sábado, 23 de janeiro de 2016

Alguma Coisa Acontece no Meu Coração...




Na próxima segunda, 25 de janeiro, é o aniversário de uma velha senhora. Uma quatrocentona refinada e popular, altiva e humilde, simples e complexa, imensa e acolhedora, boêmia e workaholic, verdejante e acinzentada, linda e horrorosa. A grandiosa São Paulo completa 462 anos. A minha, a sua, a nossa "pauliceia desvairada" sopra mais uma velinha e, por ser essa mãezona hospitaleira e indiscriminada, é a minha homenageada de hoje no Barba Feita. Por tudo o que representa pra mim e pra milhares de cidadãos brasileiros e estrangeiros que nela residem, ou já residiram, ou ainda, apenas visitaram e se encantaram pela "terra da garoa", ela merece não só essas simples linhas, mas todas as homenagens possíveis. Como a parte que me cabe nesse latifúndio é "apenas" escrever, aí vão minhas mal traçadas e amorosas linhas.

Minha relação com São Paulo é relativamente recente. Começou com uma paixão fulminante, e vem se consolidando a cada dia como uma serena relação de amor. O início de tudo foi em 2009, após seis anos morando em Porto Alegre sozinho, desde que saí da casa dos meus pais aos 21 anos. Depois de tentar me estabilizar na capital gaúcha e esgotar todas as possibilidades, precisava desesperadamente de uma rota de fuga, mas a maior cidade do País nunca havia me ocorrido, apesar de me considerar cosmopolita e amar os grandes centros urbanos. São Paulo sempre me pareceu imensa demais, caótica e opressora, nunca me passou pela cabeça viver nela. O mais engraçado é que eu nem sequer conhecia São Paulo, a não ser pelas novelas de Sílvio de Abreu e Walcyr Carrasco. Mesmo meu pai sendo paulista de Santos, litoral norte, bem como toda a família dele; boa parte da família da minha mãe, que é nordestina, vivendo em Santos; e eu passando praticamente todas as férias da minha vida em Santos, São Paulo nunca me despertou interesse algum. Até 2009...

No dia 11 de maio, desembarquei em solo paulistano. E o que me parecia um gigantesco monstro, prestes a devorar qualquer um que dele se aproximasse, sem dó, logo de cara mostrou-se um universo sedutor, envolvente e repleto de infinitas possibilidades. Gigantesca sim. Perigosa, às vezes. Assustadora talvez. Mas grande, acolhedora e hospitaleira como coração de mãe. Aqui, consegui em uma semana a colocação profissional que procurei encontrar em Porto Alegre durante cinco anos. Por aí já dá pra ter uma ideia de que o velho e batido clichê é mesmo verdadeiro: São Paulo é a terra das oportunidades.

E os dias, semanas e meses passaram-se como se eu nunca tivesse vivido em outro lugar. Me adaptei à vida em Sampa muito rapidamente, e minha identificação com essa megalópole foi imediata. Em pouquíssimo tempo não tive dúvidas, São Paulo era o meu lugar, onde iria plantar, colher e usufruir as minhas conquistas e realizações.

Infelizmente, o destino nos prega peças. Às vezes, dá com uma mão e nos tira com a outra, e em menos de um ano, me vi obrigado a deixar a cidade e voltar pro Rio Grande do Sul. Fui com o coração partido. A trilha sonora que não saía da minha cabeça era Por Enquanto, e trechos como: "Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o "pra sempre" sempre acaba?" e "Nem desistir, nem tentar, agora tanto faz, estamos indo de volta pra casa", me faziam chorar repetidamente. Eu estava magoado. Estava voltando pra casa e isso não era motivo de alegria. Era um retrocesso. Mas, como na vida muitas vezes é preciso dar um passo pra trás para avançar dois, no dia 24 de março de 2010 estava de volta às raízes gaúchas, numa pequena cidade litorânea de 40.000 habitantes, contrariado, mas ciente de que era um mal necessário, e apenas um objetivo em mente e uma certeza no coração me consolavam: voltar para São Paulo, a cidade que tinha me fisgado de uma vez por todas.

Foram um ano e três meses resolvendo pendências, planejando e juntando grana pra voltar pra "terra da garoa" em definitivo. Mas, por incrível que pareça, foi um período incrível, um período sabático, de reflexões, reavaliações e auto-conhecimento, que me fizeram voltar à São Paulo mais maduro, sereno e inteiro. Em 19 de junho de 2011 retornei à cidade do meu coração, minha adotada Sampa. E lá se vão quase 5 anos.

Nesse tempo, nada mudou referente aos meus sentimentos para com São Paulo. Nunca quis voltar às minhas origens e mal sinto saudade de Porto Alegre, que gosto imensamente. Isso quer dizer que São Paulo me completa e me supre de tudo que preciso, e olha que nossa relação mal começou. Ainda há muito o que desvendar e extrair dessa gigante, ora luminosa ora obscura, mas sempre fascinante.

Nesses cinco anos, nada foi um mar de rosas. Houve e ainda há momentos terríveis, em meio à muita batalha, empregos ruins, dinheiro contado, saudade de mãe. Mas, depois das tempestades, sempre surgem os arco-íris, renovando as energias para as novas batalhas. E esse ano, depois de muitas lutas, a bonança finalmente está prestes a se instalar. Empregos ruins, dinheiro contado, saudade de mãe, serão compensados em breve com o término da minha graduação, que abrirá as portas que tanto almejei e que vislumbrei lá em 2009. Parece muito tempo, mas seis anos passaram tão depressa. E foi rápido, porque na mesma medida que São Paulo te massacra com a rotina insana do dia a dia, ela te possibilita sonhar. São incontáveis válvulas de escape que compensam a loucura de viver na maior cidade do Brasil, e vale muito a pena.

Vale a pena pela mistura, pela diversidade, porque como escreveu Caetano em sua Vaca Profana, "São Paulo é como o mundo todo". É terra de negro, branco, japonês, árabes e judeus. Terra de cariocas, nordestinos e gaúchos.

São Paulo é como cantou Rita Lee, em Vítima, tem um frio que te faz transpirar. Sintetizando bem, no próprio clima, sua diversidade, quando podemos ter as 4 estações num mesmo dia; e também sua incoerência em tantos pontos, que lhe confere um charme todo especial.

São Paulo, apesar de imensa e cheia de gente, também produz pessoas solitárias, como musicou Vanessa da Matta, em Vermelho, ao citar o coração da cidade, no trecho: "O velho gasta a solidão, em meio aos pombos na Praça da Sé".

Inspiração para tantas outras canções, São Paulo é horrorosa porque tem a cracolândia, mas é muito mais linda porque tem um monte de coisas mais bonitas do que feias. Tem o Mercado Municipal, com seus famosos e deliciosos sanduíches de mortadela. Tem os parques mais bacanas, que conferem à cidade o espaço verde necessário e essencial a todos: Ibirapuera, Villa Lobos, Aclimação, Parque do Carmo, Jardim Botânico, Victor Civitta e Pôr do Sol. Tem a linha de metrô mais legal do Brasil. Tem os melhores restaurantes, onde se encontra a culinária de qualquer lugar do mundo. Tem Museus incríveis: MASP, MAM, MIS. Tem o Memorial da América Latina. Tem o Edifício Copan. Tem a USP. Tem o magnífico Teatro Municipal. Tem a Casa das Rosas. Tem a Ponte Estaiada. Tem um monte de Cafés bacanas. Tem os melhores Centros Culturais. Tem shoppings pra todos os gostos. Tem as baladas mais diversas e divertidas.

São Paulo é cenário. Tem arte e cultura saindo pelos poros. Tem literatura, cinema, teatro, fotografia, pintura. Tem sons, samba, pagode, rock, MPB e uma infinidade de estilos musicais que aqui nasceram, se criaram e ganharam o mundo. Tem a maior Parada Gay do Planeta. Tem Fernando Haddad, o prefeito mais simpático e proativo do qual já tive notícia, e que tenta tornar São Paulo cada vez mais agradável de se viver.

Mas, acima de tudo isso, São Paulo tem gente, dos mais variados tipos. De todas as cores, jeitos, estilos e ideologias. Gente que faz a cidade andar, fervilhar, acontecer. Gente que colore, embeleza, transpira. E uma gente especial pra mim, que a cidade me deu de presente: Renato, Célia, Sergio e Luli. E é essa gente que me dá a base pra não fraquejar, que às vezes acredita mais no meu sonho do que eu mesmo, e me impulsiona quando estou quase perdendo as forças.

E assim, como entoou Caetano (de novo), alguma coisa acontece no meu coração, mas não é só quando cruzo a Ipiranga com a Avenida São João, mas quando cruzo a República, o Anhangabaú, o Viaduto do Chá, a Bela Vista, a Augusta. Alguma coisa acontece no meu coração quando ando pelo Centro velho, pela Consolação, pela Angélica, quando caminho pela 23 de Maio. Alguma coisa acontece no meu coração quando estou em Santana, na Barra Funda, na Lapa, em Santo Amaro. Quando passeio pela Frei Caneca, Vila Madalena, Vila Mariana, Paraíso e Liberdade. Alguma coisa acontece no meu coração quando vou à Santa Cecília, Jardim Europa, Morumbi e até Itaquera. E, principalmente quando flano pela Avenida Paulista, alguma coisa acontece no meu coração. Pulsação. Viver em São Paulo faz meu coração pulsar de alegria e satisfação. Viver em São Paulo é o maior tesão.

Feliz Aniversário, São Paulo! Happy Birthday! Feliç Aniversari! Shengrì Kuàilè! Feliz Cumpleaños! Joyeux Anniversaire! Charoúmena Genéthlia! Buon Compleanno! Tanjo bi omedeto!


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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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