sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Sobre Angélica, Eri Johnson e Outros Pintosos





Quando jovem, percebia que a pinta da Angélica chamava a atenção. Não era como a pinta do Eri Johnson, bem na cara, afrontando a sociedade. A da Angélica agradava mais o público, porque ficava na perna e ela podia esconder se quisesse. Mas ela gostava de exibir e até sua boneca tinha pinta (e mais pinta dava eu dançando seus sucessos).

Angélica deu muita pinta no fim dos anos 80 e continuou dando até casar com o Luciano Huck e formarem uma tradicional família brasileira, diferente das suas maiores concorrentes. Xuxa teve uma filha sem casar; e Mara Maravilho se casou várias vezes, mas nunca teve filho e ainda virou cristã pregando ódio contra os gays (até dizer recentemente que deixou a igreja e pediu perdão à comunidade).

Mas como eu dizia, a tradicional família brasileira gosta de pessoas comuns e que aceitem viver de acordo com os seus padrões; quem fugir deles terá que sofrer as consequências. A dita sociedade que não aceita a pinta do Eri Johnson na cara, mas aceita a da Angélica na perna porque, como eu disse, ela pode esconder. A mesma sociedade que acredita que um homem gay não é homem, principalmente se ele dar pinta porque, meu amor, quem dá pinta é mulher. 

E todos esses preconceitos só reafirmam ainda mais o quanto a sociedade continua hipócrita. Se o cara é gay, tem que ser bailarino, cabeleireiro, maquiador e se vestir de mulher. Mas quem disse que ele é obrigado a isso? Se ele não quiser, será feliz assim? E desde quando a felicidade do outro importa? O que importa é o que a sociedade quer, como ela se sente bem. O outro que se dane! 

E tudo isso acontece porque os próprios gays reforçam isso. Essa é a grande verdade. Quantos gays recriminam seus próprios irmãos por darem pinta na rua? Lembro certa vez de um amigo dizer que um rapaz que andava na rua era uma mancha. E ele falava isso sem nenhuma dor ou culpa. Tive uma antiga chefe (gay também) que não aceitava homens ou mulheres que tivessem trejeitos diferentes do que ela considerava como sendo os “normais” e para ela estes trejeitos “normais” seria o homem não ser afeminado e a mulher não ser masculina. E ela dizia em alto e bom som que era feio tudo isso. Estranho, porque ela mesma não era nem um pouco feminina, mas usava saia; pois é, talvez fosse isso. Os gays estão tão acostumados com o preconceito que acabam assimilando o mesmo preconceito que recebem como sendo algo natural para a sociedade careta, burguesa, heterossexual e branca. Muitas vezes apenas buscando aceitação. Coisa que nunca terão.

Se a TV mostra um gay afetado, pintosérrimo, ela é alvo de severas críticas por parte dos próprios gays porque esse mesmo personagem reforça o caricato. Estes gays não querem ser representados dessa forma. Se não aceitam entre eles, como irão aceitar no horário nobre? Dizem que estão querendo reforçar um estereótipo, mas gente, gays pintosos existem! E eles merecem aparecer em todos os lugares. Convivam com isso, caralho! 

Ser pintoso é uma característica de uma determinada pessoa e eu mesmo conheço vários heterossexuais que dão pinta. E daí? Quem disse que dar pinta é uma exclusividade de um determinado gênero? Os anos se passaram, a gente nem vê mais a pinta da Angélica e ela e Eri Johnson, incomodados ou não, estão aí e com suas carreiras consolidadas. E, sinceramente, não acredito que alguém repare porque o talento supera tudo. O princípio é o mesmo. Não é a pinta que faz a pessoa, ela pode até ser um charme a mais, mas é a pessoa em si que conta. O que ela tem para oferecer é o que vale, as pessoas são maiores. 

Não venha tentar esconder, recriminar ou escarniar a pinta dos outros. Se ela te incomoda o problema está em você.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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