terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Larissa, José, o Match e Uma Dúvida Existencial





"Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?
Será que ele é bossa nova? Será que ele é Maomé?
Parece que é transviado, mas isso eu não sei se ele é..."
Cabeleira do Zezé

Larissa acordou assustada com a banda passando embaixo da janela da casa onde estava hospedada. Tirou os cabelos suados do rosto e olhou à sua volta. Parecia que o bloco, ou banda, ou seja lá o que fosse, estava lá dentro do quarto.

Se levantou, tomou banho e voltou para a cama pra curtir o restante da preguiça, afinal, tinha sido acordada contra a sua vontade. Pegou o celular e resolveu dar uma zapeada no Tinder, assim, só por curiosidade. Não era obcecada pelo aplicativo, nunca tinha conseguido um Match decente. Os bonitos eram totalmente acéfalos, e os outros... Bem, Larissa não era fã de caras casados, do tipo ostentação, ou dos que eram adeptos ao poliamor. "Custa surgir um cara legal? Não to pedindo muita coisa", pensou ela ao abrir o aplicativo.

Começou a conhecida jornada: Esquerda, esquerda, esquerda, hum... Direita? Não, esquerda, definitivamente.

- É, o Carnaval carioca não está surpreendendo nesse quesito.

Monique, sua amiga anfitriã, entrou de repente no quarto, com um cocar na cabeça, uma saia verde até os tornozelos e um biquini também verde.

- Que fantasia é essa?
- Não sei, simplesmente peguei tudo o que vi pela frente e vesti. Que desânimo é esse?
- Ah, é só preguiça mesmo. Esse calor maldito. E estou tentando ver se encontro algo que preste no Tinder.
- Você é péssima nisso, deixe-me ver.

Pegou o celular da mão dela e começou a zapear. Até que parou, boquiaberta. 

- Olha isso! Que gato!

José era o nome do cara, que estava de pé em frente a um quadro num museu, camisa florida, bermuda branca, sorriso bonito. E cabelos que iam até a cintura.

- Gato? Ok, mas olha essa cabeleira toda! Sei não, hein...
- O que tem? Não sabia que essa é a moda dos caras?
- Moda, sei... - Larissa revirou os olhos. - Esse aplicativo só pode estar me sacaneando, me mandando um gay.
- E como você sabe que ele é gay? Só por causa do cabelo grande?
- Ele é bonito demais, amiga! Já viu algum hétero tão bonito assim? Com cabelos tão bem cuidados assim?
- Bem, o que eu peguei ontem não tinha essa cabeleira toda, mas era um gato e me deixou tão...
- Não se entusiasme.
- Olha, é Carnaval, você está sozinha, por que não dar uma chance pro cabeludo?
- Porque ele claramente beija rapazes, Monique! Vamos ver as outras fotos. Olha só, de chapéu, fazendo uma pose estranha, usando brinco...
- Nada a ver. Olha, tem link pro Facebook, quer dar uma olhada?
- Fique à vontade.
- Olha só, que belezura! Esse corpo, esse sorriso... Amiga, você tem que jogar esse cara pra direita, viu?
- Não tenho nada! Ele é, tenho certeza disso.

Andréa, a outra amiga hospedada na casa de Monique entrou, vestindo uma tiara de Minnie, short branco e blusa regata preta.

- O que está pegando, meninas?
- Larissa não quer dar like num cara só por ele ser cabeludo, é mole?
- Ai, amiga, deixa disso, deixa eu ver essa foto. NOSSA, QUE GATO! Se você não quiser, joga pra direita e diz que suas amigas querem sim.
- Para com isso, gente!
- Ué, se você não quer... - Monique ameaçou jogar José pra direita.

Larissa passou por isso duas vezes. Eles eram bonitos, gente boa, simpáticos, e ambos sempre davam uma escapada pra curtir os caras. Não que ela tivesse algo contra gays, mas ter um amigo gay te avisando que um estava no aplicativo e ver o outro se pegando com um desconhecido podia ser um tanto quanto desagradável, pra não dizer traumático. Ela queria dar like em José, ele era mesmo muito bonito, mas era bonito DEMAIS, e tinha um excelente bom gosto, duas coisas que os outros dois caras também tinham: beleza extrema e bom gosto.

- Ai, eu acho que você devia dar uma chance. Se não rolar, você volta pra casa, simples assim.
- A gente vai junto, amiga, fica tranquila. Vamos ficar de longe, só observando, se você sentir alguma coisa ruim, é só sinalizar que a gente chega chegando e te salva.
- Minhas guardiãs... Ok, vamos tentar dar um like nesse cabeludo. Quem garante que ele deu like em mim?

E qual foi a surpresa? Monique soltou um "OPA!" ao ver que a amiga e José, o cabeludo, deram Match. E soltou outro "OPA" quando ele mandou um "E aí, tudo bem, Larissa?".

- Te chamou pelo nome, viu? Não te chamou de "linda", "gata", "rainha", essas coisas todas.

Larissa e José começaram a conversar. Ele era divertido, ela deu ótimas gargalhadas. Seus gostos eram bem diferentes, como músicas, filmes e programas de lazer. Pelo menos ele gostava de ler, algo que Larissa levava muito em conta.

- Certo, vamos nos encontrar na Lapa.
- Muito bem, amiga! - Monique e Andréa fizeram um high five, empolgadas.

As três se aprontaram e foram, o encontro era em uma hora. A Lapa estava hiper movimentada, confetes, serpentinas, purpurinas, fantasias variadas, muito samba, gente cantando sem saber a letra, gente cantando com a letra na ponta da língua. Aquilo deu um gás no ânimo de Larissa, que amava a festa.

No ponto combinado estava José, vestindo uma regata cinza, bermuda preta, tênis, e sua cabeleira esvoaçante. Bebia cerveja direto do gargalo, olhando o movimento carnavalesco. Quando avistou Larissa, abriu seu sorriso branco e levemente torto. Foi até ela, que olhou despretensiosamente para trás pra encontrar as amigas, que não tiravam os olhos dela, a alguns metros dali.

José a abraçou, empolgado, ela retribuiu, e continuaram a conversa de onde tinham parado no Tinder. Gargalhavam, falavam alto, cantavam junto com as pessoas, bebiam, e depois de um tempo, pouco, na verdade, José lhe roubou um beijo, um selinho. Larissa, já à vontade com ele, retribuiu o selinho, que se tornou um beijo maravilhoso. De longe, Monique e Andréa comemoravam.

Larissa agradeceu mentalmente às amigas por terem insistido tanto pra que ela desse like em José, que de gay não tinha nada. É claro que os dois não iam se ver por um bom tempo, já que ele era de Santa Catarina, mas ela aprendeu que não dá pra sair julgando todo mundo por conta das sacaneadas que você já levou na vida, certo? 

E foi pensando assim que ela e José tiveram ótimos quatro dias de Carnaval, ao lado das amigas, que também foram acompanhadas pelos amigos do cabeludo. 

No fim, todo mundo saiu ganhando...

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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