quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Na Escuridão




Abri os olhos como faço todos os dias quando acordo. Não sei até hoje o motivo, porque nunca enxerguei, mas sempre abro os olhos. Acho que é mais pela esperança de um dia uma imagem surgir. É difícil ser cego em uma cidade como Nova York. Uma cidade que, apesar de oferecer uma gama de cheiros, vozes e sensações, supervaloriza o visual. Ninguém pode cheirar a Estátua da Liberdade. Ou ouvir o Empire State. Ou sentir os taxis amarelos que, por si só, nos abrigam a saber as cores. Mas naquele dia, no qual abri os olhos despropositadamente, pude ouvir, pude cheirar e sentir aquelas duas torres.

Certamente, não foi a mesma coisa para mim e para aqueles que viram. Foi cinematográfico demais. As imagens foram muito chocantes para os que viram, mas as telas dos cinemas e das tevês traziam algo semelhante. Eu já havia ouvido estrondos parecidos, mas nunca sentido aquele cheiro de morte, um misto de poeira, fumaça e sangue no ar. Provavelmente, a maioria dos que presenciaram também não, mas isso foi secundário para eles. O 11 de setembro deles foram as colunas de fogo e fuligem, a cena do choque que as redes de televisão não cansam de repetir, foi ver o sol se pôr antes do meio-dia porque seus raios não tinham por onde passar. O meu 11 de setembro foi o barulho ensurdecedor das explosões e dos escombros caindo. Pior: das pessoas caindo, se espatifando, seus uivos de dor, seus ossos se partindo. A correria pelas ruas que, se eu não soubesse de que se tratava, poderia pensar que era uma cavalaria. As mãos que me empurravam e puxavam a fim de me ultrapassar e fugir daquele pesadelo, tão cegas quanto os olhos daquele que deixavam para trás.

Não, certamente não foi a mesma coisa para mim e para os que viram. Nunca tive noção do tamanho daquelas torres, apenas imaginava que, para olhá-las, era necessário levantar muito o pescoço. Não tenho noção sequer do tamanho de um avião como aqueles. Mas tenho noção da agonia e do desespero daqueles que, como eu, correram sem rumo, tentando se salvar. Tenho noção que mais de três mil mortes não é só um número: são menos três mil cheiros no mundo, três mil texturas, três mil sussurros...

Pela primeira vez, naquele dia, eu agradeci por ter aberto os olhos e ter ficado em minha escuridão.

*Conto originalmente publicado no livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades, do mesmo autor das nossas quartas-feiras.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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