustrante associação, que também não deixa de ser um consolo, afinal, se até uma beldade como a Miss Colômbia 2015, pode sofrer uma vergonhosa decepção em público, quem dirá eu. Assim caminha a humanidade e vida que segue.

Outro assunto que deu o que falar essa semana foi um casamento, mas não um casamento qualquer, mas, o casamento. O humorista Paulo Gustavo casou-se numa cerimônia belíssima, no belíssimo Parque Lage, no Rio de Janeiro, com seu noivo mais belo ainda, o médico dermatologista Thales Bretas. Tudo sob o maior esquema de sigilo para evitar paparazzos e garantir a total privacidade dos noivos e convidados. Ainda assim, com tudo lindo e de muito bom gosto, como pude conferir pelas poucas fotos liberadas por PG após a cerimônia, o povo ainda arranjou um jeito de falar e criticar o casamento, baseado em uma atitude estritamente pessoal dos noivos. Paulo e Thales acharam por bem não trocar beijos na cerimônia, selando a união com um amoroso abraço, o que muitas vezes é uma demostração maior de cumplicidade, afeto e amor do que muitos beijos. Mas claro que houve os pentelhos de plantão querendo cagar regra, metendo o pau no Paulo Gustavo, porque pra subir mais um degrau na luta contra o preconceito ele TINHA que beijar o marido na boca, e de preferência um beijo bem babado e com bastante língua pra erradicar de vez o preconceito do Planeta.

Aaaaah, me poupe, se poupe, nos poupe! Paulo Gustavo, como a figura pública que é, tendo o alcance que tem, não subiu um, mas dez degraus, não contra nada, mas a favor da igualdade, ao declarar publicamente seu amor por outro homem e ainda subir ao altar com ele diante de toda uma sociedade hipócrita e, ainda sim, preconceituosa. O não beijo, em minha opinião, nada mais foi que um cuidado, uma delicadeza com sua própria privacidade e também com aqueles, que, porque não, ainda se sentem desconfortáveis ao ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando na boca, mesmo que estejam felizes com a união amorosa dessas duas pessoas e comemorando com elas essa celebração do amor. É tudo uma questão estética e de costume também, mas ninguém tem que enfiar beijos e carícias ardentes goela abaixo de ninguém para que se acostumem. Essas pessoas que provavelmente receberam a consideração de Paulo Gustavo e Thales ao não se beijarem, estavam num casamento entre dois homens! O que é um simples beijo diante de uma grandiosa cerimônia de casamento?

Paulo Gustavo fez sua parte como cidadão e artista lindamente, ainda que absurdamente acusado de preconceituoso ao inverso, conseguiu quebrar boa parte do preconceito de uma sociedade e talvez de alguns parentes e amigos, sem precisar esfregar nada na cara de ninguém. Foi de uma extrema elegância nos cuidados estéticos de sua cerimônia e em seu comportamento, mas elegância é uma palavrinha com a qual o brasileiro não está muito acostumado, nem com a palavra, muito menos com atitudes elegantes.

Paulo Gustavo ganhou mais ainda minha admiração.

E foi isso pessoal, fecho minha última coluna de sábado em 2015 assim, reverberando os assuntos midiáticos de dezembro, que nada mais são que assuntos da vida também, afinal, já que todos querem falar e opinar sobre tudo, o tempo todo, fiz minha lição de casa.

Bom finzinho de ano a todos e feliz 2016!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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2 comentários:

Leandro Faria disse...

Amigo, que assunto polêmico. E adorei que você tenha escrito um texto com uma opinião diametralmente oposta à minha. Afinal, discutir é que amplia as ideias e consciências, não é mesmo?

Como falei contigo no Facebook, eu discordo veementemente. Apesar de adorar o trabalho do Paulo Gustavo e de me divertir com seus personagens, acho que a postura dele é, normalmente, um desserviço. Declarações lamentáveis e, agora, um casamento que poderia ter sido político, mas foi apenas material para revistas e sites de celebridades.

Como disse o PH, Paulo Gustavo prefere o papel de bicha divertida e escrachada ao de alguém consciente e atuante. Mais que isso, acho que apesar de fora do armário, Paulo Gustavo sofre de uma grande homofobia internalizada.

Mas essa é a minha opinião e acho maravilhoso a oportunidade de ler o que você escreveu e deixar o que eu acho aqui.

Beijão, meu querido!
Leandro

Shirley disse...

cara, de comentar sobre política e sobre Chico eu prefiro me privar. mas duas frases deste teu texto maravilhoso que eu vou guardar pra namorar:
"... elegância é uma palavrinha com a qual o brasileiro não está muito acostumado, nem com a palavra, muito menos com atitudes elegantes."
"Mas claro que houve os pentelhos de plantão querendo cagar regra, metendo o pau no Paulo Gustavo, porque pra subir mais um degrau na luta contra o preconceito ele TINHA que beijar o marido na boca, e de preferência um beijo bem babado e com bastante língua pra erradicar de vez o preconceito do Planeta."
acho, sinceramente, que casamento é coisa íntima, que os novos fazem a festa pra confraternizar com a família e com os amigos que torcem
pela sua felicidade. inclusive os artistas. eu nem gosto muito do Paulo Gustavo, acho ele meio antipático, mas nem por isso deixo de dar a ele o direito de fazer o que ELE quiser da festa dele.
enfim!
excelentes (e coerentes!) posicionamentos, os seus, Esdras - parabéns! Abraço!