domingo, 7 de fevereiro de 2016

A Máscara Negra




“Quanto riso, oh, quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão 
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão 
Foi bom te ver outra vez, tá fazendo um ano, foi no carnaval que passou 
Eu sou aquele Pierrô que te abraçou e te beijou, meu amor 
Na mesma máscara negra que esconde o teu rosto eu quero matar a saudade 
Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval...”
Máscara Negra
2016 - Sábado de carnaval - 06:55 

Num sobressalto, Guilherme desperta com os gritos de Bruno, antes de receber uma toalha encharcada no meio da cara.  "Acorda, rapá, que hoje é carnavaaaaaal".  Ainda se esforçando para abrir os olhos e se acostumar com a claridão que invade o quarto, Guilherme tenta enxergar as horas no despertador.  "Onde estão meus óculos?", pensa, tateando a cabeceira.  Enquanto isso, Bruno escancara as cortinas e a janela, deixando os fortes raios solares penetrarem no local, como um grande flash, anunciando o novo dia. 

- Porra, brother, fecha essa merda!  Não são nem 7 da manhã ainda... Eu tô cansado! 
- Cansado o caralho! Levanta logo que a gente tem que chegar no Centro em 40 minutos pra pegar a concentração da Bola Preta!  E a Mariana tá vindo pra cá, pois ela já tá pronta.  Ela até já me ligou e eu já falei que você tinha levantado e estava tomando banho e que a gente estava quase pronto e nem ia dar tempo de tomar café e... 
- Porra, cala a boca, mané!  Minha cabeça tá explodindo, putaquepariu! 
- Eu falei que não era pra você ter saído ontem e que a gente tinha que acordar cedo hoje... Mas você cismou de ir pra Lapa beber e encher a cara, irmãozim!  Pô, tu chegou às três cambaleando, seu viadinho.  Ainda vomitou no chão da sala, que eu já até tratei de limpar... 

Enquanto Bruno não para de falar, Guilherme fixa o olhar num ponto preto na parede e nota a televisão ligada, mas ainda com a imagem borrada. Tenta encontrar seus óculos enquanto as moscas volantes surgem... Sua cabeça lateja e a voz de Bruno começa a ficar cada vez mais e mais longe, exatamente ao mesmo tempo que uma outra voz começa a tomar forma, ficando cada vez mais e mais próxima e familiar com a reverberação em sua memória e os ecos do carnaval passado retornaram à sua mente... 

(Ano passado – sábado de Carnaval - 19:26) 

Já estava anoitecendo e a Praça General Osório estava abarrotada de foliões.  Guilherme, o arlequim, já havia se perdido de Bruno, o homem das cavernas, seu irmão mais novo. Mariana, a colombina, estava radiante ao som da Banda de Ipanema, debaixo de um calor insuportável. 

- Bem que eu disse que era loucura virmos para cá com essa roupa calorenta... Eu tô derretendo! E onde que se meteu o idiota do meu irmão? 
- Ah, deixa o moleque, Gui! Vamos curtir um pouco... Você anda muito estressado... Relaxa que ainda temos mais três dias de festa! Vamos comemorar nosso aniversário! 

Guilherme e Mariana haviam se conhecido três anos antes, exatamente num sábado de carnaval, durante o Céu na Terra, em Santa Teresa. Entre as ladeiras escaldantes, eles simplesmente seguraram as mãos um do outro e nunca mais se separaram. Mariana sempre foi mais descolada. Fazia parte de um grupo teatral e estudava cinema, enquanto Guilherme era o típico geek e trabalhava como game designer. Faziam um casal bonitinho. Bruno ainda parecia ter saído da adolescência e só pensava em sexo 25 horas por dia. Para satisfazer os seus instintos hormonais, tinha duas namoradas, as gêmeas Ana e Clara. 

Os pais de Guilherme e Bruno haviam morrido em um acidente rodoviário e, desde então, Guilherme passou a cuidar da casa e tentar dar a educação para o caçula. Guilherme sempre achou o seu irmão um pervertido. Como assim, namorar duas garotas ao mesmo tempo e ainda por cima, duas irmãs gêmeas? O assunto sempre era motivo de estresse e Guilherme vivia dando esporros em Bruno. Mariana só ria e achava tudo muito normal. Para ela, a vida tinha que ser curtida, não importava como. 

Mesmo gostando muito de Mariana, Guilherme se achava um peixe fora d´água. Achava Mariana uma garota prafrentex demais e ainda tinha a história do irmão, “recebendo o dobro de amor” como ele mesmo dizia, de duas irmãs gêmeas. 

Mas aquele carnaval de 2015 precisava ser especial. Precisava abstrair e deixar de lado todos os problemas e angústias e tentar ser um pouco mais feliz. 

Debaixo de uma chuva de confetes, mais de mil palhaços invadiram a praça. Guilherme segurou forte a mão de Mariana e, naquela grande confusão que se formou, uma outra mão segurou a dos dois. Guilherme, que estava com os óculos embaçados por causa do calor, estranhou, mas Mariana pareceu nem sentir, pois continuava sorrindo e saltitando ao som da banda. A terceira mão, maior e mais quente, os segurou mais forte e, num impulso, Mariana e Guilherme se entreolharam, baixando o olhar para ela, ali, entre os dois, se entrelaçando. Lentamente, foram subindo o rosto até encontrarem os olhos cor de esmeralda do pierrô, escondido sob uma máscara negra. Aquele olhar de duas bolas de gude multicoloridas que pareciam sorrir, hipnotizaram os dois. Logo, os três foram levados pela correnteza de palhaços foliões e, de mãos dadas, não se separaram mais. 

Naquele mesmo dia, os três foram juntos para casa de Guilherme. Os beijos triplos iniciados ainda no bloco, intensificaram-se no elevador do prédio e explodiram no quarto. Naquela noite de sábado de carnaval, o céu desabou em uma tempestade. Relâmpagos iluminavam os olhos cor de esmeralda enquanto os trovões abafavam os gemidos. 

(Ano passado – manhã de domingo de carnaval – 09:15) 

O alarme do despertador toca incessantemente. Guilherme olha para o lado e vê Mariana sob os lençóis brancos e vestígios de purpurina. As roupas multicoloridas das fantasias estão espalhadas pelo chão do quarto. “Será que sonhei?”, pensa. 

Sem fazer barulho, ele levanta devagar. A cama range um pouco, mas Mariana continua imóvel, com os longos cabelos de Vênus de Botticelli harmonicamente repousados sobre o travesseiro. Enrola-se rapidamente em uma toalha, abre a porta do quarto e caminha pelo corredor. Passa pelo quarto do irmão mais novo e espia pela fresta. Vê Bruno, com o torso nu e as duas irmãs gêmeas, deitadas sobre seus ombros. “Uma linda cena”, admite. Nunca tinha parado para admirar a beleza dos três, assim, à sua frente. Sorri com o canto da boca, olha para baixo e se espanta ao notar que está excitado com a situação. “Que loucura isso!”

Ao chegar à cozinha, vê um recado na porta da geladeira, escrito com uma letra milimetricamente bem desenhada, como aqueles cartazes de promoções de supermercados. “Precisei ir. Mas adorei a noite com vocês dois. A gente se vê. Beijo”

Na pia, um copo de água deixado pelo canto, uma embalagem de antiácido aberto e a máscara negra. 

(...) 

Os demais dias de carnaval foram inesquecíveis para Guilherme e Mariana. Apesar de não tocarem no assunto do que acontecera naquela noite, os beijos entre os dois se tornaram mais intensos. O toque, o cheiro e o sexo tinham se transformado. Naquele ano, ainda foram em uns cinco blocos e aproveitaram o carnaval como nunca. Levavam consigo a máscara negra na esperança de encontrar o seu dono e devolvê-la. 

A Quarta-Feira de Cinzas chegou e a máscara ficou exposta na parede do quarto, como um troféu. Às vezes, notava que Mariana o encarava como se quisesse imaginar seus pensamentos. Tímido, Guilherme fugia de seu olhar. Ela dava uma gargalhada e, rápida, dava um beijo em sua bochecha, ao mesmo tempo em que, implicantemente, bagunçava seus cabelos. 

Os meses foram passando e, por inúmeras vezes, Guilherme quis se livrar daquele adereço. Chegou uma vez até jogar no lixo, mas uma hora depois já estava revirando os resíduos do prédio para devolver o objeto de volta à sua parede, de onde nunca mais saiu. 

Próximo ao Natal, depois de Bruno e Guilherme terem discutido mais uma vez por assuntos domésticos, o assunto rendeu uma D.R. redentora. 

- O que aconteceu naquele dia com nossos pais já passou... Você não teve culpa, porra! Esquece isso, Gui! 
- Eu não deveria ter pego o carro... E eu nunca enxerguei bem à noite... Não deveria ter pego o carro... 
- Foi um acidente! O cara que porrou o nosso carro vinha na contramão! E o cara tava mamadaço, irmão! Foi uma fatalidade. A gente se salvou, tá ligado? Agora somos eu e você! Mas tu é preso no passado! Não admite ser feliz. Tu implica pra caralho com tudo! Eu faço minha facul, trampo em dois lugares, ajudo pra caralho nas despesas de casa... Mas você sempre implica com tudo: com minha cama desarrumada, com minha meia jogada, com a Ana e com a Cla... 
- Essas duas mesmo... Não fazem porra nenhuma... Não contribuem com nada... Ficam só na putaria com você! 
- Putaria? A gente se ama, cara! Você acha que só porque elas são idênticas, são a mesma pessoa? Você deveria repetir essa parada pra ver como é bom... 
- Repetir? Como assim, repetir? 
- Ah, deixa de graça! No carnaval passado você e a Mari se divertiram pra caralho com aquele brother lá... Choveu pra caralho, lembra não? O cara dormiu aqui... Cês treparam a noite toda. Eu e as meninas não resistimos e demos uma espiada... Aliás, a gente sempre espiou você e a Mari... 
- Seu viadinho! Não acredito que você ficou me espiando pelo buraco da fechadura? 
- Não foi pela fechadura não... Abrimos a porta e ficamos na penumbra vendo mesmo! Ah, quer saber... Você também já me espiou várias vezes... Naquela noite seguinte mesmo eu vi quando você abriu a porta... Pensa que eu não reparei, mané? 
- Não acredito! 
- Porra, a gente é igual, rapá! Poliamor! Vocês nunca se amaram tanto quanto agora. Estão precisando encontrar um terceiro. Isso faz com que a relação dê um up, saca? 
- Poliamor?
- É, porra... não é só sexo! Tem lance de afeto, carinho, saca? Sem preconceitos, rapá! Tu é muito travadão. O cara era gente fina, parceirão... Tive um lero com ele naquela manhã... 
- O que você conversou com ele? 
- Ah, nada demais, mas achei que seria bacana que vocês formassem um trio, assim como eu, Ana e Clara. Mas o cara ia precisar fazer um curso na Alemanha... Ele ficou com medo se se envolver. 
- E você só tá falando isso agora? 
- Só agora que você tá querendo ouvir isso, brother! Ele vai voltar no ano que vem. Pro carnaval. Quem sabe vocês não se encontram por aí novamente? 

(...) 

2016 - Sábado de carnaval - 07:01 

- Caraaaaaaaaaaalho, tu já está há mais de cinco minutos aí parado olhando pro infinito, mermão!!! 

A voz de Bruno fez com que o foco se ajustasse. A máscara negra estava lá, presa, bem no meio da parede branca. Ao redor, as moscas voláteis dançam. 

Novamente a voz do irmão caçula se esvai e Guilherme fixa o olhar na televisão. Uma repórter faz uma inserção ao vivo mostrando a multidão que já se aglomerava na concentração do “Empolga às 9”, na esquina ao lado de seu prédio, em Copacabana. 

“Onde estão meus óculos?" - novamente pensa, tateando a cabeceira e os encontrando abaixo do livro do Kerouac. Rapidamente, os coloca no rosto, enquanto a repórter continua entrevistando o folião animado que não para de falar. A câmera dá um zoom na sua fantasia de pierrô, mostrando todos os detalhes e fixa na máscara negra que esconde um par de olhos como bolas de gude multicoloridas que pareciam sorrir. Olhos cor de esmeralda. 

- Bruno, não vamos mais pro Bola Preta. 
- Como assim, caralho? 
- Vamos pro Empolga às 9. 

Na parede, as moscas voláteis dançam com mais intensidade. 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista na área de Gestão Estratégica de Comunicação e há mais de uma década à frente da assessoria do Hemorio. Nas horas vagas, é editor do Fanz, um site especializado em cultura pop, além de vocalista da banda de rock Soft and Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix.
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