segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Os Sonhos, as Lembranças e a Profissão





Quando eu era criança, bem pequeno, eu queria ser astronauta. Lembro de ficar parado durante muito tempo, na parte superior da minha casa lá no interior, olhando para o céu negro e praqueles milhares de pontinhos brilhantes que tanto me fascinavam. Me imaginava viajando pelas estrelas, vendo cometas, conhecendo planetas. E, em minha mente infantil, não precisava sequer de uma nave para fazer isso, já que me imaginava à esmo no espaço, passeando pela Via Láctea e por outras galáxias (e olhando hoje vem perspectiva, acho que muito da minha imaginação e dessa vontade em específico vem de Viagem ao Céu, livro de Monteiro Lobato, que li ainda bem garoto).

Um pouco mais velho, mas ainda criança, talvez na fase pré-adolescente, eu mudei o discurso. Se me perguntavam "e então, Leandro, o que você quer ser quando crescer?", eu respondia de cara "bancário".  E me lembro de uma vez em que minha avó paterna, que eu amava e de quem sinto tanta saudade, me questionou se não seria melhor eu ser banqueiro ao invés de bancário, dizendo que banqueiro era o dono do banco. Mas eu fui incisivo e afirmei que não, que queria ser bancário. Afinal, eu me lembrava de um dia que havia ido até uma agência bancária com o meu pai e ficado encantado com o bancário que o atendeu, abrindo aquela gaveta e pegando tantas e tantas notas de dinheiro, enquanto eu, boquiaberto, achava que aquilo sim era poder e status. Inocente, eu sei hoje, mas era a minha mente de criança fantasiando que mexer em tanto dinheiro fazia da pessoa importante e dona daquilo tudo. Acho que no fim das contas, eu queria era apenas ser rico (e ainda quero, nota mental!).

Já no início da adolescência, sempre encantado com a televisão e nos áureos tempos da Malhação, lembro de fantasiar ser ator de novelas, vivendo mil personagens e levando uma vida de glamour e mil festas. Para alguém nascido em uma cidadezinha do interior do Rio de Janeiro, imaginar a vida de um ator famoso (ok, de Malhação, que seja, eu tinha só 13 anos quando a primeira "temporada" foi ao ar) era maravilhoso. Eu sempre viajei nas minhas ideias e desde sempre tinha o mantra de "eu vou sair dessa cidade, eu vou sair dessa cidade"; me imaginar na televisão era fácil quando se desejava tanto me destacar em meio a uma monotonia sem fim. Mas lembro também de uma vez responder que seria ator quando perguntado por alguém o que seria quando adulto e ouvir a resposta: "feio, magro e esquisito desse jeito?". Pois é, baldes de água fria e socos de realidade, a gente leva da vida (e isso marca, viu! Ainda bem que não traumatizou).

No ensino médio, quando escolher uma profissão tornou-se efetivamente uma preocupação e algo mais palpável, eu queria ser escritor. Minhas redações eram elogiadas, eu ganhei alguns concursos e prêmios com minhas histórias da época e tinha certeza absoluta que passaria o resto da vida escrevendo livros, dando autógrafos e entretendo as pessoas com os meus escritos. Mas, descobri, isso não seria nada fácil e, por isso, optei com plena certeza por outra carreira que poderia me fazer ser escritor de maneira mais fácil e por caminhos menos tortuosos.

Eu tinha certeza que prestaria vestibular, viraria jornalista, iria embora da minha cidade  e teria alcançado o meu objetivo. Ainda sonhador, queria apresentar o Jornal Hoje (que era o que eu assistia na época e achava muito mais relevante que o Jornal Nacional, vejam bem), escrever matérias e, quando descobri o que era o Pulitzer, eu quis um para mim, achei que ficaria bonito na minha estante imaginária, da minha casa imaginária, da minha vida imaginária.

Mas eu morava em uma cidade do interior do Rio de Janeiro, sendo o filho mais velho de uma família religiosa cujo sonho maior era que eu quisesse ser missionário da instituição, viajando o mundo e pregando o Evangelho. Se eu pensei nessa possibilidade algum dia da minha vida? Acho que até disse que talvez em algum momento, devido à quase lavagem cerebral que você vive ao ouvir dia após dia, ano após ano, que aquilo é o melhor significado de uma vida. Mas, né? Deus me livre e guarde dessa vida de abnegação e pobreza; não, nunca foi para mim. 

Entretanto, como seguir os seus sonhos quando ninguém em sua família te incentiva a isso, achando até mesmo perigosas as suas ideias de ter uma carreira "do mundo", com uma faculdade sendo desencorajada pela instituição religiosa da qual você faz parte? Eu fui prático e foquei em arranjar um trabalho. Acabei passando em um concurso público de nível médio e, logo em seguida, em uma universidade federal. Eu nunca pensei em ser administrador, mas a faculdade me abriu as portas, me deu um diploma  e foi com essa formação que eu efetivamente realizei o maior sonho que já tive na minha vida: sair da minha cidade e acabar morando no Rio de Janeiro.

No fim das contas, o que me parece é que apesar dos mil desejos profissionais que já tive para mim, mesmo que por caminhos mais longos, eu alcancei o meu objetivo que era ser feliz morando em uma cidade que eu já amava sem conhecer, com um trabalho que me mantivesse e me permitisse ter uma vida confortável. Hoje eu moro em uma cidade que é cartão postal e para onde pessoas do mundo todo vem para passar as férias; eu já viajei o mundo (e vou viajar ainda mais); eu faço o que bem entendo da minha vida, pagando as minhas contas com o meu dinheiro, que ganho com o meu suor e trabalho. 

E aqueles sonhos que tive um dia, o que faço com respeito a eles? Ainda acho (hoje um pouco menos, confesso), que deveria ter cursado Comunicação Social e feito Jornalismo. Como seria a minha vida se tivesse ido por esse caminho? Eu realmente não faço ideia. Mas, como isso não aconteceu e eu não sou nada bom em projetar os "e se..."s dessa vida, acabei me encontrando de outras formas. Eu ainda escrevo (e sou lido por vocês, vejam só!), eu ainda tenho o projeto de me tornar escritor (e estou trabalhando pra fazer esse desejo sair dos planos e virar realidade; quem sabe não vem um romance meu em breve por aí?) e, o que considero o melhor de tudo, eu sou feliz, me sinto em processo de realização, focando no que posso fazer para continuar tendo uma vida que eu considero a ideal para mim.

Mas os sonhos, ah, os sonhos ajudam a fazer de nós aquilo que nos tornaremos um dia. Porque hoje, dentro do Leandro administrador, vive um astronauta, um bancário, um ator, um escritor e um jornalista. Eles dividem espaço com o meu eu real, mas ajudando esse cara que toma as decisões e que acabou no comando, a ser mais lúdico, descontraído, leve. Porque eu posso ser único, mas não duvide, sou vários e diversos dentro dessa minha unidade. E imensamente feliz por ser desse jeitinho que acabei por me tornar...

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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