terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Minha Primeira Vez





Não, esse não é um texto sobre como eu perdi minha virgindade. Nem é um relato sobre #MeuPrimeiroAssedio. Mas é importante também. Queria contar um pouco sobre qual é a minha primeira lembrança real sobre vulnerabilidade, e como isso me assombrou por tantos anos (e assombra tanta gente, tenho certeza) até que eu descobrisse que ser vulnerável pode ser maravilhoso. 

Eu tinha por volta de 6 ou 7 anos. Sempre fui muito tímida. A mais quietinha da sala, a primeira da fila, a que não incomodava e, por sorte, não era incomodada por ninguém (exceto por uma menina de mesmo nome que o meu, que além de colega de classe, era minha vizinha. Devido à separação dos pais, ela acabou passando por uma fase difícil de chamar atenção, e fazia isso me mordendo todos os dias. Passou. Perdoei.). Nunca tive uma infância rica, mas também nunca me faltou nada. Estudei em colégio particular, fiz curso de inglês, natação, nunca fui à Disney, mas minha mãe sempre fez um esforço enorme pra provar que a singela cidade de Meaípe, no Espírito Santo, era tão legal quanto. Mas algumas coisas na minha casa eram artigos de luxo: refrigerante somente nos finais de semana, TV à cabo chegou bem tarde e internet só depois de meia noite. O aparato tecnológico foi quando fiquei mais velha, claro (mas o refrigerante sempre foi assim). O lanche da escola era sempre de casa, mas uma vez por semana minha mãe dava dinheiro para eu e meu irmão comprarmos algo nada nutritivo na cantina do colégio. 

Aí começa meu drama. Um dia recebi o dinheiro e mal podia esperar o sino bater (eu estudava em colégio de freira, era sino o tempo todo tocando por lá) anunciando aquela pausa merecida. Aquele seria o dia do combro cachorro quente + coca-cola de máquina. Minha surpresa foi que, ao chegar e pedir pra moça (Dona Ângela, que saudade) o que eu queria, ela logo olhou para a nota na minha mão e disse: “o cachorro quente aumentou”. Putz. Minha mãe não sabia disso quando me deu o dinheiro contado do lanche. E eu, tímida, não sabia argumentar. Nem pedir fiado. Isso aconteceu há muitos anos atrás e eu ainda consigo lembrar de como era a cantina, da cor da parede, dos azulejos engordurados, do cabelo dourado da Dona Ângela e da barba por fazer do Seu Natal (o marido dela), e lembro exatamente de como foi a cena: eu peguei o dinheiro de volta e sentei-me no banco de cimento verde bandeira em frente à mesa de pingue-pongue, cabisbaixa e com água na boca, envergonhada de não ter como pagar o lanche. 

Ora veja, eu poderia ter contornado essa situação, certamente isso já deve ter acontecido com outros alunos, e não é o fim do mundo. Mas pra mim era. A timidez me impedia de tomar alguma outra atitude que não a de olhar triste para meu par de tênis azul marinho, torcendo para o sino tocar novamente e eu não precisar mais estar ali, vendo todo mundo lanchar menos eu. Esse dia foi quando experimentei o gosto de estar vulnerável a qualquer coisa. Falta de dinheiro, falta de coragem, falta de jogo de cintura. Fiquei exposta à uma situação que eu não conseguiria resolver e me senti culpada. Por que eu não levei mais dinheiro? Por que eu não pedi só o cachorro quente e bebi água do bebedouro depois? Por que não pedi emprestado a algum amigo? Por que diabos eu deveria me sentir tão culpada por ter apenas seis anos e não saber resolver uma situação pela qual eu não tinha passado ainda? Sorte que, compadecida da minha situação, Dona Ângela me chamou depois de alguns minutos e me deu o lanche, dizendo que eu podia pagar no dia seguinte. Comi feliz. E me senti culpada em casa depois, quando tive que pedir mais dinheiro à minha mãe. 

Daí em diante guardei esse código no meu sistema nervoso: vulnerabilidade é ruim. E custou algumas porradas da vida, um TED Talk fenomenal e uma enxurrada de leitura da magnífica Brené Brown para que eu pudesse, então, começar a olhar novamente para todos esses momentos em que me senti vulnerável e perceber a beleza neles (e deles). Entendi que existe uma grandeza na vulnerabilidade em sentir um frio na espinha e o estômago revirado cada vez que você lembrar do primeiro “eu te amo” de alguém que você ama muito. Mesmo que você ainda ouça a mesma frase todo dia. Ou mesmo que você não possa mais escutar. Entendi que existe uma racionalidade quase raivosa na vulnerabilidade de um católico que assiste Spotlight no cinema. Ou de um judeu que se proponha a manter os olhos abertos durante uma cena que retrate de forma real demais o holocausto em qualquer filme sobre a Segunda Guerra. Entendi que culpa e vergonha são mais prejudiciais a mim do que a qualquer outra pessoa que esteja me vendo (ou lendo). Entendi que ter medo de ter medo não é vulnerabilidade, e sim insegurança. E ser vulnerável é aceitar que, às vezes, vamos ser, sim, inseguros. 

Então decidi que lembrar desse primeiro “eu te amo” deveria me deixar feliz, ao invés de melancólica. E que meus anos enfurnada em um colégio católico deveriam me deixar nauseada vendo Spotlight, ao invés de apenas encantada com um roteiro genial. E que prever que um cachorro possa me morder não deveria me impedir de tentar fazer carinho depois de uma cerveja a mais. Decidi que a vulnerabilidade faz parte de mim, faz parte do meu lado humano, do meu lado androide, do meu lado mutante, do meu lado transgressor, do meu lado corajoso e até do meu lado miserável. E por mais que sempre tenha feito parte, eu decidi enxergar isso agora, quando o medo de não poder pagar o cachorro quente não me assusta mais assim. 

Afinal, aprendi que a vulnerabilidade pode me ensinar, dentre tantas coisas, a pedir ajuda. E essa é a melhor lição que eu poderia ter aprendido nessa vida.

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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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