terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Precisamos Falar Sobre Liniker





Turbante, brinco, saia. Colar, pulseira e bigode. Criatura doce, de cantar sorrindo, esse é Liniker, surpresa tão deliciosa que a música brasileira nos trouxe. Na semana passada falei também sobre música, sobre amor (tudo nos leva até ele, não é mesmo?) e sobre Gal. Era tão sentimental falar sobre ela que não precisei pesquisar nada, já estava tudo ali explícito pra mim. Mas com Liniker eu não era o bastante. Tão pouco minha sensibilidade, que se mostra ainda maior e frágil nesses últimos dias. Eu precisava saber quem era Liniker de verdade. Além das letras poéticas e da figura embelezada que mais parece uma pintura dançante.  

Vasculhei tudo o que podia e li tudo que achei. E pessoas falam com muita propriedade sobre a questão de gênero em relação a ele – ou, na verdade, sobre a não-questão de gênero. Ele afirma que talvez não seja trans, que seu gênero é a própria liberdade. Li mais. Li do mesmo. Estamos ainda tão atrasados no que diz respeito à livre escolha do outro que, quando alguém como Liniker aparece, sacudindo a árvore da família para caírem os frutos podres (os sacro-tradicionais, por assim dizer) e sem precisar se impor como um transgressor, só conseguimos falar disso. Claro que é preciso. Mais do que necessário, é lindo poder exaltar essa criatura enigmática e ao mesmo tempo tão fácil de enxergar. Depois de bater nessa tecla do “é homem ou mulher?”, fala-se da pele negra que brilha em contraste com as roupas de tom escuro que ele usa. Liniker é negro, é talentoso, é fora do comum e é um corpo transbordando em poesia. Um negro que não virou estatística, apesar de estarmos num país onde se ainda permite que isso aconteça com tanta frequência. 

A questão é que pouco li sobre o que mais me encantou quando soube quem ele era pela primeira vez: sua música. Pensei, logo de primeira, que era uma coisa meio Tim Maia e Luiz Melodia. Com um toque de Jorge Ben. Depois achei que era soul. E funk. E r&b-blackmusic-mpb. Talvez um pouco de samba rasgado. E assim é Liniker: sem gênero - de identidade e de música. Ele é um pouco de tudo e muito de cada pouco. As letras passeiam pelo apelo bonito do amor, trazem relações e se despedem do cafona. Não há nada de cafona em sua música. Não há nada de velho. Não há nada ali que não nos toque lá no fundo, pedindo mais. 

Zero entranhou em meus ouvidos de tal forma que, antes mesmo de ver o vídeo, eu já podia imaginá-lo sorrindo enquanto transitava da voz grave para a aguda e afinada, que fazia um carinho gentil em meus ouvidos ao mesmo tempo em que parecia sacudir meu corpo inteiro. Não tem pudor e não tem camada. É tudo muito cru (coincidentemente, o título de seu álbum), muito natural - como sua vontade de usar acessórios que o mundo insiste em taxar como femininos. Depois vi o vídeo, reparei no pictograma tatuado em seu punho esquerdo que lembra o Mickey, nas suas veias que saltam pelos braços finos e no gingado que parecia acontecer independente de sua vontade. Eu precisava falar sobre ele porque eu também transbordei. Porque o deixei, como ele pede com aquela voz gostosa, me bagunçar. 

Na semana em que Bowie mudou de plano espiritual (morrer é muito forte para designar a passagem do gênio), algum jornalista fúnebre publicou um texto sobre Por Quais Ídolos a Nova Geração Irá Chorar?. Eu, no canto de minha insignificância, então respondo: ainda temos muitos ídolos, e acabamos de encontrar mais um. Eu já choro por Liniker, só porque consigo criar uma história dentro da história que ele já conta. Só porque consigo fazer minha história de um jeito que nem aconteceu ainda. Só porque consigo escutá-lo sem precisar chorar, e choro porque não preciso. 

Eu não ousaria compará-lo com Ney Matogrosso. Não seria justo com nenhum dos dois. Mas talvez ele represente a mesma transformação que Ney representou na geração passada.  

Saia é pra homem, sim. Amor, pra todo mundo. Liniker é para você e eu.


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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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6 comentários:

andrea gaucha disse...

PEÇO ENCARECIDAMENTE PARA QUE, SE EXISTIRem UFOS, ET´s, para que ME BUSQUEM...SE ISTO É A NOVA CARA DA MUSICA BRASILEIRA COMO EXPRESSARAM, SOCORRO.

Anônimo disse...

Que merda!

Anônimo disse...

Essa é a "nova cara da musica brasileira"?
Parem o mundo que eu quero descer.

calebfagundes disse...

Música chatíssima; deve ser por isso que faz tanto uso da imagem, só para chamar a atenção.

Anônimo disse...

Gente, se vocês não gostaram da música, tudo bem, todos têm seu próprio estilo musical. Mas é preciso entender a profundidade que a música de Liniker passa para uma geração quase toda. Geração essa que enxerga não só a aparência do artista, mas também a representatividade que o conjunto emana. A nova geração que busca por constantes mudanças de pensamento e reinvenção da sociedade, sempre tendo em base o respeito e a compreensão.

Arno Costa disse...

Serio nÃo sei o que esta acontecendo com a musica, cada dia aparece um lixo novo e sempre tem alguém que apoia isso, é uma das piores coisas que ja ouvi com um visual ridículo e forçado , e alguém diz que é a nova cara da musica brasileira, mais um motivo para eu querer sair dessa droga de país pois o que se conhecia por qualidade musical , infelizmente MORREU ...