quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

As Pintosas de um Brasil Varonil




Segundo o dicionário Michaelis, “conhecer pela pinta” é “deduzir, pela aparência, que espécie de indivíduo é”. No dicionário informal, pinta tem diversos significados; no da sexualidade, há duas vertentes: pintoso – o cara que tem lá o seu charme; e pintosa – o popular afeminado (como sempre, o mesmo adjetivo, no feminino, em tom depreciativo). Por esses dias, o assunto ficou em voga devido aos trejeitos do tal novo BBB Renan, que levantaram suspeitas sobre sua sexualidade e renderam até defesas veementes em público de que o cara seria espada.

Nosso amigo e idealizador desse Barba Feita, Leandro Faria, publicou aqui em sua coluna na segunda a respeito do assunto, questionando o debate em torno da orientação sexual do belo modelo – talvez se não fosse belo, não teríamos sequer essa discussão pública; afinal, é um senso comum, das antigas, de que os mais bonitos têm garantido seu sucesso com as mulheres e não precisam “optar” por serem gays (e, acreditem, ouvi isso novamente há bem pouco tempo). A mim, não me importa se ele é hétero, homo, bi ou pansexual. A real discussão aqui é em torno da pinta. Aquela que, como o Michaelis, fala sobre que espécie de indivíduo é: nesse caso, o afeminado. A pintosa. Qual o verdadeiro incômodo que a pinta traz para tanta gente? Inclusive para os próprios gays.

É perfeitamente compreensível alguém não se sentir atraído por outro que “dá pinta”. Assim como alguns não gostam de abacaxi e outros de uva, como uns gostam somente de mulher, outros de homem, outros de mulheres e homens, ou se sentem atraídos apenas por morenos(as), loiros(as) ou negros(as). Pode ser uma questão de preferência. Mas o que leva isso à rejeição? O que torna um afeminado em um enjeitado e marginalizado? O simples fato de ele ser alguém com quem o seu gosto não bate? Ou o fato de ele escancarar pra uma sociedade que, sim, existem pessoas fora do rótulo papai-e-mamãe dos quais fomos habituados; ou que, pasmem, existem papais que querem continuar sendo papais, mas com trejeitos de mamães.

Até porque, convenhamos, quem inventou que homens e mulheres devem se comportar como tais se comportam? Milênios de uma humanidade que sempre subjugou mulheres e o que remetia a ela a sua parte mais fraca – e que sempre a culpou biblicamente pelos grandes erros e derrapadas da humanidade, de Eva até Maria Madalena?

Lembro-me quando tinha meus 13, 14 anos e fui ao cinema com um amigo em Icaraí, Niterói. Era uma coisa muito corriqueira para mim, mas esse dia me marcou muito por um acontecimento: andando pela galeria do cinema, ouvi dois adolescentes, aos risos, me mandando “parar de rebolar”. Aquilo me chocou de uma forma tremenda; primeiro que, de todos os bullyings que eu já havia sofrido na vida, definitivamente eu nunca havia ouvido que rebolava. Eu mesmo nunca tive essa percepção e, na minha cabeça pueril, se o fizesse, minha família já teria me dado uma reprimenda; logo, quem eram aqueles dois paspalhos para me chamar a atenção? Mesmo assim, passei semanas me preocupando em andar feito um machão, algo que nunca faria sentido tendo em vista a minha personalidade. E junto com a chamada de atenção, eclodem outras implicâncias que você, ainda criança, ouve: “senta direito na cadeira!”, “não ajeita o cabelo da forma que o cabeleireiro te ensinou!”, “você é muito chorão, parece uma mulherzinha!”.

Hoje, eu me comporto do jeito que quero, ajeito meu cabelo como prefiro e sou uma das pessoas que conheço que menos chora; infelizmente, considerado, por vezes, uma pessoa fria. Mas, e se chorasse? E se rebolasse exageradamente pelas ruas da Tijuca ou Ipanema, seria eu uma pessoa pior? Deixaria de ser o mesmo indivíduo que sou hoje, com todas as minhas virtudes e defeitos acumulados ao longo de 31 calejados anos?

Outra vez, um grande amigo veio me perguntar se eu, quando conheci seu irmão (que era gay), havia reparado que ele dava pinta. Muitos diziam que o rapaz, desde criança, era “diferente”, mas ele mesmo nunca havia percebido nada em mais de 25 anos. Eu fui sincero e disse que sim. Mas que mal havia naquilo? Senti que o fato o angustiava um pouco; ao mesmo tempo, era a mais tenra prova de que não residia na pinta o que ele, enquanto irmão, precisava enxergar no outro.

Infelizmente, o que leva muitos a se preocuparem com e a evitarem pintosas, mesmo entre os gays, é a exposição na sociedade. Cansei de ouvir que eu formava um casal exemplar com o meu companheiro devido à tal heteronormatividade. Afinal, como escutei por diversas vezes, o Brasil não é um país preconceituoso, desde que beijos e afetos entre iguais fiquem entre quatro paredes, pois a rua não é lugar para isso.

Historicamente, a sociedade brasileira costuma satirizar tudo com o que não sabe lidar, como os retirantes e os homossexuais, até hoje figuras que, estereotipadas como caipiras e bichinhas, nos fazem rir nos humorísticos da televisão ou em marchinhas de carnaval (afinal, será que o Zezé é, devido à sua cabeleira?). Enquanto as pintosas estiverem restritas a Zorras, Escolinhas, Praças e afins, e não andarem de mãos dadas, dividirem a calçada ou mesmo dormirem no quarto ao lado, está tudo bem para a grande maioria dos brasileiros. Mas, e quando elas migram para o reality show mais famoso do país que, como o nome diz, retrata pessoas reais?

As pintosas podem incomodar, mas elas existem. Tais como elefantes, se uma incomoda, duas incomodam, incomodam muito mais. Imagine dezenas. Centenas... 

Só há um remédio para isso: se incomoda a você, já experimentou olhar para o outro lado?

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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