sábado, 30 de janeiro de 2016

Eu Nasci Assim?





Eu tenho sim, certa dificuldade em compreender gays enrustidos e/ou que sofrem com a ideia de assumirem-se, criando uma série de dissimulações para esconder o latente desejo sexual, seja pra família, colegas de trabalho ou para a sociedade em geral. Até escrevi sobre isso, há três semanas atrás, aqui mesmo. No entanto, respeito tal comportamento, apesar de não achar nada legal.

Minha dificuldade em compreender, certamente está ligada ao fato de nunca ter feito a linha "discreto" em toda a minha vida, considerando "discreto", nesse contexto, a capacidade natural ou não de não "dar pinta", através de trejeitos, voz, jeito de andar, etc. Sempre fui muito pintosa, desde que me entendo por gente, sendo assim, impossibilitado de entrar em qualquer armário, o que também já comentei por aqui em outras ocasiões.
Mas como assim, Esdras? Não houve um momento em que você se assumiu? Com que idade você se descobriu? 
Sinceramente, não houve esse momento de saída do armário, simplesmente porque nunca entrei em nenhum. Talvez meu único armário, o qual fiquei protegido das maldades do mundo por um curto período de tempo, tenha sido o útero de mamãe. Depois desse, não houve esconderijo que me salvasse da especulação e crueldade de línguas, olhos e corações maldosos.

O jeito "delicado" (palavra suave, usada por adultos para descrever uma criança afeminada) já me denunciava desde os primeiros anos de vida, fazendo-me acostumar desde muito cedo com termos "adoráveis" como "bichinha", "viadinho", "mariquinha", "mulherzinha" pronunciados pelos meninos que andavam e corriam de pés descalços pelas ruas naquelas brincadeiras típicas de moleques, quando eu ousava botar a cara pra fora de casa desacompanhado de pai ou mãe. E tudo isso bem antes dos anos escolares. O pior ainda estava por vir.

Arrisco dizer que a tal descoberta ou o despertar para algo diferente da norma, que rege como devem ser e sentir meninos e meninas, aconteceu aos quatro anos de idade. Sim, parece absurdo, mas minha lembrança mais remota da "coisa gay" aflorando em mim pela primeira vez, foi com essa idade. Até então, preferir brincadeiras mais calmas, gostar de bonecas e ter aversão a carrinhos e bolas, e adorar andar pela casa com os saltos de minha mãe era uma manifestação natural e ingênua da minha personalidade, que pouco me dizia. Mas olhar para um rapaz adulto e achá-lo tão bonito a ponto de desejar que ele me pegasse no colo, mesmo com apenas quatro anos de vida, me fez desconfiar de mim mesmo. Apesar de muito novinho, já existia uma consciência de que o "normal" da vida era papai e mamãe. Em nenhum momento espantou-me o fato de olhar um adulto com olhos altaneiros, mas estranhei o fato dele ser um homem como eu. Mas isso também não me incomodou, afinal, eu era só uma criança, e se estava sentindo aquilo tão prematuramente, certamente não era uma escolha, mas uma emoção absolutamente natural e involuntária. E só pra constar, não aconteceu nada com o tal rapaz, ele não era um pedófilo, e meus desejos infantis em relação a ele tinham mais a ver com fascínio do que com sexualidade. Ele era "amigo" de duas irmãs que cuidavam de mim como uma espécie de babás, quando minha mãe precisava.
Então você nasceu gay, Esdras?
Vamos aos fatos, e tirem suas próprias conclusões: além de ter aversão à toda e qualquer atividade dita de meninos; ser tachado e humilhado por diversos termos pejorativos referentes a sexualidade, antes mesmo de ser alfabetizado; e sentir um fascínio inexplicável por um homem aos quatro anos de vida; eu tinha um encantamento pelos dois filhos adultos de uma vizinha, dona Augusta, Joel e Jairo. Aos cinco anos, vivi uma epifania com um rapaz do qual não lembro o nome, mas era de uma beleza deslumbrante. Ele passava uns dias em casa, também não lembro o porque, mas lembro perfeitamente o quanto ele era carinhoso, existia nele algo tão fraternal e puro. Na rua, ele caminhava comigo segurando minha mão com afeto, mas pra mim, em meu delírio infantil, passeávamos de mãos dadas como duas pessoas da mesma idade que se gostavam. Entendi naqueles momentos de mãos dadas, que o sexo masculino exercia sobre mim um fascínio que as meninas e as mulheres não exerciam. O sexo feminino, em minha visão infantil, era fácil, simples, comum. Elas estavam por toda a parte, o tempo todo, participando da minha vida, me paparicando, sendo acessíveis demais e até chatas. Os homens não. Eles eram difíceis, misteriosos, charmosos e muito atraentes. Um enigma a ser decifrado e explorado.

Então, cresci assim, delicado, frágil, afeminado, desprezado, achincalhado e exposto em praça pública, nas escolas da vida e até nas igrejas que frequentei religiosamente por longo tempo. Amei homens e garotos que não me amaram. Lutei contra os meus sentimentos. Chorei pela rejeição do alheio, por ser quem eu era. Desejei ser outra pessoa. Mas nunca disfarcei uma cruzada de pernas, uma quebrada de mão, uma reação afetada, porque tudo isso sempre foi absolutamente espontâneo saindo de mim, eu em estado bruto, orgânico.

Lembro de um episódio, onde meu pai, em uma atitude machista e desprezível, ao me ver com as pernas cruzadas sentado no sofá assistindo televisão, na maior inocência, mandou-me com brutalidade que as descruzasse. Devia ter uns 12 anos, e aquelas palavras ditas daquele jeito tão violento, sem que eu esperasse, me feriram profundamente. Parece um episódio bobo e corriqueiro, mas ninguém pode imaginar o estrago que passagens como essas, na vida de um garoto gay, podem marcar negativamente como ferro em brasa. Era mais uma vez a rejeição do que eu era e daquilo que eu representava de mais torpe, pra pessoa que devia me amar incondicionalmente. Doeu muito, mas passou, como tantos outros momentos escabrosos da minha vida.

Aos 13, contei em segredo pra uma prima que gostava de meninos, mas ela já sabia. Aos 16, disse à minha melhor amiga (um beijo Nadege), com todas as letras que era GAY, mas ela já tinha quase certeza. E aos 23, tive que fazer a passagem, e só pra não ser acusado de não ter tido a tal simbólica "saída do armário", comuniquei minha mãe do que ela já sabia, mas não queria admitir:
- Sim mãe, eu também sou gay, igual ao Giovane, que você diz que virou gay, mas ele não virou. Porque ninguém vira gay. Ninguém escolhe ser gay. Eu sempre fui assim. Você não lembra? Todo mundo já sabia, menos você. Olha pra mim. O meu jeito, minha voz, meus trejeitos. Não existem héteros que tenham o mesmo comportamento que eu, podem até existir, mas em 99% dos casos, todos são gays. Você leu meus diários, tudo o que estava escrito lá e que eu dizia que eram códigos, não eram. O S. era de Samuel, lembra dele? Foi o grande amor da minha vida (aos 15 anos). E eu sempre gostei de rapazes e não tem jeito de vir a gostar de meninas, pelo menos, não até aqui.
Foi mais ou menos essa a minha parte na "revelação" de minha sexualidade, num diálogo bem curto que tive com mamãe, numa manhã do ano de 2004.

Diante de todos estes fatos aqui expostos, qual seria a sua conclusão? Eu nasci assim? Nascemos todos assim? Ou alguns nascem e outros escolhem? As pessoas são afeminadas e pintosas por que querem ou por que já vem nos genes? E se elas são as chamadas "crianças viadas" na infância, se tornarão machinhos mais durinhos quando crescerem ou vão se vestir de mulher?

Um amigo gay bem másculo me disse uma vez que se eu quisesse de verdade conseguiria deixar de ser afeminado. No que eu retruquei de imediato, dizendo que não, primeiro porque eu não queria, pois isso não me incomodava a ponto de querer ficar como ele, e segundo porque minha feminilidade era algo intrínseco em mim, e que eu não via absolutamente nenhuma necessidade de amputar parte do meu ser pra agradar os que se incomodam com a "pinta" alheia. Não satisfeito, ele contra-argumentou dizendo que era bem afeminado quando criança, e que seu sonho era fazer ballet, mas foi se policiando porque detestava ser taxado de bichinha e conseguiu chegar ao comportamento "macho e discreto" do qual tanto se orgulhava, e se eu me esforçasse um pouco, também conseguiria. O resultado é que tínhamos brigas ferozes, eu o acusava de ser um gay homofóbico (o que era verdade), e que eram asquerosas suas atitudes e pensamentos. Ficamos sem nos falar por diversas vezes, até que ele foi melhorando, e hoje está em paz consigo mesmo e menos incomodado com os afeminados à sua volta.

Eu, de minha parte, afirmo que nasci assim: gay e afeminado, e justamente por isso, nunca fui acusado de safadeza e sem vergonhice por virar gay, pois os que me viram criança e depois de um tempo sem contato, já me encontraram adulto e totalmente assumido, não se surpreenderam. O que me leva à teoria de que revelar a homossexualidade para amigos e familiares, sendo que o sujeito nunca deu uma pinta sequer, deve ser bem complicado, mas também não justifica uma covardia eterna em assumir-se.

Eu, embora fique puto com essa patrulha em cima do gay afeminado por parte dos gays "discretos", que trás embutida rejeição, discriminação e até ódio, porque a impressão que tenho é que os "machos discretos" odeiam as "afeminadas que dão pintam", até mais que héteros homofóbicos. E isso, depois de ter passado pelos piores momentos da infância e da adolescência pela sanha homofóbica dos héteros, é a coisa mais amarga de se chegar à conclusão. Ainda assim, ser um homem feminino ou afeminado, como preferirem, me te torna mais forte, verdadeiro e livre.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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