domingo, 27 de dezembro de 2015

Se Organizar Direitinho, Todo Mundo Transa





Fosse eu uma pessoa mais desonesta, atrairia os cliques de vocês dizendo que esse é um texto sobre sexo. Bem... É, mas não é. É mais sobre a corrida de obstáculos na lama que parece ter se tornado obtê-lo depois que decidi desenvolver um senso mínimo de auto-respeito. No meu último texto, toquei brevemente no assunto ao comentar que o fim do meu 2015 foi de atípica LISURA. Sabem… Eu sou bem aberta acerca da minha vida amorosa - sendo “amorosa” uma palavra muito forte para descrever esse aspecto particular da minha existência. Não faço rodeios para pegar gente que me interessa. Isso enquanto pessoa sóbria. Quando estou bêbada, então... Nem precisa me interessar muito. Não tenho grandes exigências físicas (evitar regatas ajuda, mas até isso se mostrou negociável após descobertas recentes), não busco grande conexão intelectual em parceiros sexuais e compromisso, já aceitei, não chega a ser meu forte. Não marco em cima, faço questão de rachar todas as contas - inclusive a do motel - e não forço conexões emocionais. Não as descarto, também, mas a verdade é que faz tanto tempo que não vivo uma, que começo a me questionar se são apenas produtos da minha imaginação. Meus padrões são, para todos os efeitos, de médios para baixos - afirmação facilmente verificável com as amigas que vez ou outra têm que exercer o poder do veto ou fisicamente me remover de situações de perigo. Mas, de alguma forma, mesmo com toda a minha absoluta facilidade, as pessoas ainda conseguem, milagrosamente, me dar preguiça. Isso mesmo que vocês ouviram. Preguiça de transar. A que ponto chegamos.

Recentemente, tive uma conversa com amigos gays maravilhosos que estavam me contando sobre suas aventuras sexuais. Comentei com eles que estava com certa invejinha, considerando o estado de aridez de minhas partes íntimas. Eles perguntaram os motivos, dado que eu claramente não colocava muitos obstáculos para a prática sexual (tentei aceitar como elogio?) e, embora não seja nenhuma Adriana Lima, não chegue a ser muito repugnante (outro elogio, talvez?). Pra eles, homens heteros, em tese, deveriam achar isso legal. Bem, estereótipos de orientação sexual à parte - eles existem dos dois lados, mas nessa conversa havia apenas uma curiosidade natural e gentil para entender as dinâmicas específicas de relacionamento entre o mesmo sexo e os opostos -, comecei a pensar.  Por conta de pressões e expectativas sociais muito específicas, a relação homem + mulher tende a cair em armadilhas próprias. E, como parto da minha própria experiência para escrever este texto, é delas que irei falar. Se tem tanta garota que, como eu, só quer transar, e tanto homem que, como a gente, também só quer transar... Cadê a dificuldade, Brasil? Por que essa galera não se encontra e resolve essa parada? Essas questões de relacionamento são obviamente muito profundas e, depois de tantos estudos buscando decifrar os mistérios das interações amorosas, não sou eu que vou surgir com um plano de ação eficiente em 10 minutos. Mas, baseando-me no meu círculo de convivência, compartilho com vocês alguns dos problemas que encontro ao sair do conforto das minhas maratonas de documentários tristes para aventurar a selva da vida solteira. E disserto um pouco sobre como a consciência que adquiri em relação a pensamentos problemáticos sobre a mulher diminuiu amplamente minha disposição para superar disparidades intelectuais em prol de noites de sexo marginalmente satisfatório com semi-conhecidos.

Algo que destrói instantaneamente meu interesse são as frases feitas que já estabelecem de cara que homens e mulheres estão obrigatoriamente em frequências diferentes. Coisas como “homem é assim mesmo” ou “tem muita mulher maluca”. É impressionante como, dependendo da conveniência, as pessoas superestimam a biologia e subestimam o poder da sugestão social. O homem não nasce com um grande botão vermelho que é acionado toda vez que surge a ideia de compromisso. Da mesma forma que a mulher não vai necessariamente querer namorar o elemento genérico de blusa da Reserva que conheceu depois de três tequilas e uma noite decepcionante de sexo. Embora sejamos de uma geração supostamente mais sagaz em relação a essas coisas, acabamos muitas vezes caindo nos papéis de gênero que nos foram impostos a vida inteira. Aquela velha máxima do “homens são de Marte, mulheres são de Vênus”, que eu AINDA ESCUTO às vésperas de 2016. Queridos, somos todos dessa mesma bosta que é a Terra. Nosso barco vai afundar junto. Obviamente, temos diferenças biológicas; mas não foram elas que criaram esse abismo. Quando você fala que “mulher é louca pra casar”, talvez valha refletir sobre o quanto do valor da mulher foi historicamente associado à ideia de casamento por tanto tempo. Ou antes de criticar a mulher que “quer ter filho logo”, vale pensar que somos ensinadas desde crianças que filhos são a melhor coisa que nós, os receptáculos de esperma, somos capazes de gerar nessa vida. Acrescente aí que nossos úteros têm prazo de validade, e dá pra entender porque tantas de nós perdem um pouco o prumo. Ou seja, a mulher “louca pra se comprometer” talvez seja uma garota que ouviu desde que nasceu que o dia de seu casamento vai ser o mais glorioso, que seus filhos vão ser sua maior realização, e que seu valor está intimamente associado ao de outras pessoas. Então, quando eu escuto de um homem que eu “não sou como as outras”, é como se botassem sílica diretamente no meu canal vaginal. Não é elogio pra mim. É ofensa pra todas. 

E nisso da “mulher maluca” e do “homem cachorro”, acabamos fazendo uns teatrinhos cansativos e enjoados, tanto pelo medo de sair do estereótipo quanto pelo de corresponder a ele. A ideia do “jogo da conquista” como algo inevitável acaba criando uma dança complicada que impede coisas legais de começarem e coisas abusivas de chegarem ao fim. Várias vezes, já me peguei sendo ativamente fria e escrota com caras em que até tinha interesse, pelo simples medo deles acharem que eu queria algo a mais. Ou seja. Por medo de corresponder ao estereótipo da “mulher apegada”, eu, a esclarecida-cabeça-aberta-geração-feminismo, caí nesse maldito cabo-de-guerra emocional que tanto abomino. Do outro canto, já vi vários caras se prestando a papéis absolutamente ridículos para provar sua apatia viril, provavelmente por terem tatuada na cabeça essa ideia de que a garota inevitavelmente iria querer algo mais sério. Quando talvez eles até pudessem querer algo também, quem sabe, no futuro, mas tivessem medo das coisas irem rápido demais. Não, cara. Não. Às vezes a garota, assim como você, só quer transar. E aí, nesse malabarismo exaustivo, perdeu-se a chance ou de um relacionamento legal ou de noites de sexo louco. SEXO. SENDO. DESPERDIÇADO. Tudo porque parecemos incapazes de abordar de forma sincera e autônoma nossas próprias vontades e intenções. E mais incapazes ainda de comunicá-las aos nossos parceiros. Vocês não ficaram cansados só de ler isso? Porque eu fiquei cansada só de escrever. E aí, já antecipando todo esse espetáculo performático, eu acabo deixando de responder a uma mensagem. Ou de mandar outra. Ou broxando instantaneamente com caras que acham que estão sendo espertões em suas tentativas claras de me manter a uma distância segura, como se eu fosse algo a ser administrado, quando a ideia sempre foi apenas convidá-los para uma festa a dois em minhas calças. Viram como todo mundo sai perdendo?

Outra preguiça é o papo de “mulher pra casar”. Sim, AINDA. Pode parecer bizarro para os meus amigos mais esclarecidos - e é pra ser mesmo -, mas é só eu sair levemente da minha bolhinha de textões do Jean Wyllis e posts do Sakamoto, que me deparo com variáveis dessa expressão jogadas casualmente em rodas de conversa. Acreditem, eu sei que isso ainda existe. Eu sei porque já ouvi, de novo e de novo, que meu ~problema~ é que eu sou solta demais, e que os caras me veem como alguém “pra pegar”. Pior é que escuto muito isso de “amigos” (ainda não consegui educar a todos, estamos trabalhando nisso), que jogam esse tipo de coisa achando que é uma brincadeira amigável, uma observaçãozinha inofensiva. Não é. É o reforço de uma ideia muito escrota à qual já fui exposta de maneiras muito menos amigáveis e inofensivas. Eu, de fato, na maioria das vezes só quero “ser pegada”. Assim como várias outras garotas, e vários outros caras e, de repente, até alguns golfinhos. Quando dizem isso, o problema não é insinuar que a pessoa não quer compromisso. É agregar à ideia de “pra pegar” uma carga pejorativa, intimamente ligada a um histórico de desprezo à mulher que, por qualquer motivo, não se destina ao matrimônio. Por mais que a gente goste de pensar que superou esse tipo de coisa, continuamos presos na classificação de “garota para levar para o motel” e “garota para apresentar para a mãe”. Permanece, apesar de tudo que já desconstruímos, a ideia da mulher que “não se dá ao respeito”. Dia desses vi uma foto de uma garota com um short curto e um cara do lado. A legenda era algo como “esse cara merece ser corno”. O motivo: ele DEIXOU a mulher sair daquele jeito. E tinha, é claro, um monte de compartilhamento, um monte de comentário parabenizando a observação, tão “corajosa nos dias de hoje”. E isso me dá um puta desânimo de sair da minha casa. De me expor a esse tipo de pensamento e de comentário dos outros. De correr o risco de sair com um cara que pensa dessa forma, e que fale essas coisas de mim por aí. Sou independente, cago pro pensamento dos outros, mas no fim do dia eu sou gente. E canso.

E isso tudo é o drama só pra TALVEZ conhecer alguém OK pra DE REPENTE ter um LANCE CASUAL numas de QUEM SABE. Nem comento pra vocês a dose extra de preguiça que vem com a ideia de me envolver de fato, antecipando a dificuldade de explicar, entre outras coisas: porque jamais adotarei o sobrenome de um cara; porque não quero ter filhos nem hoje nem nunca; porque não vou ouvir piadinha de vovô machista calada por mais que, coitado, ele seja velhinho; porque compro briga com os amigos na mesa do bar mesmo que isso crie climão; porque bebo cerveja demais e arroto e falo palavrão; porque uso shortinho no meio da bunda com a polpinha toda aparecendo e foda-se todo mundo encarando… Enfim, porque me dou o direito de ser como eu sou sem deixar que minha vagina determine mais do que ela biologicamente pode determinar. Ser mulher e ousar pisar fora das inúmeras caixinhas em que você foi colocada a vida toda é um processo tão longo, tão complexo e com chances de sucesso tão baixas que a vontade, às vezes, é de desistir.

E é isso. Antes de escolher um bar pra ir, antes de responder àquela mensagem que pode ou não ser bem intencionada, antes de considerar lavar o cabelo e botar um soutien e calças e enfrentar o mundo… Penso nessas coisas todas. Calculo minhas chances de sucesso. E, na maioria das vezes, a matemática me diz pra ficar em casa. Assistindo a tutorial ensinando delineador gatinho, que eu ganho mais. A gente complica o que podia ser tão fácil. Por isso que, quando falo de comportamentos masculinos que incomodam, não me sinto corroborando o estereótipo comumente associado ao feminismo de ódio aos homens. Muito pelo contrário. O que eu tanto tento explicar é que não tem isso de homem ser isso e mulher ser aquilo. O que tem são construções sociais que nós teimamos em reforçar, sem sequer pensar a respeito de quem estamos de fato beneficiando com elas. 

Minha proposta pra 2016 é que, antes de adotarmos determinadas posturas, pensemos sobre os nossos verdadeiros motivos. Respeitemos nossas vontades e personalidades. Sejamos sinceros, em nossos pensamentos e atitudes, em relação ao que queremos construir - ou apenas curtir - com possíveis parceiros. No fim das contas, todo mundo sai ganhando. Se organizar direitinho, todo mundo transa.

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Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso, escrevendo sempre no último domingo do mês como convidada aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Homem, Homossexual e Pai disse...

exelente texto! muito bom mesmo! feliz 2016

Anônimo disse...

Acompanho vc pelo twitter e descobri o site. Li vários textos. Salvei um pra mostar ao meu filho quando mais velho um pouco (hj tem um ano).