terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Call Me Crazy



“Those with mental illness fight battles everyday”. Com essa frase eu decidi que deveria escrever sobre um filme maravilhoso que vi. Não só pela qualidade dele, mas pelo dever de cidadania de compartilhar uma mensagem importante no mérito da saúde mental. 

Call Me Crazy: A Five Film é um filme com cinco histórias, todas sobre a luta contra doenças mentais. O filme, de 2013, foi premiado algumas vezes, incluindo com o Voice Awards e o Health Awards. Cada um dos cinco contos foi escrito e dirigido por pessoas diferentes, entre elas Ashley Judd, Bonnie Hunt e a esplendorosa Laura Dern. A produção executiva é assinada por Marta Kauffman (que também concebeu a ideia do filme, e é conhecida por produzir Friends) e Jennifer Aniston. 

O elenco também arranca aplausos: Jennifer Hudson, Sarah Hyland, Melissa Leo (que atuação!), Octavia Spencer, Melanie Griffith e a simpática Brittany Snow. Apesar de eu só ter citado mulheres, o filme não era exclusivo delas, mas a força e a sensibilidade feminina é tão bem delineada que até quando um dos protagonistas é um homem, sua esposa é quem acaba roubando toda a nossa atenção. 

Mas, mais importante do que a representatividade feminina nesse caso (e que fique bem claro: somente nesse caso), as histórias contadas são as que mereceram minhas palavras. Quatro doenças mentais/psíquicas foram brilhantemente retratadas e desestigmatizadas (neologismo, será?) nesse filme. Esquizofrenia, bipolaridade, depressão e TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático). 

Lucy, a personagem de Brittany Snow, uma estudante de direito que descobre sua esquizofrenia, permeia três das cinco histórias e, na segunda em que aparece, é fácil perceber a luta não só de quem carrega a doença, mas também dos que os cercam. Essa história mostra a culpa e o medo de sua irmã mais nova, temendo descobrir que também é doente e viver num hospício. 

Melissa Leo e Sarah Hyland, mãe e filha em outra história, emocionam qualquer um com o enredo de uma mãe bipolar e a filha que cresceu vendo-a ora vivendo como se estivesse high total, numa imensa alegria descompensada, ora afundada numa cama, numa casa escura, sem conseguir cuidar da menina – ainda criança. A tentativa de fugir dos remédios fazia com que ela voltasse ao estado de excitação exagerada, decepcionando a única pessoa que ela tinha em sua vida: sua filha. 

Eddie é um comediante que luta contra uma dolorosa depressão, que o confina em uma apatia sonolenta durante todo o dia, privando-o de tomar banho, comer e alimentar o cachorro, enquanto junta energias para fazer suas apresentações à noite. Sua esposa claramente percebe a rápida piora dele, inclusive nas próprias piadas que faz em seu show, descobrindo que ele havia parado de frequentar a terapia. 

Maggie, personagem de Jennifer Hudson, é uma sargento do exército militar norte-americano e desenvolve o TEPT por uma razão menos óbvia (e mais frequente) do que podemos imaginar dentro dessa narrativa. 

Além de um excelente roteiro, uma coisa me chamou a atenção: nenhuma das histórias tem um fim. Todas atingem um ápice emotivo, mas continuam, podendo ter diferentes desfechos (fica por conta da imaginação de cada um). O bacana é ver que talvez essa seja uma das coisas mais reais em quem sofre dessas doenças: a vida continua. Infelizmente – mas minoritariamente, graças! –, às vezes, sem a consciência do paciente. 

Eu convivo com depressão há longos meses. Fiz um passeio por diversos desses sintomas que o filme mostra: culpa, medo, vergonha, falta de vontade, excesso de vontade, e por aí vai. Tristeza talvez tenha sido o maior, porque naturalmente a doença te deixa solitário. E muita gente vai embora mesmo. Essa é uma lição importante para quem sofre com a doença, pacientes e todo o resto: fiquem. É preciso. O conto da depressão é o mais fácil de me identificar. Talvez de muitas outras pessoas também. Mas é possível se ver um pouco em cada um dos personagens – sejam eles doentes, familiares, amigos, terapeutas, etc. 

Não é o texto mais animado que escrevi, muito menos o tema mais agradável, mas é importante. Tocar na ferida é importante. Expor o que escondem embaixo do tapete é importante. Compaixão é importante. Minha reflexão para esse ano que tá começando é o desejo, cada vez mais forte, de ajudar outros agoniados (amigos: uni-vos). Recomendo que todos reservem duas horinhas de insônia ou inércia dominical e vejam (Netflix Detected), para conhecer mais sobre esse estigma malvado que as doenças carregam, para talvez ajudar outras pessoas ou, quem sabe, se ajudar também. 

O final vem com esse presente: 
“Who knows who she might be able to help?” (Quem sabe que outras pessoas ela pode ajudar?).
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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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Um comentário:

Caio Valentim disse...

Adorei esse filme, tenho um tio esquizofrênico e sei como é cruel sofrer e ser subestimado o tempo inteiro, atormentado por seus próprios pensamentos. E, de perto, ninguém é normal.