sábado, 9 de janeiro de 2016

Senhor, Dai-me Paciência Para Suportar os Enrustidos!




O garoto tem 19 anos e a primeira vez que ouvi sua voz, antes mesmo de saber de quem se tratava, pensei: "Quem é essa bicha?". Depois conheci o rapaz, que já tinha visto antes; imaginava que fosse gay, mas ainda não havia escutado a voz dele e, assim que a escutei, se restava alguma dúvida sobre a orientação sexual dele, esta foi dissipada imediatamente. Não que uma voz menos grave e menos empostada seja sinônimo de homossexualidade, mas sabe como é né, o bom e velho gaydar quase nunca falha.

Dias depois, a surpresa, ao ouvir uma conversa entre ele e outros dois colegas (até então, eu ainda não havia trocado palavra com ele, apenas observava), onde ele contava que havia sido assediado pela mãe de uma garota que estava a fim. Minha reação mental: "OI?". Fiquei matutando: "Tá na cara que é viado, pra que ficar tentando disfarçar, especialmente num lugar onde majoritariamente as pessoas são gays?". Não me contive e perguntei a outro colega qual era a do guri. Respondeu-me que todos achavam que ele era gay sim, mas ainda não tinha se descoberto. Ah, faça-me o favor né, com 19 anos nas costas?

Numa época em que meninos de 10 e 12 anos já se travestem e colocam pra fora toda a feminilidade, se assumindo cada vez mais precocemente, fica difícil engolir essa desculpa. O que acontece mesmo é que o garoto não tem personalidade, e por mais que sinta desejos por homens, quer fortemente seguir os padrões heteronormativos. É bobo, covarde e se preocupa demais com a opinião alheia. Cheguei à essa conclusão após nos aproximarmos mais, e eu até servir de babá, levando-o em sua primeira balada GLS.

Travei certa intimidade com ele, porque queria ajudá-lo a se libertar, ser mais leve e mandar às favas a opinião alheia. Queria que ele se posicionasse e parasse com essa bobeira de ficar enrustido. À essa altura já estava bem claro do que ele gostava de fato, pra mim ele se assumiu, mas com ressalvas, garantindo ser bissexual, embora virgem. Sim, meu povo, o mocinho tem 19 anos, gosta de rapazes, insiste em sair com garotas, mas é virgem. Nunca chegou aos finalmente de fato com ninguém. Anda subindo pelas paredes, e eu sei muito bem pelo quê.

Já se envolveu em algumas confusões por conta de ter ficado com um cara que o deixou alucinado, mas como o tal, que só queria curtição, não correspondeu as expectativas dele, o idiotinha resolveu ficar com uma menina que sempre gostou dele, só pra provocar ciúmes no outro, que nem confiança deu, e pra testar como se sentiria com uma garota. No frigir dos ovos, babou. A garota entendeu que estava sendo usada, está detestando o garoto, e todos que tiveram paciência com ele até agora, já estão de saco cheio. Inclusive eu, que sou um poço de compreensão e paciência, quando se trata de questões e dúvidas existenciais. Juro! Posso ser intolerante para muitas coisas, mas procuro compreender ao máximo as aflições que atormentam a alma humana.

E cheguei à seguinte conclusão: não dá mais. Depois de receber uma mensagem dele, via WhatsApp, dizendo que iria seguir meu conselho e "ser hétero", distorcendo minhas palavras, quando o que eu disse era que ele tinha que fazer o que tivesse vontade. Se queria ficar só com garotos, ficasse, se só com meninas, ok, se com os dois, beleza, mas sem neuras, sem se preocupar com rótulos ou dar explicações e justificativas sobre suas preferências a quem quer que fosse. E, pra completar, ainda teve a cara de pau de dizer na minha cara que o pai dele não podia nem sonhar que ele era gay, pois não gostava nem que ele andasse com esse tipo de gente, e falou com tanta convicção que parecia que ele não era esse tipo de gente.

Pra mim foi o fim da linha. Não quero julgá-lo com tanta severidade, pois reconheço que é apenas um garoto imaturo e de caráter fraco. Que se não mudar a mentalidade, será mais um babaca dentre tantos, que constituirá família com mulher, filhinhos, gato, cachorro e papagaio e, enquanto a esposa amada esquenta a barriga no fogão, ele enche a cabeça dela de galhosos enfeites, se refestelando em lugares obscuros com homens que o satisfaça de verdade. Triste realidade. Triste e demodê.

Decido então parar de dar ouvidos e conselhos a ele, porque também me revolta tanta frescura pra se assumir com todas as letras em pleno 2016. Eu nunca passei por isso, então não entendo tanto drama. Já nasci fora do armário, não me deram nem o benefício da dúvida, pois todos já me julgavam antes mesmo de eu saber o que viria a ser um gay. Apesar de toda a pressão religiosa, minha sexualidade sempre fluiu muito naturalmente, segui meu fluxo sem grandes conflitos internos. O inferno sempre foram os outros.

Por isso, agora, por mais compreensivo que eu seja, não serei mais complacente com os tais enrustidos. Só peço paciência aos céus porque eles ainda existem e acham que podem nos enganar. Coitados. Mas o pior, enganar a si próprios, enquanto abrem mão de serem honestos, livres e fabulosos.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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