terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Quanto de Mim Há em Você?





Acordei pensando no quanto uma música pode dizer tanto sobre nossas vidas. Ainda que não saibamos nada (ou quase nada) sobre a vida daqueles que a compuseram ou cantam. A gente só assume que ela encaixaria em algum frame do nosso passado, ou mesmo que parece ser perfeita para tocar no nosso casamento, que não sabemos quando vai ser nem com quem. 

Com músicas também podemos ir além: sentir pena, raiva ou o que quer que seja por conta da história que está sendo cantada, ainda que seja puramente ficcional. Nos tornamos psicólogos do dó-ré-mi e juízes sedentos por vereditos em sustenidos ou bemóis. Metáforas a parte, eu só cheguei a conclusão disso porque percebi que amadureci um pouco hoje quando entendi o exagero da nossa limitação em ser de carne e osso. 

Eu já tinha ouvido essa música dezenas de vezes. É linda, doce, gostosa de cantarolar mesmo quando não se sabe a letra. Gal Costa deu vida às palavras que exprimem o mais primitivo dos sentimentos: carência. Não só no sentido pegajoso e needy, mas naquilo que significa carecer de amor, de troca, de atenção. Falei que amadureci porque até ontem essa era só uma música bonita, um pouco triste até. Hoje, quando meus fones de ouvido pareciam bloquear todo o som do mundo, deixando ecoar apenas “só não se esquece que eu também te amo, só não se esquece”, eu vi que no fundo a gente sempre sabe. Quando é amor e quando não é. Quando ele chega e quando ele vai embora. Pior, quando ele vai indo embora, devagar, sem pressa. A gente sabe, ainda que como uma premonição de um sonho ruim, que alguém ali ganhou espaço – e não foi você. Também sabemos quando tomamos o espaço de alguém, mesmo sem querer. A gente sabe disso tudo. Quando Gal destoa daquela mulher forte de voz grave que estávamos acostumados a ouvir e diz “não se endurece que eu também te amo, não se endurece” ela também sabia. E desfila pela música contando que tá na cara que seu amor muda quando vê a outra. A Gal vê. Eu vi. Todo mundo já deve ter visto. 

Percebi que amadurecer não é só saber a hora de ir embora, mas também pedir pra ficar. E ser forte o suficiente pra fraquejar. Pra dizer: poxa, eu também te amo. Pra perceber que há muito de mim em você e isso é profundo demais para só pegar a minha mala cheia de roupa amarrotada e ir embora. Por isso ela diz que quer fugir de casa, quer chamar atenção, quer que ele sinta falta. 

Amor tem tanta configuração que já não dá mais pra dizer o que é e o que não é. Tudo é amor, e nada chega perto de ser. Quem vai dizer que não? E quem vai dizer que essa carência não cabe? Quem vai dizer que ser forte é bater a porta da sala sem olhar pra trás? Acho que no fim das contas, o esperneio todo não passa de um último suspiro, e logo mostra que talvez seja mesmo melhor partir. Que o muito de mim que tinha em você já não encaixa mais naquele porta retrato cafona da sua sala, nem naquele vaso que você nunca mais encheu de flores. O muito de você também saiu daqui de dentro, porque correu pra outro abraço. Mas, enquanto entender isso for mais difícil do que admitir que preciso de você, eu fico. A Gal fica. Todo mundo fica um pouco. Depois voa.


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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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