quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A Turma do APP





Chegou a turma do funil 
Todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto 
Ai, ai ninguém dorme no ponto 
Nós é que bebemos e eles que ficam tontos...
A Turma do Funil

Matheus nunca esteve tão nervoso. As mãos eram como gelo puro e o olhar nervoso iam dos andares, que ficavam luminosos enquanto o elevador descia, para a porta do mesmo que não se abria. Estar ali era uma das coisas mais aguardadas pelo rapaz. Ele esperava por aquele elevador como uma criança espera o desejado presente de aniversário. Não, não de aniversário. Aquele caro presente de Natal.

O barulho anunciando que o elevador finalmente estava no térreo foi mais rápido que as portas metalizadas. O olhar ansioso do rapaz de vinte e cinco anos percorreu toda a fila de espera, que não era nem mesmo longa. A portaria do antigo prédio não possuía tantas pessoas que aguardavam pela caixa de metal. Seria só Matheus, Bruno, amigo de Matheus, e outros dois homens. Quatro pessoas para um único elevador onde cabem oito pessoas. Espaço de sobra para cada um ficar em seu respectivo canto.

Assim que entrou, Matheus foi logo querendo apertar o número do bendito e aguardado andar. Mas como Bruno era o único que sabia, mirou o amigo com olhar profundo. Bruno, por sua vez, olhou para o painel numerado e apertou, depois de um tempo, o décimo andar. Os outros dois homens conferiram o painel com o olhar e permaneceram parados no mesmo lugar.

– Ainda não estou acreditando. – confidenciou Matheus para o amigo, que sorriu em resposta.
– Relaxa rapaz! Você tem que ficar tranquilo para poder aproveitar. – aconselhou Bruno, sendo também um pouco provocador.

O silêncio que se seguiu foi pior do que toda a espera para estar ali. Os dois rapazes não conversavam entre si, mas era nítido que se conheciam. Não eram estranhos, mas também não eram amigos de longa data. Matheus acabou por olhar com o canto do olho para os rapazes e descobriu que ele era objeto de observação da dupla. A troca de olhares durou um tempo considerável. Tão considerável que toda a excitação sentida anteriormente começou a ir embora. Matheus passou a se questionar como fora parar ali, naquele elevador, em um prédio perdido no meio do centro da cidade, em véspera de carnaval.

Uma semana antes, Matheus se encheu de coragem e baixou o aplicativo que seu amigo recomendou. Segundo o “parça” do trabalho, com esse app era possível realizar qualquer desejo, qualquer fantasia sexual. Até mesmo nada. Um amigo desse “parça” marcou com uma menina para os dois ficarem em silêncio, só se encarando. Segundo esse “amigo”, o encontro foi em uma praça de alimentação de um shopping. Eles se viram, sentaram-se frente a frente e se olharam por horas. – E como tudo terminou? – quis saber Matheus. – No mais absoluto silêncio, cara. – Respondeu o “parça”.

Após fazer o download do aplicativo MeetingMatch, Matheus percebeu que estava evoluindo. Não ficaria só atrás dos vídeos pornôs do XVideos. Ele agora iria realizar suas fantasias. Seria ele no controle. Mandando e sendo mandado. Sobre isso, na verdade, o rapaz não tinha muita certeza. Submissão não era lá muito sedutor para ele. Mas mandar... Ah, isso o rapaz sabia que gostava e muito.

Fez seu cadastro, aplicou suas preferências e buscou pessoas que estivessem procurando pelo mesmo que ele ou algo correspondente, no mínimo. Matheus foi e ficou surpreso ao descobrir que não estava solitário no mundo. Um número considerável de pessoas também estava planejando realizar cada uma de suas fantasias e existia um lugar real para aquilo acontecer. Assim, trocar uma ideia com Bruno, amigo de seu "parça" do trabalho e que, segundo o "parça", “come de tudo”, foi moleza. Sabe como é, quem come de tudo não passa fome, é o que dizem. Ou é o que Matheus imaginava que diziam sobre isso.

De volta ao elevador, Matheus ouviu o barulho que avisava que chegaram ao andar planejado e esqueceu que estava sendo observado. Ou seria desejado. Também poderia ser notado. O que aconteceu para o rapaz é que ele sentiu tesão. Era hora do pau ficar duro e todos seus desejos se realizarem. Assim que a porta se abriu, ele ouviu o som de vozes. Muitas vozes. E também música. Marchinhas de carnaval. Nada mais clichê e típico do que isso.

Bruno e os dois rapazes estavam ao lado de Matheus e todos encaravam uma porta que estava fechada. Bruno acabou apertando a campainha e revelou que estava tão ansioso quanto o conhecido, que estava mais para amigo. Afinal, ninguém planeja fazer uma suruba ou seja lá o que for sexual com outra pessoa e não considerá-la amigo.

A porta foi aberta e os olhos de todos se arregalaram. A música ocupava todo o ambiente e o cheiro que vinha da cobertura invadiu todo o corredor.

– Sejam bem vindos! Espero que todo mundo esteja com disposição de sobra. – Disse o anfitrião. Ou, ao menos foi isso que todos concluiram do homem que abriu a porta e se encontrava ali parado sorrindo.

Os dois rapazes do elevador foram os primeiros a entrar no ambiente. Bruno seguiu os dois enquanto Matheus permaneceu parado admirando tudo aquilo. Então o rapaz recebeu uma bebida, que segurou automaticamente. O Anfitrião fez um brinde e piscou para o atordoado rapaz e avisou:

– Não se preocupe amigo. Aqui todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto. Se é que você me entende... – disse o sujeito que, logo em seguida, se afastou e deixou Matheus ali parado sozinho.

Depois de um tempo, Matheus provou da bebida, sorriu e entrou na cobertura fechando a porta e preservando todo o ambiente misterioso do lugar...

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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