domingo, 14 de fevereiro de 2016

Calar a Boca e Escutar Ninguém Quer, Né?




Tem texto que eu preferia não ter que escrever. Porque gostaria de pensar que, a esta altura dos acontecimentos, certas coisas não precisariam mais ser ditas. Mas aparentemente eu sonho demais. Então lá vamos nós. Hoje nós vamos falar sobre sensibilidade, sobre responsabilidade, sobre respeito e sobre nossa persistente dificuldade em abrir mão da vaidade para entender o lugar do próximo. Sobre ouvir. Sobre um tanto de coisa que parece óbvia, mas não é.

A primeira obviedade que eu gostaria de reafirmar: apenas porque algo não te ofende pessoalmente, não significa que esse algo não seja ofensivo. Recentemente estava conversando com um amigo que defendeu uma piada de mau gosto dizendo que ela podia até ser ruim, mas não era ofensiva. Depois de virar meus olhos em suas órbitas num ângulo de 360 graus, claro, pedi pra ele definir de onde tinha tirado essa conclusão. Ele respondeu: "entendo porque alguns grupos ficariam chateados, mas eu não fiquei". É, gente. Porque o cara branco, hetero (e rico, diga-se) não ficou ofendido, a piada não era ofensiva. Bizarro, eu sei, mas lá estava eu, explicando para um homem de seus 30 e tantos anos que a definição de ofensivo não é "algo que ofende a todas as pessoas do mundo da mesma forma". Triste, mas, por incrível que pareça, esse não é um pensamento raro. Quantas vezes, depois que alguma polêmica estoura, não temos que lidar com aquele(s) amigo(s) do grupo falando que é exagero, que as pessoas "tão muito chatas", que a piada "pode até ser ruim, mas não é ofensiva?". Gente, vamos estabelecer algo importante aqui: a gente não pode simplesmente decidir o que um termo significa baseado na nossa percepção. E a gente pode não gostar, a gente pode achar muito chato, mas a gente não pode negar seu significado. Porque não é assim que palavras funcionam.

Claro que a soma das nossas experiências e impressões define como enxergamos o mundo. Mas isso não significa que você possa colocar a sua vivência como medida de tudo. Quer dizer, você até pode, mas assuma os riscos de fazer papel de idiota. É virtualmente impossível se dissociar inteiramente da sua visão para abordar um assunto, mas o que você pode fazer é a obviedade número 2: se colocar no lugar do outro. A gente fala isso como se fosse lugar-comum, um clichê chato, inclusive a palavra "empatia" já virou material de zoações por toda essa world wide web de tanto que se bate nessa tecla. Você imaginaria, pelo tanto que as pessoas estão cansadas de ouvir a respeito, que saber se enxergar nos sapatos do amiguinho é algo que sequer precisa ser mencionado, um ato tão natural quanto espirrar ou franzir a testa no sol. Mas não é. Pelo menos não parece, porque eu vejo as pessoas brigando pelo direito de fazer piadas ruins, sob o manto da desculpa padrão da "liberdade de expressão". Porque eu vejo as pessoas reclamando que não pode mais chamar o amigo gordo de balofo, ou o gay de viado, ou a mulher de piranha. Claro que quem reclama nunca é o balofo, ou o viado, ou a piranha. É o cara que nunca sofreu o peso dessas palavras e, portanto, acha que elas existem sozinhas, sem a carga histórica e social. É o mesmo cara que defende piada de estupro, independentemente do trauma que isso possa engatilhar em quem escuta. É o mesmo cara que se recusa a chamar uma "trans" de ela, afinal, a experiência daquela pessoa - que, lembremos, é corroborada pela ciência e pela medicina - é menos válida que o direito do cara de falar o que diabos ele quer falar. Baseado no que diabos ele escolheu acreditar. É o cara pensando, mais uma vez, que o direito dele de ofender, para efeito cômico ou só de babaquice mesmo, deve de alguma forma superar o direito da pessoa de não ser ofendida. E ficando putíssimo quando alguém tenta mexer com seu direito alienável de ser um bostalhão.

E aí entramos na obviedade número três, que consiste em basicamente: uma vez faladas, assuma a responsabilidade pelas suas palavras. Até as pessoas mais preocupadas com o bem-estar alheio escorregam de vez em quando. Eu já falei minha parcela de coisas ofensivas e já magoei as pessoas várias vezes, porque o respeito ao próximo é um exercício, e dá trabalho, e a gente tem que se esforçar. Infelizmente, ainda não sou capaz de reverter a rotação da Terra e desfazer algumas cagadas (grande crise capilar de 2011, I'm looking at you), mas o que eu posso fazer é ouvir, entender onde eu errei, pedir desculpa e tentar não fazer de novo. Dá um certo trabalhinho, é verdade, mas acho que ativamente negar à pessoa ofendida os seus sentimentos dá mais trabalho ainda. Além do leve inconveniente de te expor como um escroto. Admito ficar intrigada pelo processo mental de uma pessoa que simplesmente se recusa a pedir desculpa quando machuca alguém, mas eu acho que é uma coisa de defensiva. Algo ocorre entre o "fui um babaca" e o "estou sendo acusado de ser um babaca" que faz a pessoa subir automaticamente os escudos. Eu entendo o impulso. Ninguém quer ser um babaca. Mas, felizmente, não somos reféns dos nossos impulsos. Nós os suprimimos diariamente, como quando levantamos cedo e colocamos aquelas prisões de tecido chamadas sutiã em volta dos nossos peitos para trabalhar. Ou seja, que tal tentar resistir ao impulso de se defender e dar uma chance ao que a outra pessoa está te falando? Você não precisa automaticamente invalidar o sentimento de alguém que se diz magoada com algo que foi dito. Se ela ficou magoada, tem um motivo. Pode não ser algo que te deixaria magoado. Pode não ser algo que você fez de propósito pra magoar. Mas aconteceu. Não é seu lugar negar a existência de algo que, por definição, existe. E isso nos leva à quarta obviedade.

Apenas porque algo não aconteceu com você, não significa que esse algo não exista. Essa é uma obviedade tão absolutamente gigantesca que eu adoraria não ter que falar sobre ela nunca mais, mas... Vou citar aqui outro causo pessoal, envolvendo um amigo. Discutimos no bar porque ele decidiu negar, assim na maior seriedade, que bullying seja algo real. Sim, isso mesmo, assim como alguém diretamente saindo de uma esquete dos Trapalhões de 30 anos atrás, ele decidiu que cabe a ele negar os efeitos negativos que ser xingado, excluído e ridicularizado pode ter na vida de uma pessoa. Admito ter ficado um tanto quanto desconcertada. Uma coisa é ouvir isso de pessoas mais velhas, que foram criadas em um contexto diferente e numa época em que abuso verbal era, muito infelizmente, menos publicamente recriminado. Outra coisa é ouvir isso de alguém da minha idade. Como último recurso, decidi dar um exemplo vívido: eu sofri bullying a infância e adolescência inteiras, minha vida escolar foi um inferno, e brigo até hoje para tentar remendar os estragos causados por uma vida sendo chamada de feia e gorda (com direito a toda sorte de apelidinho criativo, sempre atualizado de acordo com as referências culturais do momento, tendo percorrido de Slot a Shrek). Ele disse que ele também já foi chamado de "gordinho" e que estava muito bem, que as pessoas que carregavam o trauma para a vida - como euzinha, no caso - optavam por sofrer. Ou seja, minha experiência, minha vivência, minhas mágoas... Isso tudo foi negado por uma pessoa que decidiu - contrariando todos os dados, pesquisas e estudos inclusive de profissionais da saúde - que, porque ela não sofreu com algo, esse algo não existe. 

Eu fiquei chocada. Magoada. Com raiva. E parei pra pensar. Se eu, que tive uma existência razoavelmente privilegiada, fiquei tão absolutamente devastada com uma pessoa negando, na minha cara, a validade da minha experiência... Como se sentem os negros brasileiros, numa sociedade que consistentemente invalida a briga por uma reforma de linguagem e nega a persistência do racismo em todos os cantos da vida cotidiana? Como ficam os gays, que têm que escutar héteros usando a "acusação" de homossexualidade para ofender outros héteros e depois tentando defender que "viado" não é pra ser ofensa não, é só jeito de falar? Como ficam tantos grupos excluídos e estigmatizados, que, fora as agressões claras que enfrentam diariamente, têm que justificar o direito de brigar pelas próprias batalhas e navegar em meio a tanta negação e covardia? Eu não posso nem devo assumir o discurso desses grupos, aos quais não pertenço. Mas posso estender minha solidariedade. Tomar cuidado com as bostas que eu falo. Respeitar experiências de vida e os limites que me são colocados simplesmente por não tê-las vivido. Pedir desculpas quando cabe. Posso ouvir. E acho que isso é o mínimo que todos nós podemos fazer, em relação a qualquer outra pessoa, quando nossos discursos e ações - intencionais ou não - são confrontados. 

Parece óbvio, não? Mas não é. Infelizmente, não é.

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Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso, escrevendo sempre no último domingo do mês como convidada aqui no Barba Feita.
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