domingo, 20 de dezembro de 2015

Uma Brasileira na Irlanda: Oito Meses... Aqui, Ali e Acolá!





No dia em que completo oito meses longe de casa e da minha tal “vida real”, senti a necessidade de transcrever meus sentimentos, pela primeira vez, em forma de linhas. Talvez isso seja saudade. Talvez seja a vontade de fazer a mesma coisa que os amigos: pegar um avião e passar o final de ano perto do sol e da minha família. Talvez seja apenas ociosidade e frio (nesse momento, o termômetro marca -4 graus). Seja qual motivo for, o fato é que tudo mudou nesse “curto” tempo, principalmente eu, e por conta disso preciso escrever. 

Para ninguém ficar perdido nessa crazy story, começarei do óbvio: do dia em que euzinha desembarcava na desconhecida Irlanda (Dublin) com uma mala na mão, uma mochila nas costas, sem inglês e um carrilhão de dúvidas e medos. Os primeiros dias, lógico, foram dramáticos, como tudo na minha vida. Cai literalmente de paraquedas num hostel lotado e com a única informação que, durante duas lindas semanas, dividiria o meu espaço/quarto com mais 32 pessoas. Era como um campo de concentração moderno, com camas, roupas e malas para todos os lados, wifi e TV. Sem expertise no ramo do intercâmbio, me desesperei e chorei litros por dias. Xinguei o universo e me culpei por ter a sábia ideia de largar tudo e apenas partir, porque estava cansada da minha vidinha repetida no Brasil. 

Nesse período, na minha “nova casa”, pensei (e quase fiz) em pegar os meus pertences e voltar para o aconchego do meu lar, para o colo quentinho da minha mamusca. Mas, ‘peraí’, e os meus sonhos? Os euros que tive que comprar? O tal programa de inglês importantíssimo para o meu currículo? As novas histórias? “Raquel, minha filha, você é mais e mergulhe de cabeça nessa oportunidade. Você está na Europa, gata!”, pensei com a ajuda de um senhor que enxugava as minhas lágrimas no tal hostel do horror. Pois bem, assim fiz (com um pouco menos de confiança) e me joguei nessa nada mole vida! 

Mudei de acomodação, comecei na escola, arrumei alguns barracos e fiz amigos brasileiros, coreanos, italianos, espanhóis, mexicanos, franceses e TURCOS. Ahhhh... os turcos! Eles, definitivamente, gostam de mim. E foi por causa de um deles que construí uma das histórias mais insanas da minha vida. O rapaz, que conheci num pub latino e só falava turco, se encantou pelo meu rebolado brasileiro. Até hoje, quando lembro desse episódio, me pergunto como eu conseguia entendê-lo. Talvez em outra encarnação minha primeira língua era turco, vai saber?! 

Tudo corria bem, ao gosto da boa e velha Guinness, até eu ter as primeiras inimizades. Levei algumas rasteiras e tapas na cara do destino para perceber que nem todo mundo tem o coração leve e bom. Tive que aprender na marra a diferenciar o joio do trigo e, em muitas vezes, deixar as emoções de lado. A primeira lição dessa minha nova vida foi: tudo num intercâmbio pode se tornar maior do que de fato é, inclusive as decepções. Portanto, pare, pense e não pire! 

Após sofrer novamente por dias, decidi seguir o meu caminho sem meia dúzias de pessoas. E assim aconteceu. Me permiti às novas amizades e mais histórias. Comecei a construir aventuras com os meus incríveis flatmates no pagodinho de quarta, nos nightclubs de terça, quarta e domingo. Também tinha tempo para dar boas gargalhadas na sala mais charmosa de toda a Irlanda (mentira! A sala é uma geleira e não tem nada de charmosa). E foi nesse mesmo local onde conheci um certo espanhol que em 20 dias virou a casa do avesso. O rapaz boa pinta, com ar de galanteador, era um espertalhão e gostava mesmo era de levar vantagens e comer tudo que não era seu. Óbvio que esse episódio rendeu grito, porrada e bomba na minha querida St Judes e me fez aprender a segunda lição: mexam comigo, mas não mexam na minha comida. Intercambista que se preze guarda o almoço para a janta e conta as moedas para as compras da semana. 

Com o espanhol fora da St Judes e a vida seguindo seu rumo, era hora de novas preocupações. Dessa vez, os enlouquecidos foram os meus amigos, que não aguentavam mais a minha chatice do “eu não estou aprendendo inglês nesta bosta de Irlanda”. Uma paulista gente boa, que conheci no primeiro dia de aula, até tentou me animar por muitas vezes, dizendo que eu estava melhor do que de quando cheguei. Aliás, com ela, vivi nesses oito meses de tudo um pouco: cansaço em Londres após andar intermináveis horas com uma louca que se achava nossa guia turística e estava mais perdida que cega em tiroteio; pilequinho na porta do Louvre, em Paris; mar revolto em Gales; vida boa com muita comida e cerveja barata em Madri; duas horas de andança com malas pesadas por toda Toledo atrás de um hostel (de quem foi a ideia de ir para a Espanha sem acomodação garantida?); além da minha festa surpresa (que não era mais surpresa, por causa daquelas inimizades que citei lá em cima) de aniversário. Graças a ela, tive um bolo delícia de morango com chocolate e a festa mais doida da minha vida, com direito a desconhecido bêbado, vizinhos penetras, pegação entre casais e um não casal, muito amor e vômito. Tudo do jeitinho baphônico que adooooooro. Também com ela, aprendi a terceira lição: é possível criar laços sinceros nessa jornada insana e levá-los para onde quer que eu esteja. 

Deixando a preocupação do inglês um cadinho de lado para falar de coisa mais séria, percebi que não sou uma pessoa preparada para dizer “até logo” ou “adeus” para aqueles que, por algum tempo, foram minha família. Em cada despedida, chorei feito criança na minha cama quentinha (com a ajuda da minha ultra bolsa de água quente) e jurei controlar as emoções na seguinte. Promessa em vão! Quando o meu carioca favorito voltou para a sua casa, o coração ficou miudinho e a sensação de estar sozinha numa casa grande e fria bateu para valer. Foram dias insistindo com o meu psicológico que tudo ficaria bem e não tinha necessidade para pânico. E quem disse que o meu eu acreditou nisso? Bastou a visita dos meus pais aqui para as emoções se embaralharem ainda mais. No dia da despedida, no aeroporto, após 22 dias de muita loucura pela minha querida Portugal, Irlanda e uma esticadinha até a Espanha, me tranquei no banheiro e só sai de lá quando não havia mais lágrima. A vontade que consumia meu coração era de pegar o avião também de volta para casa, para ficar ao lado dos meus. Nesse dia, constatei a quarta e mais importante lição: nada nesse mundo é mais valioso do que estar ao lado de quem a gente realmente ama. Dói muuuuuuuuito dizer “tchau”

Depois de alguns dias na fossa, eu precisava levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Não havia mais tempo para choros e lamentações. A hora agora era destinada a procurar um emprego (puta merda!), porque o dinheiro já estava no fim. Currículos na mão e andanças intermináveis na chuva, encarei por longos 30 dias muita gente grossa e desinformada. Pensei por muitas vezes em desistir e parar de procurar, mas como uma boa brasileira... não desisto nunca! Participei de entrevistas, esperei dias por ligações que não aconteceram, me cadastrei em sites de emprego, limpei chão em alguns intervalos e encontrei uma família disposta a me acolher como chilminder (uma espécie de babá que ganha por hora e tem alguns trabalhos domésticos a exercer). No primeiro dia, muita confusão e gritaria em inglês (claro!). As duas lindas menininhas que tomo conta têm muita disposição para aprontar e me deram literalmente um banho de água fria ao me derrubar numa banheira. Na quinta lição, eu só repetia: paciência, Raquel! Paciência! Muuuuuuuuuuuita paciência! No caminho de volta para casa, encharcada e com um frio de bater os queixos, ri (mesmo com o ódio dominando o meu coração) e agradeci por todos os abacaxis até aqui descascados. 

Hoje, após oito meses tentando me descobrir, tenho a sensação que sou mais forte do que imaginava e posso (siiiiiiiim!) driblar os obstáculos e a saudade que, por muitas vezes, é avassaladora. As dificuldades continuarão a existir, eu sei. Aliás, sem elas, não haveria história para contar e tampouco aprendizado. Hoje, com um pouco de experiência nessa vida imprevisível fora de casa, tenho a certeza que fiz a melhor escolha da minha vida: ir em busca dos meus sonhos. E que, através deles, eu continue tendo forças para seguir em frente. 

Que venham os próximos quatro meses, quando meu intercâmbio acaba, com mais histórias embaraçosas e engraçadas.

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Leandro Faria  
Raquel Andrade é jornalista, niteroiense e noveleira. Tem 29 anos, ama romance, balada, sol, praia, cerveja, dobradinha e não dispensa o bom e velho arroz com feijão. Atualmente, mora em Dublin (Irlanda), estuda inglês, passa muito frio e não se arrepende de estar desbravando os quatro cantos da Europa. Seu sonho é seguir conhecendo o mundo.
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