quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Marchinha Fúnebre




“O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, eu quero o teu amor...”
O Teu Cabelo Não Nega

Ouvia os versos enquanto ainda despertava. Parecia que fora tudo o que escutara nas últimas horas, embora não tivesse consciência. À medida que recobrava os sentidos, a reboque vinha uma forte dor na parte traseira da cabeça, que irradiava por todo o crânio e nuca. Tentou levar as mãos ao rosto, mas percebeu que estava amarrada.

Olhou à sua volta e estranhou o local. Parecia um depósito abandonado e empoeirado, com poucos pontos de luz, onde ainda era incapaz de identificar de onde vinha a cantoria baixa e grave:

– Quem tá aí? O que tá acontecendo?! – bradou, com certo desespero na voz. 

O que, para qualquer ser humano já poderia ser agoniante, para uma mulher sozinha poderia se tornar ainda mais; sempre ouvira, desde pequena, histórias e recomendações a tomar na rua.

Ouviu os passos, apressados e nervosos, revelarem à luz de uma das parcas lâmpadas a figura de um bate-bola. Com o rosto oculto pela máscara de madeixas brancas descabeladas, estava inteiramente vestido com tecidos e babados típicos, em cores mais frias que, aos olhos da mulher, soaram extremamente sombrias. Em uma das mãos, ainda carregava a barulhenta bola presa a uma corda.

Naquele momento, a recordação veio à mente como um vômito incontrolável. Bebia uma cerveja em um bloco carnavalesco com amigos quando se distanciou para procurar um local mais silencioso para ligar para o namorado. Escutou a algazarra daquele imenso grupo e bate-bolas passando, golpeando o chão com suas duras esferas plásticas. Depois disso, apenas um breu. E ali estava. 

– Ah... Acordou mulata? – falou, pela primeira vez, o homem.
– Quem é você? O que está acontecendo?!
– Pode me chamar de Clóvis...
– Que tipo de brincadeira é essa?
– Brincadeira? Por que você acha que é uma brincadeira? – agachou-se a figura para ficar na altura da mulher, que estava sentada em uma caixa de madeira.

Ela se pôs a chorar, num misto de nervosismo e certeza de que aquilo não acabaria bem:

– O que você quer?!

O bate-bola se levantou e virou-se de costas. Tornou a cantarolar, enquanto batia a bola no chão:

– “O teu cabelo não nega, mulata...” (POW) “Mulata, eu quero eu amor!” (POW)

Voltou-se para ela, de forma agressiva, chegando bem próximo do seu rosto:

– Mulata, eu quero o teu amor!

Ela virou o rosto e soltou um pequeno grito, em meio ao pranto que já descia sem controle. Ele, com sua mão livre, tocou-lhe o queixo e acariciou a face esquerda. Passeou a mão pelo cabelo cacheado da bela cabrocha, que vestia trajes curtos e coloridos, como uma dançarina de frevo. Aproximou a máscara de seu pescoço e a cheirou profundamente:

– Cheiro de mulata gostosa! – e bateu a bola mais quatro vezes no chão (POW, POW, POW, POW).
– Por favor, me deixa ir embora... – suplicou.
– Você vai embora... Mas não antes de eu ter o que eu quero...
– O que você quer?
– Ainda não entendeu? “Mulata, eu quero o teu amor”.

Ela chorou ainda mais forte:

– Você quer me estuprar, é isso?
– Não! – e bateu a bola de forma seca – Eu quero o teu amor, mulata... amor!
– Por que eu? Por quê? A gente se conhece?
– Não, a gente não se conhece... Ou será que se conhece? O importante é que a gente vai se amar...
– Como assim?
– Quero o seu amor, mulata... Me apaixonei por você quanto te vi. Te peguei só pra mim.
– Olha, eu não sei quem você é, mas eu tenho uma vida, um namorado, mãe, pai, emprego... Eles vão dar falta de mim...
– Isso a gente resolve, mulata... (POW, POW)

Foram interrompidos pelo barulho de um celular, que tocava dentro da bolsa da mulher. O bate-bola correu para atendê-lo, onde se podia ler na tela: “MOZÃO”. E atendeu:

– Alô? Não, não é a Rosa não, seu babaca. Aqui é o novo macho dela!

Ela tentou, aos berros:

– Amor! Socorro, socorro! Ele é louco! Socorro!
– Ela agora tá se divertindo comigo, seu babaca. Adivinha só: é Carnaval e você ganhou uma boa galha na cabeça, seu analistazinho de merda! – e desligou, arremessando o celular para longe, espatifando-se no chão.

Ele se virou para ela e, num golpe preciso, acertou-lhe o rosto com a dura bola, para um grito maior de dor de Rosa, dando tons rubros à morena pele.

– Vai pedir socorro, sua vadia?! Cala essa boca!

Deu de costas para a mulher enquanto ela se recuperava da dor, num choro que se mesclava ao do pavor. Até que ela teve forças (e consciência) para perguntar:

– Você falou o quê? Você falou analista? Você chamou o meu namorado de analisa? Você então sabe quem ele é! Como você sabe?! Quem é você?!

POW

POW

POW

– Fala! Que brincadeira é essa?! Hein?

POW

POW

POW

– Seu maluco de merda! Me solta, me tira daqui! – desesperou-se de vez. – Socorro! Socorro! Preciso de ajuda!

Ele correu até ela:

– É me tratando assim que você acha que vai se safar dessa? – disse, bem perto do rosto dela, através da descabelada máscara.
– O que você quer, pelo amor de Deus... O que você quer? Eu te dou qualquer coisa, mas, me solta, eu te imploro... 
– Eu já te falei... Quero o seu amor, mulata. O seu amor eternizado nesse momento...

Levantou a máscara até a altura do nariz. Ela, na esperança de ver o rosto, cessou o lamento por segundos. Ele, como num impulso, beijou-a de forma ávida. Tão ávida que ela mal notou a faca que o bate-bola retirou cuidadosamente do meio dos babados da roupa e, num só golpe, cravou-lhe no ventre.

Sentindo o afiado metal penetrar-lhe a carne, a mulher soltou um urro. Ele, friamente, rasgou a barriga desde próximo ao umbigo até a boca do estômago, enquanto ela apenas gemia, em espasmos. As latejantes vísceras saltavam e o sangue jorrava sobre o fantasiado homem e o ambiente. Quando já não havia mais vida naquele corpo, sacou a faca de volta e jogou no chão.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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