segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Sinceramente Livre





"Se fosse sincera, Ô ô ô ô, Aurora 
Veja só que bom que era, Ô ô ô ô , Aurora 
Um lindo apartamento, com porteiro e elevador 
E ar refrigerado para os dias de calor, 
Madame, antes do nome 
Você teria agora, Ôôôô Aurora..."
Aurora


Pegou a calcinha no chão, recolheu suas coisas espalhadas pelo quarto, conferiu a bolsa e ficou puta! Por que diabos não havia separado um dinheiro a mais para o taxi? Olhou para o corpo nu e avantajado do jovem negro sobre a cama, a bermuda amassada no chão e não titubeou: pegou a carteira do jovem rapaz, viu algumas notas, separou 200 reais. Arrumada, retocou o batom no espelho do banheiro e, antes de ir, deixou um beijo marcado no objeto. saindo sorridente daquela espelunca localizada em plena Gomes Freire, bem no centro da Lapa carioca.

Era segunda-feira de carnaval e ela sabia que suas amigas lhe dariam um sermão daqueles quando se encontrassem. O combinado havia sido seguir aquele bloco que se formara no Catete e rumava sentido Lapa e depois pararem para beber sob os Arcos, talvez encarando alguma festa, talvez ficando apenas pela rua mesmo. Não era apenas carnaval, era também a pré-despedida de solteiro de Lúcia, sua amiga, e por isso todas as cinco amigas estavam fantasiadas de noivinhas, lindas e soltas pelos blocos do Rio. E ela havia descoberto: não havia nada que desse mais tesão em um homem do que uma mulher vestida de noiva; desde que ela não fosse a sua.

Mas ela precisava confessar: suas amigas eram chatas. Mais do que chatas, eram chatas demais! Era carnaval, era a despedida de solteira de uma delas e o que as amigas faziam? Cu doce para aqueles homens maravilhosos que se engraçavam para elas, os corpos suados e brilhando de purpurina e calor. Ela ficava louca, queria todos, separados, juntos, nus. Queria ser possuída, queria se divertir. Mas as amigas davam risadinhas infantis e dispensavam os rapazes. 
Todas temos namorados, temos de ser fiéis a eles, já que prometemos que a despedida de solteiro seria apenas diversão inofensiva. Somos moças de família, não é meninas?
O caralho! Ela já era uma garota exemplar, elegante, bonita e sincera o ano todo. Ia à Igreja, aturava o namoro chatinho, mas tradicional, há anos. Era carnaval, ela estava livre, ela queria ser puta. E quando se deu conta disso, não se assustou, não se horrorizou, não pediu perdão a Deus. Não, nada disso, ela apenas sorriu e repetiu mentalmente: puta, eu quero é ser puta!

Naquele domingo, ela estava mais livre. Depois de algumas latinhas verdes de Skol Beats Spirit, foi seguindo o fluxo do bloco, mas se afastando das amigas que, como sempre, queriam manter-se unidas e afastar os caras que se aproximavam. Mas ela não queria isso, ela queria era mais, queria ser desejada, queria ser tocada, queria apenas uma coisa: pau. Fingiu se perder e, via WhatsApp, disse às amigas que estava no bloco, um pouco mais atrás, com pouca bateria.
Logo nos encontramos, não se preocupem. Se não for aqui, será na Lapa. ;-)
Claro, esse não era o seu plano. Logo ao seu lado, um negro malhado e sem camisa, com um boné de Super Mario e um olhar lascivo, sorria para ela. Com uma latinha na mão, fez um brinde que ela retribuiu e sorriu. Ele não perdeu tempo, chegou com tudo, pegou-a pela cintura, perguntou o nome e se aproximou para ouvir a resposta.
Achei que você era mais prático que isso. Meu nome? O que é um nome?
E riu, já que deve ter parecido bêbada com uma frase tão sem noção. Mas o jovem não ligou, abraçou, apertou e a beijou. A língua áspera, as mãos na bunda, o pau duro sob o short de tecido fino e ela completamente louca naqueles braços e sussurrando:
Vai apenas me pegar assim ou pretende ser mais ousado e me levar para algum outro lugar?
Não se reconheceu, mas gostou de ter sido incisiva e direta. Dali para o motel fuleiro da Lapa foi, literalmente, um pulo. Treparam feito loucos e ela, que sempre havia sido recatada e formal na cama, permitiu-se experimentar, ousar e, como dizia uma amiga não tão próxima, dar até secar. E era lembrando de cada detalhe da noite de sexo selvagem que ela caminhava até o metrô da Cinelândia, onde voltaria para Botafogo, onde morava.

Em casa, já na metade da manhã, tomava café e comentava com a mãe sobre os blocos, a noite e como tinha sido mais prático dormir na casa de Marina, a sua amiga. E a mãe, que sempre a incentivara a ser uma moça de família, a censurava pela decisão dos blocos das meninas, todas sem os namorados naquele carnaval. O que ela podia fazer, perguntou à mãe, já que as meninas queriam tanto se divertir sozinhas antes do casamento de Lúcia? Ela era uma boa amiga e não poderia deixá-las sozinha. Dizia isso e pensava no jovem Super Mário a puxando pelos cabelos enquanto metia sem dó e ela apenas pedia mais, mais e mais.

Lá pelas duas da tarde, depois de já ter falado com as amigas e contado que o celular havia arriado a bateria e, contrariada por não tê-las encontrado, voltara para casa onde dormira o sono dos justos, Felipe passou para encontrá-la. O namorado havia garantido que não bancaria o chato no carnaval e a deixaria aproveitar os últimos dias de solteira de Lúcia, mas ele estava pela São Clemente e não custava passar para lhe dar um beijinho, não é mesmo? É, é mesmo, passe aqui, ela dissera a ele.

Um beijo rápido e notou a chapéu de marinheiro do namorado e a camisa desabotoada. Ele dizendo que ia com os meninos em uma espécie de partida de futebol-bloco no Aterro um pouco mais tarde e ela dizendo que sim, claro, divirta-se, meu amor, mas pensando no pau duro e latejante do Super Mário que a havia tirado dos eixos. Ele podia estar vestido de Mário, mas com ele, sentia-se provando um cogumelo que a fazia apenas crescer.
Ah, Aurora, acho que nunca conseguiria outra mulher como você. E, veja bem, apesar da marchinha de carnaval, não existe mulher tão sincera no mundo e na minha vida. Te amo, viu, Aurora!
Era irônico, não? Ela, a Aurora sempre sincera, nem de longe parecida com a sua xará famosa da marchinha de carnaval, ouvia o elogio do namorado e pensava com seus botões que com certeza, agora entendia a sua homônima da música: pra que sinceridade se a felicidade estava ali, bem ao alcance de suas mãos?

E Aurora sorriu ao olhar para o namorado e ao imaginar o que ele pensaria se soubesse que ela, a sempre sincera Aurora, havia sido a putinha mais rameira da Lapa na noite anterior. E gargalhou. Apenas gargalhou. Sinceramente gargalhou.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

susana disse...

Leandro Faria vc é um show!!! Amei tudo. Queremos o livro já!!!!