quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Sexo e Companheirismo




Passados os fogos, as puladas de ondinha e as listas de resoluções, aterrissamos na segunda metade da segunda década do século XXI. Muito diferente do quanto imaginávamos que estaríamos, talvez voando em carros sem roda e tendo robôs como empregados domésticos, como num episódio dos Jetsons. Mas, ainda assim, não aptos a promovermos, dentro de nós mesmos, tantas mudanças que podem soar ridículas, mas creio que tão necessárias para uma humanidade melhor.

Tive a oportunidade, perto do fim de ano, de conversar bastante com um jovem casal que se encontrava em uma crise por questões sexuais, cujos detalhes manterei em sigilo. Após muito debate, ouvi de um deles que acreditava que eles eram muito diferentes naquilo que mais une um casal: o sexo.

Concordo que o sexo é parte importante e presente em relações conjugais sadias; mas será ele aquilo que mais une o casal? A partir do momento em que você se sente amado, desejado e respeitado, não seria o sexo uma consequência? 

Ao longo de séculos, milênios, construímos um modelo de sociedade ocidental monogâmica que faliu no seu propósito de vincular a atividade sexual ao amor. Primeiro ao tentar dar ao sexo o caráter unicamente procriatório; sabe-se desde que o mundo é mundo que o ser humano faz sexo por prazer e, infelizmente, esse prazer é condenado por muitos extremistas (em sua maioria, religiosos). Segundo, na tentativa de colocar o sexo monogâmico como prova de amor; desde pequeno, ouço diversas histórias de adultérios (em sua maioria, de heterossexuais, que fique bem claro) que culminam em sofrimento e/ou perdão compulsório de uma das partes, em geral de uma mulher que tem medo de ficar sozinha ou se sente culpada por não ter “dado ao marido o que ele teve que buscar fora de casa”.

Não, não acredito que o sexo seja aquilo que mais une o casal. E disse isso ao jovem que me interpelou a respeito. Entendo perfeitamente as suas dúvidas, angústias e questionamentos. Tive meus 20 e poucos anos já, todas as minhas inseguranças – e ainda tenho algumas, claro, ninguém é uma fortaleza. Mas se teve algo que os meus mais de 30 vividos, dos quais 11 ao lado de uma mesma pessoa, me trouxeram, é entender que relacionamento conjugal se consiste, basicamente, em uma palavra: companheirismo. Todas as demais são satélites desse grande astro, cujo centro gravitacional pode nos dizer se estamos em uma boa ou uma má fase a dois.

Por isso, talvez, goste tanto da palavra “companheiro”. Há quem prefira namorado, esposo, marido, de uma forma a equiparar os relacionamentos homoafetivos àquilo que a sociedade convenciona chamar os heteros. Não vejo problema algum e eu mesmo utilizo esses termos. Mas vejo em “companheiro” uma carga de cumplicidade e parceria que todos deveriam preconizar. Ainda mais as mulheres. Afinal, eles são “maridos”, enquanto elas são “mulheres”; não seria mais belo se fossem “companheiros e companheiras” (sem socialismo implícito, por favor)?

Nos poucos momentos ao longo desses 11 anos de relação em que estremecemos e chegamos a pensar no fim, foi por estarmos afastados e não cumprindo nossa missão de companheiros na vida um do outro. Aquele que ouve, que apoia, que chama atenção; que participa ativamente da vida do outro, respeitando sua individualidade; que se sente muito mais ciumento por estar excluído de um momento mágico que o outro viveu do que por uma olhada que ele tomou de um cara mais bonito que você na rua.

Sexo traz qualidade de vida, bem-estar e intimidade. Mas não garante o sucesso de um relacionamento. Creio que o dia em que o sexo for encarado como meio, e não como fim, a humanidade será um lugar melhor para se viver.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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2 comentários:

Eduardo Silva disse...

Olá, Paulo.

Achei o texto muito bom. Num mundo tão focado em sexo, é fácil utiliza-lo como parâmetro de sucesso ou fracasso numa relação.

É preciso ter maturidade para perceber que isso é um equívoco.

Parabéns.

Paulo Henrique Brazão disse...

Obrigado pelo comentário, Eduardo! Com certeza, é uma reflexão diária a se fazer.