quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Eu Preciso Falar Sobre Martha Medeiros




Tudo começou com pequenos encontros descompromissados aos domingos. Ela, com curtas histórias em sua única página na Revista de Domingo, do jornal O Globo, e eu, em algum lugar do Rio de janeiro, odiando o domingo. Sempre odiei o domingo. Depois, descobri crônicas maiores. Contos, passagens da vida, acontecimentos pessoais. Descobri as emoções que podem ser sentidas através de um texto. Descobri, enfim, a existência de Martha Medeiros.

Mas não sabia quem era Martha Medeiros quando assisti ao filme Divã no cinema. Talvez até soubesse, mas não tinha ligado o nome à pessoa. Verdade seja bem dita, vi aquele filme por conta de Lilia Cabral. Mas ao fim, me senti saído de uma sessão de terapia. Não, essa não é nenhuma tentativa de trocadilho. Quem assistiu ao filme sabe bem do que estou falando. Se você não lembra, acho que está na hora de assistir de novo. Ou, se você ainda não assistiu, essa é minha dica para o final de semana.

Só que era sobre Martha Medeiros que gostaria de falar. Sempre senti em suas histórias, curtas ou longas, um pouco de lição sobre a vida. Não algo intencional, sabe? É sempre como uma autorreflexão, mas que acaba sendo maior. Sendo conjunta. Acho até que seus textos são pura catarse. É como se analisando o sentimento alheio, ele fosse (e acaba sendo) de fácil manuseio para gente. Mas apesar de falar e escrever, não conheço em nada Martha Medeiros. Mas ela muito me conhece. Acho que sabe melhor sobre meus sentimentos que eu mesmo.

A vida é algo tão singular que nossas tristezas ou alegrias acabam sendo compartilhadas. Seja através de amigos, nossa escrita, fotos ou hashtags. Dividimos sentimentos e falamos sobre cada um deles. Escrevemos e lemos também. É nesse exercício que algo que aparentemente é único e está dentro de nós, ganha domínio exterior. Possui um olhar que vem do outro. De alguém que “já passou exatamente por isso”, ou por alguém que “sabe muito bem como a gente está se sentindo”. Dor e alegria acabam sendo sempre algo compartilhado, mesmo quando dói dentro de nós e de mais ninguém. Só eu sei o quanto me machuca passar por algo, mas existe alguém que também já se feriu e sabe pelo que estou passando. E nesse momento, nesse segundo de dor, temos uma cumplicidade. Um elo que pode durar dois minutos, uma semana, meses ou até uma vida inteira.

No momento estou lendo Divã. E através daquelas páginas, das marcações que venho fazendo, me descubro. Vejo, através do olhar de Martha, o meu mundo. Meu mundo particular, que não dividi ainda com ninguém. Sei bem que não sei o que é ser mulher. Não sei o que é ser e estar na pele de Medeiros e muito menos possuo ideia de como ela se tornou a Martha Medeiros que conheço e leio hoje em dia. Assim como não sei como é ter três filhos homens, fazer terapia e descobrir que os anos de casamento me trouxeram um amigo e não um marido. Não sou Mercedes, protagonista do livro, assim como não sou Martha. Sou Silvestre e venho me observando cada vez mais. Talvez, o que Divã tenha me permitido seja ser um pouco mais livre. Não me ver como uma figura de posse masculina e o oposto do feminino. Me permito me ver como alguém que não faz ideia do que anda fazendo da vida, mas sabe que está preparado para se permitir ser surpreendido por ela.

Talvez, só talvez, esse texto não seja só sobre Martha Medeiros, mas muito sobre quem eu sou. Talvez, só talvez, mas não tenho nenhuma certeza sobre isso no momento.
viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia”. Mercedes - Divã
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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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