domingo, 10 de janeiro de 2016

Você Pode Substituir a Sua "Motivação" Por Respeito, Por Exemplo




É muito fácil se deixar levar por mensagens inspiradoras escritas em caligrafia elegante. Eu certamente não sou imune a elas, e, de certa forma, acho bonito que, em meio a tanto ceticismo, ainda consigamos ser tocados por um aglomerado de palavras encontradas por acidente em algum canto na internet. Se alguém entende o poder transformador das palavras, essa pessoa sou eu. Se alguém sabe o que significa estar passando por um momento difícil e se sentir compreendido por alguém que você nunca conheceu, essa pessoa sou eu. Ler, absorver e manipular palavras foi o que salvou minha vida. Elas me fizeram companhia nos momentos mais solitários. Elas me ajudaram nas piores horas e me representaram nas melhores. Eu jamais ousaria subestimar o poder da linguagem na hora de inspirar. Se ver representado num post, numa imagem, num pin. Tudo isso tem poder. Palavras têm poder. Mas isso vai para os dois lados. Palavras também podem sufocar, limitar, e ajudar a reforçar estereótipos e preconceitos. Até as mensagens mais bem-intencionadas podem vir carregadas de ideias pré-concebidas de como a felicidade deve ser. Ou, mais importante que isso, de como a nossa felicidade deve parecer para ser aceita e validada pelos outros.

Entendo que a ideia por trás de algumas frases categoricamente imperativas seja inspirar. Peguemos, por exemplo, uma bastante comum: "viaje mais, compre menos". A premissa é bonita - a pessoa, como a maioria das outras pessoas, gosta de viajar e, por isso, deve imaginar que seus amigos também. Afinal, a ideia geral é de que viajar é lindo, maravilhoso, uma das poucas coisas universalmente adoradas e que consumo é ruim, feio, etc. Entendemos. Mas e se - considere essa possibilidade louca por um minuto - o seu amigo não QUEIRA viajar? Seja porque ele está sem dinheiro, ou porque não gosta de viajar sozinho, ou simplesmente porque lida com problemas de ansiedade que são acionados com o inevitável desgaste que acompanha o planejamento de uma viagem? Ou às vezes - e eu sei que isso parece particularmente bizarro em nossas existências de trabalho medíocre realizado quase que exclusivamente pensando nas férias - seu amigo gosta de estar onde está. E não tem curiosidade de conhecer Paris, ou Roma, ou Bangkok. Olha que louco. Essa ideia nem passa pela nossa cabeça, porque recebemos com tanta frequência o despejo da mensagem de que viajar é maravilhoso, é necessário, é a mais realizadora das experiências, que não paramos para lembrar que NADA é unânime. Que nem todo mundo tem a mesma ideia de realização que a gente. E que botando uma roupagem meiga numa mensagem essencialmente autoritária (vide os verbos no imperativo), não estamos estabelecendo apenas como uma pessoa deve viver, mas também o que ela deve, dentro dela, querer. E, pra pessoas que têm problemas para se encaixar e pertencer, isso não é inspiração. É cobrança. É pressão. É mais alienação.

A mesma lógica se aplica para mensagens no estilo de "Confie em Deus" (ateus, anyone?), ou "Não desista" (desistir é muito show de vez em quando, recomendo), "Sorria" (tô de boa assim, vlw), ou o enjoadíssimo "Mais amor, por favor" (posso aceitar minha parte em sarcasmo e moderada indiferença?). Todas frases que geralmente vêm acompanhadas por fotos de gente na praia, no por do sol, sorrindo, beijando, curtindo muito essa vidona. Esse tipo de "otimismo" pode até parecer inofensivo para quem não tem problemas de ansiedade, de depressão, de inadequação social ou até mesmo de introspecção. Afinal, quem não gosta de praia? Ou de sol? Ou de vento na cara? Eis uma notícia chocante: muita gente. E você deve conhecer várias, embora elas provavelmente não admitam isso pra você ou quem sabe pra elas mesmas. Mas oh, nós existimos. Nós, as ovelhas negras da civilização, estamos por aqui. E alguns de nós até passam por gente normal, embora por dentro estejamos constantemente nos sentindo como alienígenas. A cagação de regra mala é fácil de reconhecer: é a do "não use roupa curta demais" ou "se dê ao respeito" ou "não beba". Essa a gente já sente o cheiro de longe. Mas e a cagação de regra "do bem", que prega a felicidade - ou uma ideia dela bastante específica, acompanhada de sorrisos, amor, açúcar, tempero e tudo que há de bom? Não que você não deva desejar coisas que, na sua cabeça, são boas. Mas existe a diferença entre desejar o melhor e desejar para os outros o que é melhor pra você. E acho que pode nem ser por mal, mas às vezes a gente simplesmente não percebe a diferença.

Regras, é claro, fazem parte de uma sociedade pacífica. E, como gosto de reforçar em todos os meus textos, quando falo de comportamentos pessoais me refiro exclusivamente àqueles que não ferem ao próximo. Claro que não devemos estar OK com comportamentos de intolerância, preconceito, grosseria, desrespeito, poluição, etc. Esclarecido o que eu gostaria de pensar que é óbvio, vou lançar uma ideia maluca aqui: ninguém é obrigado a ser nada nessa vida. Nem mesmo feliz. Quantos de nós não se sentem frequentemente frustrados porque não estão vivendo suas vidas ao máximo? Porque não estão correspondendo ao seu potencial? Porque sentem que não estão perto da imagem da felicidade que formaram tão cedo em suas cabeças? Porque estão passando dias de sol em casa vendo filmes, ou virando o ano sem beijo, ou gastando horas e horas fazendo quizzes do Buzzfeed? Eu falo por mim quando digo que a busca por essa ideia de felicidade tem sido o aspecto mais frustrante da minha existência. Mesmo quando estou tranquila, no conforto da minha casa, com um prato da minha saladinha linda no colo e o Bradley Cooper na tela, sou acometida por sentimentos de ansiedade, de culpa, de nervoso por estar "desperdiçando" um tempo que poderia ser melhor aplicado, sei lá, virando uma expressão mais verdadeira de mim mesma.

Ano passado, fui para a mesma cidadezinha do Canadá duas vezes, em meio a inúmeras perguntas de "Por que não Praga? Ou Berlim?". Eu acredito ter inventado desculpas variadas, mas a verdade é que: porque eu preferia ir pra uma cidadezinha no Canadá ficar de bobeira com a minha amiga vendo Gilmore Girls do que me estressando tentando absorver o máximo de cultura que uma cidade europeia tinha a me oferecer. E, este ano, devo voltar para a cidadezinha do Canadá. Ou, no máximo, para Nova York, onde já estive duas vezes. Porque é isso que eu tenho vontade e paciência de fazer. Porque eu acho um saco planejar viagem, não levo jeito pra preço, e não gosto de passear sozinha. Porque eu fico entediada. As pessoas me acham algum tipo de monstro preguiçoso quando digo isso, porque aparentemente ainda é realmente muito complexo entender alguém não tendo as mesmas vontades que você. Num sentido mais amplo, recebo olhares descrentes quando compartilho minhas ideias de futuro: JAMAIS para filhos, APENAS SE EU VIRAR MILIONÁRIA para festa de casamento, APENAS SE ELE FOR REALMENTE DEMAIS para casamento em si. Acham que a) estou falando pra aparecer, b) vou mudar de ideia, c) caí de cabeça quando era criança. Porque é mais fácil fazer isso tudo do que pensar que alguém pode simplesmente não querer coisas que todos ~deveriam~ querer. É muito fácil falar que - olha os imperativos aí de novo - devemos ligar o foda-se para o que os outros pensam e seguir nossas vontades. Mas a realidade é que somos seres sociais e é bastante difícil e aceitar, dentro da gente, que estamos contentes com essas bostas que nós aparentemente somos. Ainda mais quando todo dia sai um estudo dizendo que a gente deveria viajar mais, transar mais, se masturbar mais. Sei nem como dá tempo disso tudo.

Nesse começo de ano, me senti mergulhada numa avalanche de textos no estilo de "Porque vou usar menos o celular em 2016 - e você deveria fazer o mesmo". LITERALMENTE estava escrito isso: "você deveria fazer o mesmo". Inclua aí todas as variações sobre o mesmo tema, desde "largar o açúcar refinado" a "lavar menos o cabelo" (eu gostaria de estar inventando, mas isso é um conselho real). Todos acompanhados dessa segunda parte insolente, o tal do "você também deveria". Amigo, o celular/índice glicêmico/fedor é seu, mas qual a necessidade de decidir que eu deveria fazer isso também? Aliás, o "deveria" é uma palavra que certamente usamos muito mais do que é necessário. Quantas atitudes realmente necessárias precisam ser explicitadas para serem feitas? Fica aí o exercício. Nada contra resoluções pessoais, inclusive tenho amigos que fazem, mas por que cismamos em querer aplicá-las aos outros, ainda que de forma bem intencionada? Vocês não acham nem um pouco presunçoso esperar que a sua ideia de bem-estar, saúde, e felicidade seja a correta? Sério que não existe sequer um pedacinho de você que te faz se sentir meio babaca quando você diz pra pessoa que postar selfie demais é sinal de insegurança, ou que ela ficava melhor com o cabelo curto, ou que ela realmente deveria tentar crossfit? Não mesmo? Que tal tirar a capa de super-herói das boas escolhas e pensar que, de repente, quem sabe, aquela pessoa pode simplesmente não querer as mesmas coisas que você? Imagina que louco esse mundo.

Quem me segue nas redes sociais sabe que eu compartilho muito da minha própria vida - que envolve dieta, exercício, cerveja, amigos, selfies e reposts de citações literárias do pinterest - mas o que eu sempre procuro fazer é deixar claro que aquilo ali é um recorte da MINHA vida. E das MINHAS opções. Quando compartilho "inspiração", procuro propagar mensagens de positividade corporal, de gentileza, de individualidade, de respeito à diferença. Sou humana, erro, mas procuro sempre vigiar o meu tom. A gente se acostumou tanto a recriminar as escolhas alheias que é um exercício constante se libertar desse tipo de coisa, mas gosto de pensar que estou chegando lá. Aos poucos. Escorregando de vez em quando, mas tentando, que é o melhor que eu posso fazer. E mesmo assim, mesmo com todo esse meu trabalho consciente de nunca cagar regra pra cima de ninguém, o nosso instinto de se sentir julgada é tamanho que as pessoas vêm, mesmo sem que eu peça, justificar suas escolhas pra mim. Coisas estilo "ai, você correndo e eu aqui deitada comendo brigadeiro" ou, sem brincadeira, "me sinto mal de comer besteira perto de você". No almoço do trabalho, já é um clássico: basta o primeiro se deparar com meu prato de salada pra vir justificar seu bife à milanesa. Gente... Eu. Não. LIGO. Coloquem as batatas nos seus narizes, injetem coca-cola nas veias, façam o que bem entenderem com seus corpos. E, por favor, já que estamos no ensejo, NÃO PARABENIZEM MEU PRATO DE SALADA. Eu sei que vocês acham que estou fazendo um grande sacrifício - afinal, gordo comendo salada TEM QUE ESTAR SOFRENDO - mas eu estou apenas fazendo o que eu quero. Que é comer salada. Porque sim. Porque não é da sua conta. E você pode trocar os parabéns pelo respeito ao meu espaço pessoal, por exemplo.

E, acredito de verdade que o mundo seria um lugar mais amigável se, em vez de condescendência e presunção, compartilhássemos respeito e compreensão. Se, em vez de achar que o amigo tem que ser melhor, acreditássemos que ele é o suficiente. Estou francamente cansada. Cansada dos "carpe diems", da "fitspiration", dos avisos apocalípticos para tomar menos refrigerante e usar mais óleo de coco. Dos posts chatos falando que nossa geração é muito egoísta, é muito chorona, tira selfie demais, usa muita maquiagem. Dos "bem-intencionados" que vestem os próprios preconceitos e pedestais morais com roupa de preocupação ao próximo. Cansada de ver comportamentos que dizem respeito apenas a nós mesmos criticados, julgados, minimizados. Da polícia das vontades, que prefere duvidar da sinceridade dos desejos de uma pessoa do que aceitar que ela simplesmente não quer para ela coisas que a maioria das pessoas parecem querer pra si. E, principalmente, de me sentir obrigada a sorrir, a ir à praia, a namorar, a curtir museu, a fazer trilha, a seguir esse manual aparentemente universal de como uma pessoa deve ser e parecer pra atingir essa parada duríssima que é a felicidade.

Quer saber? Talvez eu não queira ser feliz. Ou talvez eu tenha sido feliz a minha vida inteira e somente nunca tenha percebido.

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Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso, escrevendo sempre no último domingo do mês como convidada aqui no Barba Feita.
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