sábado, 5 de dezembro de 2015

Retoque o Batom





- Oi, Dra., boa tarde!
- Boa tarde! Pode sentar ali.
- Bom, eu não sei por onde começar.
- Comece se apresentando. Diga seu nome, sua idade, profissão. E fique à vontade. Relaxe!
- Bem, meu nome é Suzana. Tenho 35 anos. E sou o que chamam hoje em dia de gastrônoma ou chef. Na verdade, sou cozinheira mesmo, é assim que me considero, sem essa pompa toda da nomenclatura. Tenho um pequeno ateliê de massas.
- Então você é uma empresária do ramo alimentício?
- Isso. Também é pomposo, mas pode nomear assim.
- E o que te traz aqui, Suzana?
- Ah, Dra. Vera, digamos que eu esteja passando por uma crise existencial.
- Prossiga. Me conte mais sobre essa crise.
- Você sabe, né dra., nós mulheres temos prazo de validade ou algo do tipo. E isso está começando a mexer com a minha cabeça.
- Explique melhor, Suzana. Que prazo de validade é esse?
- Ué Dra., o prazo de encontrar um namorado, casar, ter filhos, constituir uma família, enfim. Eu nunca fui de ter muitos namorados. Na verdade só tive um, e foi um desastre. Eu me apaixonei, depois ele me deixou, aí sofri feito uma condenada, até voltar pra pista novamente. Só que pra mim Dra., a pista está sempre vazia.
- Como?
- Doutora Vera, eu sou uma mulher feia?
- Que tipo de pergunta é essa, Suzana? Você é uma mulher bonita, e tenho certeza que você sabe disso. Sua crise não me parece de baixa auto-estima.
- Sinceramente não é, Dra. Sempre fui segura, confiante, alegre e realizada com as minhas conquistas profissionais. Mas o campo amoroso sempre foi desastroso. Até me acho bonita e vaidosa, apesar de gorda, mas sempre gostei de mim assim, afinal, eu adoro comer e não pretendo parar. Não é a toa que trabalho com comida. Mas eu quero um homem, Dra., um namorado, um marido! Quero me sentir amada, desejada, atraente, mas tem sido uma luta árdua encontrar alguém que me enxergue assim.
- Continue.
- Outro dia mesmo, eu estava no trânsito e dois carros estacionaram ao meu lado, um do esquerdo outro do direito. Os motoristas eram dois homens lindos. O da direita mais maduro, grisalho, com uma barba mesclada, usava um óculos escuro, uma camisa branca de listras verticais azuis e devia ter seus 40 e poucos anos, um espetáculo, Dra. Já o da esquerda era um ninfeto, carinha de bebê, branquinha, imberbe, cabelos negríssimos com um franjão caindo pro lado, não devia ter muito mais que 20, uma delícia de garoto.
- E o que aconteceu?
- O que aconteceu, Dra.? Nada né. Nunca acontece nada! O que eu quero dizer com essa história, é que me senti atraída pelos dois. Eu queria qualquer um dos dois. Eu não tenho mais critério, Dra. Não tenho mais preferência, nem tipo. Eu tenho é pressa. E isso é real, literal. Diante daqueles dois homens, parados ali do meu lado, de frente praquele farol vermelho, de repente me senti tão ridícula, desejando pessoas inatingíveis. Sim, porque eu tenho plena consciência que nenhum dos dois jamais se interessaria por mim. Não do jeito que eu queria. Não do jeito que eu me interessei por eles, em apenas um olhar. Eu não sou o tipo que atrai os homens pura e simplesmente. Sou no máximo a simpática, nunca a gostosa. Então, pra conseguir ficar com alguém, só depois de muito papo, muita piada e muito tempo fazendo a linha garota-divertida-e-legal-que-até-que-é-pegável.
- E o que mais?
- De repente, naquele momento em que me senti ridícula, no trânsito entre os carros daqueles dois homens lindos, também tive uma epifania. Pensei nos meus 35 anos, em como o tempo escoa muito rápido, e que a probabilidade de encontrar um companheiro, quiçá um amor, se afunila cada vez mais. A tendência é aumentar a dificuldade a cada passo da linha de chegada para o fim. Então, em vez de me desesperar e enlouquecer por não encontrar a tal alma gêmea que as comédias românticas me fizeram acreditar que existia, talvez o jeito seja aceitar que definitivamente ninguém precisa de outra pessoa pra ser feliz e ter uma existência plena. Parar de esperar por esse alguém com quem você vai dividir a vida e encarar com serenidade a possibilidade de uma velhice solitária, mas não necessariamente infeliz.
- Então, nesse pequeno momento de epifania no trânsito, você desistiu de encontrar o amor, é isso?
- Amor, Dra.? Amor que nada, desse eu já desisti há muito tempo. O que eu queria agora era só um cobertor de orelha, alguém pra dormir de conchinha, esquentar os pés nas noites frias. E olha que eu não sou exigente. Já transei com homens horrorosos. Até com mulher já experimentei, mas não é minha praia. Tudo por pura carência, medo de ser sozinha. Eu também já fui tão usada, sabe? Já dormi com homens que no dia seguinte me trataram como lixo. E tem aquelas pequenas humilhações que a gente finge que não sentiu pra não passar mais vergonha.
- Como assim? Que humilhações?
- Uma bem simples e dilacerante pra mim. Eu e Michele, minha melhor amiga, fomos à uma balada. Eu tava louca pra beijar na boca, mas Michele avisou que não ficaria com ninguém aquela noite. Michele é linda, tem um corpo belíssimo, mignon, bem menor que eu, seios fartos e cinturinha de pilão, uma graça. Nas festas, ela fica com quem quiser. Já a vi ficar com 10 em uma noite, meu recorde foi três na mesma noite. Mas eles me beijam e saem fora. Com Michele é diferente, eles querem ficar com ela a noite toda, ainda insistem pra trocar telefones. Michele me humilha sem saber, mas a culpa não é dela, eu sei. Só que nessa última noite que saímos juntas, assim que chegamos, botei os olhos num barbudo que me atraiu de imediato. Enquanto dançávamos, o tal cara não parava de olhar em nossa direção. Eu já estava toda alegrinha, achando que os olhares dele eram pra mim. Michele não estava nem aí. O barbudo olhou, olhou, até que atravessou a pista e parou do lado de Michele, que o ignorou solenemente. Eu me senti péssima, mas uma exultação íntima gritou dentro de mim quando Michele deu o fora no cara que eu queria. Um tempo depois, eu continuava secando o barbudo, não conseguia parar de olhar pra ele, então fiz algo vergonhoso.
- O que você fez, Suzana?
- Algo que nunca tive coragem, mas depois de uns drinques, eu já estava meio altinha, cheguei no cara e disse: minha amiga não quer ficar com você, mas eu quero.
- E qual foi a reação do rapaz?
- A pior possível. Disse que ainda não tinha bebido o suficiente pra ficar com alguém feito eu.
- E você?
- Meu coração rachou ao meio, Dra. Senti meus olhos encherem d'água instantaneamente. Saí como um vulcão em direção ao banheiro e chorei por uns vinte minutos, de soluçar. Depois lavei o rosto. Retoquei o batom. Voltei pra pista como se nada tivesse acontecido e dancei como se tivesse possuída por um demônio até o dia clarear.
- E foi bom, Suzana?
- Foi libertador!
- Ótimo! Por hoje nosso tempo acabou.
- Mas já, Dra. Vera? Você não tem nada pra me dizer? Um feedback de tudo que foi falado aqui.
- Continuamos na próxima semana, Suzana. Mas hoje o meu conselho é, aconteça o que acontecer, não importa a situação, nunca se esqueça de uma coisa: retoque o batom!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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