quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Maior Desafio de Paulo Barros





Carnaval está chegando e todo mundo já está fazendo a sua listinha de quais blocos vai pular, quais amigos vai encontrar ou mesmo se vai fazer absolutamente nada e aproveitar para descansar. Eu, como já bem alertei um ano atrás aqui no Barba Feita, não sou um folião. Prefiro passar longe de blocos e afins (às vezes dá na telha sair com amigos pra fazer uma graça, mas é algo totalmente atípico). Contudo, gosto muito do carnaval das Escolas de Samba, desde o executado na grandiosa Marquês de Sapucaí até a miúda festa realizada na Rua da Conceição da minha cidade natal, Niterói, passando pelo limbo da Avenida Intendente Magalhães, na divisa entre Subúrbio e Zona Oeste cariocas.

Já acompanhei diversas vezes os carnavais dos Grupos de Acesso, os antigos A e B, agora unificados e chamados de Série A; já assisti às Séries B e C na Intendente. Já fui a barracão ver a montagem da escola do meu coração (da qual meu avô foi um dos fundadores), a Viradouro, quando ela ainda brigava por título do Especial; e já entrei no barracão coletivo das escolas dos Grupos B, C e D para ver como os artesãos e os próprios carnavalescos davam o seu suor para bravamente transformar material desprezível em festa e história contada na avenida. Não sou um rato de escola, nunca desfilei (ainda irei!), mas amo essa atmosfera e adoro acompanhar os desfiles, mesmo às vezes à distância, somente pela editada tela da televisão. Como será esse ano, após o repouso ainda forçado de um pós-operatório.

Por isso, minha expectativa maior é sobre o que poderemos ver na principal passarela do Samba do mundo, espremida entre os pouco nobres bairros do Centro, Catumbi e Cidade Nova. Esse ano temos uma bela safra de sambas enredo; se não encontramos pérolas como as mais recentes do Salgueiro (Gaia), Vila Isabel (Festa no Arraiá e Noel), Portela (Um Rio de Mar a Mar e Madureira) e Império da Tijuca (Batuk), ao menos a grande maioria apresenta um alto nível perto do conjunto dos últimos anos.

Além disso, para mim, a grande curiosidade do ano será ver como vai se comportar Paulo Barros na Portela. Escola mais querida, de maior torcida e mais títulos, não ganha unzinho sequer desde que eu nasci, em 1984. É a agremiação dos meus pais e, por esse motivo, sempre nutri simpatia especial por ela, ainda mais depois dos rebaixamentos da minha Viradouro. Porém, a Portela sempre carregou a bandeira do que mais tradicional e sisudo ainda havia no Carnaval carioca, sem conseguir se reinventar (tudo bem que, nos últimos anos, a escola passou mais leve e um pouco mais moderna).

Paulo Barros foi parar na Unidos da Tijuca em 2004. Passou por escolas igualmente tradicionais, mas atualmente menores, como Arranco do Engenho de Dentro, Vizinha Faladeira e Paraíso do Tuiuti. Amargou uma quase contratação na Caprichosos de Pilares, então escola do Grupo Especial, quando foi preterido por outro que apresentou um enredo sobre a Xuxa. Assombrou o mundo do samba ao trazer a Tijuca de aspirante ao descenso aos gritos de “É Campeã” com suas alegorias humanas. Foi a última grande revolução do Carnaval carioca, marcando todos os anos seguintes, inclusive o trabalho de outros colegas (e até desafetos). Teve na Tijuca a carta branca para deixar para trás toda a tradição da escola em fazer enredos históricos ou com temas lusitanos e ousou. Saiu dela a primeira vez em 2006 sem um título sequer, apenas as ovações morais das arquibancadas. Foi parar na minha Viradouro.

Na agremiação de Niterói, tinha tudo para conduzi-la ao campeonato e ser consagrado pela primeira vez com um título: havia dez anos que a escola não era campeã, havia uma comunidade empolgada em ter o carnavalesco mais badalado do momento, havia um enredo interessante e havia dinheiro. Todo esse favoritismo foi por água abaixo, com a notícia de que a escola não passara de um quinto lugar, ficando Paulo Barros atrás de sua antiga agremiação, a Tijuca. No ano seguinte, nem no Sábado das Campeãs a Viradouro voltou a desfilar: ficou em sétimo lugar, pior colocação em 12 anos. Novamente atrás da Tijuca. Foi um desfile realmente decepcionante perto do que foi esperado. O carnavalesco foi taxado de egocêntrico e equivocado. Foi demitido de uma forma bem deselegante, já com a preparação do Carnaval do ano seguinte em andamento, e acabou apenas ajudando na montagem da Vila Isabel em 2009. Retornou à Tijuca em 2010, onde, enfim foi campeão: três campeonatos em cinco anos (2010, 2012 e 2014; esse último, sobre Ayrton Senna, um tanto contestado). Uniu elementos de desfile mais tradicionais com suas inovações e reinventou a si mesmo; uma evolução da revolução, dando um passo atrás para chegar no alto. Acertou em cheio.

Saiu para, em 2015, ajudar a Mocidade a dar a volta por cima. O enredo na verde-e-branca de Padre Miguel foi o mesmo da Viradouro: empolgação, badalação, quase 20 anos sem título, dinheiro, muito dinheiro. De favorita, a Mocidade caiu para a dura realidade de um sétimo lugar; e novamente, Paulo Barros se viu atrás de sua ex-escola tijucana.

Na Portela, o carnavalesco terá, talvez, o maior desafio de sua vida, desde que chegou ao Grupo Especial, em 2004. Tornar a Portela campeã o consagraria de vez, dando o primeiro título à azul-e-branca de Madureira na era do Sambódromo e também a toda uma geração que, como eu, já é balzaquiana e não viu a águia no lugar mais alto do pódio. De quebra, ainda superaria pela primeira vez a Unidos da Tijuca desde que Paulo Barros a enfrentou na Avenida, fazendo o criador ganhar, enfim, de sua criatura – claro que a Tijuca tem muito mais história do que a que construiu de 12 anos para cá, mas também é evidente de que é praticamente uma nova escola, que cresceu às custas e à herança do talento de Barros.

Será que dessa vez vai? A resposta teremos na Quarta-Feira de Cinzas. Não perco esse desfile por nada!

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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