quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Pais e Filhos





Meu filho vai ter nome de santo. Será? Na verdade, se a escolha passasse unicamente por mim, provavelmente não teria. Nada contra nomes de santos; afinal, eu, como Paulo que sou, carrego o de um dos mais famosos. Mas é que quando era pequenino, lá pelos meus sete anos, prometi a minha mãe que daria o nome do meu primogênito de João Victor (se bem que existe São João e São Victor, né?), depois de ela ter confessado que assim seria batizado um hipotético irmão meu. Tão hipotético quando esse filho biológico que eu julgava que teria com toda a convicção quando ainda era criança.

Se tem uma coisa em que a homossexualidade pode ser cruel com alguém muito bem resolvido com ela é em relação à limitação da reprodução com aquele que se ama, quando isso é um desejo íntimo dessa pessoa. Uma característica tão inerente a qualquer mamífero (heterossexual). Descobrir-se gay pode trazer diversas coisas a uma pessoa: autoaceitação, um relacionamento amoroso verdadeiro, sexo de forma completa... mas, definitivamente, não traz a possibilidade do cruzamento entre dois espermatozoides. Ou dois óvulos.

É verdade que existem diversas possibilidades de reprodução assistida hoje em dia, envolvendo legislações brasileiras e internacionais, que permitem pais e mães homossexuais a terem o seu próprio filho genético. Acreditem: já pesquisei todas. Nunca com a pessoa amada; com o óvulo e a barriga de terceiras. Vale a pena isso tudo para pagar pra ver se a criança terá os seus olhos ou a cor do seu cabelo? Se vai andar com os pés tortos como você? Se terá a sua quarta dobra a mais no dedo mindinho da mão esquerda? São perguntas não somente para você, leitor, mas para esse autor que vos escreve.

Recentemente a questão da paternidade tem me batido muito à porta. Cada vez mais se aproxima a idade em que eu e meu companheiro decidimos que seria a ideal. Aos poucos, colocamos em prática aquilo tudo que gostaríamos de fazer antes de termos filhos (como a recente viagem ao Peru, por exemplo). Vejo minha única sobrinha e os quatro sobrinhos do Cristiano trazerem para nossos irmãos exatamente aquilo que nós almejávamos, de forma quase onírica, termos quando nos tornássemos pais. E existe cobrança da família, sim! Ou vocês acham que o fato de ser gay não faz a avó perguntar quando o bisneto vai chegar? E a questão é sempre a mesma: “por que vocês não adotam?”.

Foi justamente daí que veio a reflexão desse texto. Além de um grande ato de humanidade, provavelmente a adoção será o meio que irá nos viabilizar o desejo de sermos pais. Ainda não decidimos nada a respeito desse futuro filho, a não ser que gostaríamos que ele tivesse algo entre dois e três anos quando o adotarmos. E a inquietação vem desse ponto: se queremos isso para daqui a cerca de dois anos, provavelmente o nosso filho já veio ou está para vir ao mundo.

Quando me dei conta disso, algo passou a me consumir internamente. Um misto de inquietação, medo e euforia. Ele já está entre nós? Quiseram os astros que ele fosse geminiano como eu? Ou capricorniano como o outro pai? Ou libriano, como ninguém da família? Terá ele cabelo enrolado? Liso? Crespo? Será destro ou canhoto? Terá que usar aparelho? Vai jogar futebol ou preferir xadrez? Vai ser bom aluno na escola como nós fomos, ou vamos penar para acompanhá-lo nos estudos? Vai gostar da minha comida? Terá ele nome de santo? Afinal, adotado, já trará seu primeiro nome consigo...

Longe da heteronormatividade, paternidade não é para qualquer um; sequer uma obrigação da humanidade. Ouvimos desde pequenos que, como seres vivos, nascemos, crescemos, nos reproduzimos e morremos. A única etapa conscientemente evitável nesse processo é a terceira. Hetero ou homossexual, é uma decisão sua ter ou não um filho. Tenho um grupo no WhatsApp com três amigas, na qual uma revelou que estava grávida e que teve que usar a tabelinha para encontrar a melhor época de ovulação; o mesmo método que a outra, que não quer ser mãe nunca, usava para resguardar-se de uma possível gravidez. É uma das máximas do filme Comer, Rezar e Amar, ter um filho é como uma tatuagem no rosto: você só pode fazer se tiver muita certeza de que não vai se arrepender.

Em um país no qual se questiona ainda se dois homens que se amam formariam ou não uma família, mas que permite um adulto sozinho a adotar uma criança, os gays que desejam serem pais vivem se equilibrando sobre a corda bamba de um paradoxo ululante. Tatuar o rosto parece ser ainda mais fácil nessas circunstâncias. Nada que nos faça abandonar nossos sonhos. Para aqueles que estão acostumados a receberem tantos “nãos” em relação ao amor ao longo da vida e, ainda assim, seguirem em frente quebrando paradigmas, a paternidade é apenas mais um desafio, como seria para o mais hetero dos heteros.

Afinal, se ele vai ter nome de santo ou não, pouco me importa. Contanto que tenha conosco o amor que um dia lhe foi negado por alguém. 

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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